As utilidades e novidades da filosofia

Por Gregory Gaboardi

Esperar por novidades da filosofia é perder tempo? Há quem pense que sim, que a filosofia não pode apresentar resultados confiáveis e inusitados, diferentemente da ciência. Não penso assim. Antes de discutir isto, porém, mostrarei que conhecer a filosofia pode ter utilidades. Afinal, para muitos, algo é novidade se for interessante e é interessante se for útil. Observa-se uma utilidade de conhecer a filosofia no seguinte: não conseguimos deixar de julgar o que nos cerca, julgar algo verdadeiro ou falso, certo ou errado. Podemos julgar bem ou mal, mas não podemos deixar de julgar. Conforme David Hume (1711-1796) notou, julgar é uma necessidade absoluta e incontrolável, tal como respirar e sentir. Assim, conhecer a filosofia teria a utilidade de melhorar a realização desta necessidade, pois disciplinaria nossa capacidade de julgar, nos tornando mais criteriosos no que consideramos verdadeiro ou falso, certo ou errado. Poderia ser objetado que este aprimoramento não é uma dádiva filosófica, que qualquer atividade intelectual rigorosa tem tal efeito em nossos juízos. Isto é, conhecer discussões da sociologia, da física, da economia ou da biologia aguçariam o senso crítico do indivíduo tanto quanto conhecer discussões filosóficas. Caberia esta objeção se eu alegasse que conhecer discussões filosóficas é condição necessária para julgar com competência, mas sequer alego que seja condição suficiente. Estou alegando algo mais fraco: é plausível que, em geral, conhecer discussões filosóficas torne o indivíduo mais competente em seus juízos, mas não é condição suficiente porque, como se sabe, há pessoas que estudam filosofia e que são estúpidas. Aliás, há até pessoas que ficam estúpidas por causa de certos filósofos. A filosofia não faz ninguém ficar imune à estupidez, não faz ninguém ter um elo especial com a realidade.

Contudo, mantenho que conhecer discussões filosóficas geralmente melhora nossos juízos. E melhora mais que conhecer discussões de outras áreas porque na filosofia, pelo menos na filosofia séria, se discute argumentos. Saber discutir argumentos é de utilidade maior que saber discutir teses da física ou da sociologia, pois argumentos ocorrem em todo tipo de discurso. A utilidade de conhecer a filosofia acaba, então, na melhoria do senso crítico? Isto seria muito pouco para justificar atenção maior aos trabalhos filosóficos. Não criaria expectativas já que dificilmente algum trabalho novo aguçaria tanto o senso crítico quanto qualquer diálogo de Platão. Portanto, para valorizar a novidade é preciso um pouco mais de utilidade. A outra utilidade de conhecer a filosofia concerne aos alvos do senso crítico. Como foi dito, julgamos por necessidade. Entre as coisas que julgamos estão coisas que, dadas as formas em que vivemos, inevitavelmente julgaremos. Por exemplo: julgaremos que certas coisas existem e outras não, julgaremos que certas coisas são justas e outras não, julgaremos que certas coisas são belas e outras não. Boa parte das discussões filosóficas, ao longo dos séculos, consistiram em aprimorar nossos juízos sobre tais questões. Destes aprimoramentos vieram resultados que não são familiares ao senso comum. Entretanto, temos fortes razões para pensar que alguns destes resultados são verdadeiros.

O caso exemplar aqui é a existência de Deus. No senso comum, Deus está em casa. No senso crítico, Deus saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou. Ainda há quem argumente pela existência do todo poderoso, mas é seguro dizer que entre os filósofos o acordo pela inexistência é amplo. A inexistência de Deus é um resultado filosófico que, se não é novo (a propósito: Nietzsche não matou Deus, só cantou vitória), pelo menos tem consequências notáveis. Alguém que passa a acreditar que Deus não existe reverá muito daquilo que julga certo ou errado, o que costuma ter efeitos bastante concretos. É útil saber que Deus não existe se estamos em dúvida sobre o que fazer para ajudar alguém com problemas de saúde, por exemplo. Considerar certos resultados filosóficos nos faz julgar melhor questões que eventualmente encontramos. As utilidades de conhecer a filosofia são, portanto, aguçar o senso crítico e aprofundar nosso entendimento de algumas questões inevitáveis. Aqui poderia ser dito que tais utilidades não decorrem propriamente do filosofar, mas apenas de se conhecer os resultados desta atividade, o que é verdade. São justificativas para darmos atenção ao que os filósofos disseram e dizem, mas não são justificativas (porque não bastam) para filosofar. Conhecer a filosofia é diferente de filosofar. De todo modo, já apresentei razões para que busquemos por novidades. Se podemos encontrá-las é o que discutirei em seguida.

