Eu, liquefeito

torneiraMe descolo por fim daquele corpo! E assim posso sentir meu início, meus meios e meus fins. Compreendo agora meu tamanho, minha forma, meu cheiro e minha mobilidade. Flutuo abismado. Flutuo, considerando que o esforço valeu a pena. E ainda há toda essa água limpa a lamber a extensão do meu corpo. Poderia mudar de formato, mas não sei se quero, gosto dessas curvas que tenho. Flutuo abismado. Mundo d’água. Mundo branco. Mundo liso. Nunca nos confundiremos. Mesmo que eu deixe marcas, e eu deixo marcas. Somos marrons, eu e elas. Assistindo ao mundo branco. É sensacional. Que bela merda que sou! À deriva, o mundo se põe a girar, eu me ponho a rodar. Rebolando e escorregando rumo ao desconhecido. Belo mundo anti-horário. Belo mundo para viver um anti-corpo como eu. Sinto a gravidade. É sensacional. Este corpo de merda quase se desfaz em emoção. Não há mais luz.

Me sinto mais corajoso ao encontrar meus primeiros pares: são uns cagões de merda, com medo do escuro, se perguntando para onde vão, de onde vêm. Bóiam comigo na mesma água, navegam comigo pelos mesmos túneis, mas tanto medo do fim do túnel os impede de perceber as variações de temperatura da água, o cheiro de shampoo que invade esta curva que estamos fazendo. Há um fim de sabonete que pretende não se misturar. Confesso que eu também pretendo. Os cagões amedrontados não escutam nem mesmo o imenso catarro verde que não cansa de falar sobre a transcendental experiência de entrar pelo ralo do chuveiro. Catarro chato. Esses cagões e esse catarro não conseguem curtir esta fossa. Flutuo abismado. Aposto que não perceberam aquele feto humano que estava preso à grade duas galerias atrás.

Mas o pior não é sentir o seu cheiro de medo, ou ouvir a única história desse catarro matraca que não cala a boca. O pior é que este caminho nos deixa cada vez mais próximos. A cada cano somos mais um caldo e menos excrementos. Confesso que isto, sim, me dá medo.Porque o sabonete e o catarro já se tornaram uma coisa só. Outros dois cagões de merda também já se fundiram e se comprazem juntos. Me pergunto se, juntos, esses cagões se tornam ainda mais medrosos ou se juntinhos, tal qual um bolinho de merda, se sentem mais confiantes. Se ainda não pensaram sobre isso, devem fazê-lo logo, porque acendeu uma luz no fim desse túnel em que estamos. (Confesso que o caldo engrossou tanto nestes últimos metros que eu só poderia dizer o que sou por aproximação.)

A boca de luz aumenta na mesma proporção das teorias produzidas pelos cagões sobre o destino pós-túnel. Estapafúrdias teorias. Não vou reproduzi-las pelo simples fato de serem nojentas. Mentira, não vou reproduzi-las porque toda minha atenção está voltada para uma relação que se avizinha: um fluido sexual está cada vez mais perto de mim desde aquela curva que anunciou o horizonte. E eu não tenho estômago para esta relação sexual involuntária. Como eu poderia forjar teorias com essa gosma ambiciosa querendo se mesclar a mim? Luz, quero luz!

Peço e recebo luz da boca que se abre. Vejo mais água do que qualquer excremento já viu. Não consigo definir se isto é um lago ou um rio. Só entendo de canos. Enfim, vou chamar de rio. Até porque isso não importa, só interessa que aquela porra cheia de malícia se afastou muito de mim desde que saímos do cano. Não os vejo mais também, o catarro e os cagões. Alívio total! Me dou ao luxo de curtir esta sucção que se apresenta. E digo que sucção é gostoso, me toma pelas vísceras. Ao meu lado, uma barata que parecia morta, quase me mata de susto. Cano! Cano! Cano! Cano! Ela fala como se eu não conhecesse canos. Estou cagando para os canos, dou risada da barata. Que bom que ela está viva para me fazer rir. Sucção! E vamos juntos ao cano, eu e a barata engraçada, e rindo me desfaço.

Certezas de um mosquito que assistia ao pôr-do-sol

“Acabo de presenciar a morte do cocô mais corajoso que já foi sugado pelo sistema de tratamento de água de Porto Alegre. Introspectivo, risonho e com traços bem característicos, certamente teve uma vida feliz. Cada torneira desta cidade deve comemorar o fato de ser veículo para sua alma.”

texto e foto: Gabriel Jacobsen / Tabaré