Vagamundo en portugués

Hoje acordei aos buzinaços. Vivo a meia quadra da avenida Corrientes, que por sorte não se faz escutar a todo momento, poderia ser muito pior, mas o certo é que hoje acordei aos buzinaços.

Faz um ano e seis meses que decidi me mudar da Grande Buenos Aires para a Capital. Trocar, ainda que seja temporariamente, o verde, o silêncio, o que sobra de pureza do ar, pelo agito porteño. Hoje em dia ainda não me arrependo, e não creio que o faça. Buenos Aires tem infinitas facetas, é uma cidade que pode ser um inferno ou pura magia, dependendo dos olhos de quem olhar. Eu, da minha parte, decido fazer deste lugar um espaço (enorme) em que posso facilmente encontrar o que busco. Mil vezes escutei a frase “tem gente pra tudo”, em situações variadíssimas, às vezes até degradantes. Mas é assim, ela existe. Se uma pessoa tem a esperteza necessária, pode passar por cima do que não compartilha, do que rechaça, e se aproximar da vida que quer ter.

Eu acho que é tão simples como a decisão de viajar de bicicleta em vez de ônibus ou trem. Há situações em que é inevitável, mas se no resto dos casos se consegue evitar, a vida cotidiana fica mais fácil de se levar.

De qualquer maneira, por outro lado não deixa de ser um lugar agressivo. Grande parte das pessoas vive em estado de loucura constante, com pressa, com muita violência reprimida (ou não, não sei o que é pior). Vivemos rodeados de injustiças sociais, corrupção, uma força policial da qual é melhor manter-se bem longe, gente vivendo em situação de rua em todos os lugares, ruas sobrecarregadas de carros e de gente, a insegurança essa que todos exageram mas que no fundo afeta pelo menos um pouco na hora de andar pela rua. Esta cidade respira e vive tudo isso. Mas eu sinto o dever de resistir, de promulgar como possa uma vida sadia, uma atitude que contagie vontade de fazer o que se pode. E em um lugar como Buenos Aires, há milhares de elementos para conseguir isso ao alcance da mão.

E é assim, creio eu. No fundo, talvez bem no fundo, depende só de cada um se situar onde se quer estar.

¡Salud!

 por Guido Kohn, Buenos Aires

tradução e foto: Felipe Martini

o texto original está publicado na edição 1 do Tabaré