Sobre fios e movimentos

Publicamos abaixo a valiosa carta do leitor Thiago Batista, que por motivos óbvios não pôde ser publicada na íntegra em nossa seção de cartas do Tabaré. Esperamos a tua!

Eu descobri o Tabaré quando da sua segunda edição. Eu estava distraído quando a palavra “bissexual” escrita em letras garrafais me chamou a atenção.  Percebi que se tratava de um jornal. Inicialmente, não dei a devida importância, já que maiusculizar um termo polêmico como chamariz de possíveis leitores é praxe na imprensa mais comum. Meu ceticismo, fruto de experiências anteriores, não me deixou seduzir, todavia. Inicialmente.

Ao reparar na capa com mais atenção, porém, percebi que ela era ilustrada por um cartum de um (a) dos(as) artistas que mais tenho  admirado recentemente e que, na verdade, trazia uma frase genial. Devorei o tablóide. Mesmo com eventuais indigestões aqui ou ali.

A iniciativa de se fazer um periódico independente e rebelde me pareceu alentadora e necessária, sobretudo face ao jornalismo cartilhesco que temos por aí. Um informativo que não desinforma, ou seja, que não só aglomera a narração de fatos acontecidos, mas que procura provocar quem lê. Se a politização prometida pelo jornal significa superar o senso comum e contextualizar os fatos, então acreditei que o Tabaré prometia ser realmente interessante.

Na terceira edição do jornal, no entanto, a realidade me veio lembrar que escapar ao senso comum às vezes é difícil, mesmo para aquelas pessoas que intencionam nadar contra a corrente.  Para lá de trinta anos atrás, por exemplo, quando surgem os chamado novos movimentos sociais, a própria esquerda teve que rever seu discurso de forma a reconhecer a urgência política de determinados grupos sociais cujas demandas, até então, eram consideradas secundárias ou até, em casos de miopia mais grave, politicamente irrelevantes , como o movimento negro, o feminista e o nascente movimento  homossexual.  Da centralidade do discurso nas questões de classe, passou-se então a reconhecer e combater também outras formas de opressão.

A percepção de um descentramento das opressões, do que decorre um descentramento e uma multiplicação das formas de resistência, surge da desnaturalização de (pré-)conceitos que passavam despercebidos inclusive pelo discurso – e pela prática – da própria esquerda, os quais eram capazes de criar o consenso mais dócil entre o esquerdista mais radical e o reacionário mais emperdenido. A homossexualidade, por exemplo, divide o coração dos esquerdistas até hoje.

Há quem se diga revolucionário, mas que ainda não compreendeu a repressão sistemática a que estão submetidas as pessoas que escapam à ordem heterossexista. Há até quem ainda não percebeu que o heterossexismo e o machismo compõem a ordem contra a qual tantos militantes de esquerda lutam e que a idéia mesma de uma sociedade mais justa que não vislumbre o fim da opressão homofóbica é uma idéia cínica.

Uma das peculiaridades do movimento homossexual, por exemplo, era ter que combater não só a homofobia dos setores mais conservadores da sociedade, mas também a inércia – quando não a hostilidade – da esquerda a esse respeito. Era ter que desmistificar uma série de conceitos a respeito da homossexualidade e sobre qual era o objetivo do Movimento Homossexual, hoje mais conhecido como Movimento LGBT. Era ter que evidenciar o caráter gritantemente político da sexualidade e como algo para uns tão banal, para outros era uma questão de vida ou morte.

Ao ler, na terceira edição do Tabaré, uma nota jocosa sobe tomadas de três pontas me vi novamente diante da falta de tato da esquerda e dos meios de comunicação com as questões de diversidade sexual.  A nota, numa tentativa de fazer piada, dá a entender, no seu remate, que o fio terra – sim, a maior e mais terrível ameaça à virilidade – não seria algo bom e seria, na verdade, algo a se evitar. É impossível deixar de suspirar com enfado frente a um sinal tão infantil de insegurança masculina.

Apesar disso, o que se propõe aqui não é exatamente elaborar uma crítica sobre a competência cômica da nota, mas, sim, oferecer uma crítica construtiva que nos ajude a ir além do senso comum: reforçar o tabu sobre o fio terra só serve para reiterar a repressão sexual que nossa sociedade impõe sobre a masculinidade, a negação do prazer e a falta de intimidade com o próprio corpo. Apesar de fazer parte de toda uma visão de mundo sexista, essa não passa de uma implicância boba. É melhor, portanto, focar no ponto mais relevante dessa crítica, construtiva ressalto.

A provocação ao movimento gay (sic) é desnecessária e politicamente contraproducente. Após tantos anos de luta, ainda temos que nos deparar com a associação entre a homossexualidade e coisas fúteis é lastimável. Com um pouco de sensibilidade crítica e política e de informação, seria possível ver que existem questões bem mais sérias na agenda do movimento LGBT do que se supõe.

Quando que eu li a edição anterior do jornal, eu imaginei que o Tabaré se pretendesse para todas as pessoas, mas, aparentemente, há coisas nas páginas tabarenhas que são dirigidas somente ao deleite cômico heterossexista. Antes que me acusem de não ter senso de humor, todavia, eu só diria de antemão que fazer gracejos com a realidade alheia é deveras fácil.

Eu sinceramente espero que nas próximas edições eu possa ler provocações positivas, que estimulem as reflexões libertárias e o esforço crítico e não provocações que reiterem o senso comum, ou seja, que ajudem a manter as coisas como estão. Estou certo de que desde o princípio este nunca foi  o objetivo deste jornal.

Política, e aqui se inclui a política sexual, se faz até nas pequenas coisas. Quanto menos nos deixamos oprimir, mais liberdade temos para sermos donos e donas de nossos próprios destinos e corpos.

Atenciosamente,

Thiago Batista.