Porém, talvez alguns ainda desconfiem da utilidade de conhecer a filosofia. Estes também desconfiarão da utilidade da própria filosofia. Como a utilidade de algo depende das necessidades de cada um, a filosofia é inútil para as muitas pessoas que passam fome neste instante, por exemplo. Mas, onde a vida é generosa com a curiosidade, perde importância a utilidade. Deixa de ser razoável exigir utilidade da filosofia na medida em que tal exigência impede o próprio filosofar. A razão mais óbvia para tanto é que, como em muitas outras atividades intelectuais, não sabemos de antemão o resultado de uma investigação filosófica. Exigir utilidade sem que seja preciso ou possível fazê-lo é, pois, inútil. Há razões mais fortes para que aceitemos certo desprezo da filosofia pelas nossas rotinas, pelos problemas concretos, e discorrerei sobre elas em outra oportunidade. Me incomoda a exigência teimosa por utilidade. Contudo, por ora, saliento apenas que na medida em que é razoável exigir utilidade da filosofia, ela atende tal exigência.

Discutamos as novidades. Não tratarei de qualquer novidade pontual. Quero apenas comentar algo curioso acerca da natureza dos resultados filosóficos: quanto mais inusitado é um resultado, menos ele parece confiável; ou seja, a imprevisibilidade do resultado é inversamente proporcional a sua confiabilidade. Esta impressão popularizou-se porque, entre os resultados filosóficos, destacaram-se os paradoxos. Ninguém pensa que pode ser verdade que não existam, por exemplo, o movimento, o tempo ou o livre arbítrio. Se um filósofo nos diz que uma destas coisas (ou mesmo todas) não existe(m), não desconfiamos da existência dela(s), desconfiamos da existência do cérebro do filósofo. Agora, se o filósofo está quieto em seu canto e lhe perguntamos “Sobre qual questão está pensando?” e ele diz “Estou pensando em como defender que pessoas existem.”, mais uma vez a existência de seu cérebro será posta em causa. É trágico para o filósofo, que aos olhos leigos parece eternamente ir e vir do absurdo ao óbvio. Esta é uma imagem trágica e, sobretudo, falsa da filosofia. É falso que a filosofia está alheia à realidade, que a filosofia não progride. A melhor maneira de desfazer esta imagem é mostrar resultados relativamente novos ou desconhecidos que não são banais e que desfrutam de algum consenso filosófico. É o que pretendo fazer quinzenalmente neste espaço do Tabaré. Um resultado filosófico é, enfim, uma solução para um problema ou a constatação de um problema. Dificilmente uma novidade filosófica será um resultado definitivo, o que não mostra que é por isso inaceitável. Tampouco tal dificuldade mostra que não pode haver resultado definitivo. E o resultado será novidade na medida em que for desconhecido e inteligível para o leigo. Esta não é uma restrição severa porque não há resultado filosófico sério que não seja, em última análise, inteligível para o leigo. As principais investigações filosóficas começam no senso comum e deixam rastros.

Um mundo sem novidades filosóficas é um mundo mais dogmático e cínico. Tais novidades muitas vezes nos fazem reconhecer nossa ignorância sobre algum assunto. Fazendo isto elas mostram uma terceira utilidade de conhecer a filosofia: ajudar-nos a conciliar o reconhecimento da ignorância com o otimismo. É mais raro, contudo, que esta utilidade seja percebida ou tenha efeito. Prova disto é a numerosidade dos dogmáticos e cínicos. Todo cínico no fundo é um dogmático, e um mesmo indivíduo pode ser dogmático sobre certo assunto e cínico sobre outro. Mas, deixando isto de lado, o que importa é que o dogmático não aceita sua ignorância, já o cínico finge aceitá-la. Os dogmáticos tipicamente estão distorcendo algum fato, reproduzindo certezas incestuosas. Os cínicos tipicamente estão entusiasmados com algum filósofo pós-moderno, inventando incertezas. Ambos acham besteira falar em novidades filosóficas. Se dependesse deles elas não existiriam. Por esta razão um mundo sem novidades filosóficas é, em todo caso, um mundo pior.