O Tabaré e a feli(z)cidade.

A rua paralítica das seis da tarde é um espetáculo que a cidade nos obriga a contemplar, como uma condena remetida do além, como uma ditadura de ditadores invisíveis. O trânsito lento, estéril e fumacento que este Porto Alegre aprendeu a imitar, com a benção estúpida e suicida de tantos governantes, crendo com inocência adolescente que o progresso veste gris e que a sinfonia da cidade é feita a buzinaços, esse trânsito que de trânsito tem pouco, que impõe aos cidadãos velocidades médias de 10 km por hora, inclusive àqueles que por opção ou por falta dela elegem outros meios de transporte, esse show cotidiano já nos cansou – ou deveria! – os ouvidos, os olhos e os pulmões.

Pelos sinuosos caminhos que compõem nossa metrópole, multiplicam-se heroicos equilibristas de duas rodas, que ao empunhar seus guidões subvertem a inexata lógica que escolhe perigosos caixotes de lata ao invés da salutar brisa de um ar puro que brinda o passo flutuante das bicicletas. Essa legião pacifista sobrevive diariamente ao peso de uma estrondosa manada de motores, pequenas fábricas de poluição tão benquistas por publicitários, petroleiros e economistas. Um atropelamento coletivo foi preciso para que resurgissem promessas sólidas como algodão-doce a respeito de um ambiente não hostil aos ciclistas.

Mas já faz tempo que aprendemos a sacrificar a cidade sobre o altar do Deus-carro, mutilando sem lástima nem memória árvores, calçadas, praças, espaços de convívio, enfim. Vejam o Parque Marinha agora atorado ao meio, decepado em nome de uma duplicação viária que em uma década estará obsoleta, sem que uma voz sequer tenha podido se levantar com a devida força! Lamentem o asfalto esburacado ou não que cobre o paralelepípedo intacto de outros tempos, impedindo que a água encontre seu caminho primitivo e puro. Chorem ou insultem pela cidade perdida, pelos direitos pisoteados e pelo silêncio que costuma cobrir toda essa bosta. Chorem e insultem e façam diferente.

 

(charge de Rafael Corrêa).