Defensa de la alegría

Luz, cidade, ação! É numa tarde de outubro, ensolarada e viva, que se recolhem, finalmente, os tapumes da Praça da Alfândega. O nobre espaço, há mais de dois anos sonegado aos cidadãos, recobra temporariamente sua vocação popular: cruzam a praça num vai-e-vem surpreso putas e advogados, artesãos e obreiros, aposentados e engraxates. A restauração prometida de fato se faz visível – e evidentes são também os inúmeros itens de acabamento que se esqueceram de comparecer. Há nas árvores e cabeleiras uma brisa buena que vem do rio, nos passos apressados do crepúsculo uma ânsia de descanso que não impede os olhares curiosos dos seus donos.Nosso Centro Histórico tem agora algo de diferente no ar. Longos foram os anos de agonia, impulsionada pela louca especulação imobiliária dos anos 60 e 70 que pôs abaixo uma parcela irrecuperável da memória da cidade. Dura também foi a década de 80, que viu uma cidade imóvel e desencontrada com seu destino. No último decênio do século, porém, um modesto sopro encheu os pulmões da esperança citadina, com a recuperação de grandes monumentos históricos e arquitetônicos então condenados à ruína. Salvou-se o Hotel Majestic, a Usina, o Mercado, entre outros, e sobretudo salvou-se a vontade de ver esta cidade linda e acolhedora como merece, como merecemos. E então veio o novo milênio, com seus fóruns sociais e ânsias de mudança, trazendo consigo um ensaio de renascença a esta parte da cidade. Mudaram os governos e grande parte das políticas municipais, mas a onda de restaurações e melhorias urbanas, ainda que modesta, prevaleceu, motivada por programas estatais, pela relativa prosperidade econômica do presente e também pela pressão crescente de porto-alegrenses fartos com esse descaso dolorido e crônico.

A dita revitalização do Centro está sim acontecendo, mas seus caminhos são tortuosos como as ruas da Capital. Há, como sempre, uma disputa de projetos para a cidade. A Prefeitura não raro confunde reestruturação com elitização, como é o caso do recém reformado Chalé – lindo e caríssimo. E distorções como essa não faltam, e tampouco reações a elas. Mantém-se o abandono de muitas construções históricas não-tombadas e o favorecimento constante ao transporte individual, daí termos um Largo Glênio Peres (des)usado diariamente como estacionamento noturno. Tal espaço resiste como palco de manifestações diversas onde artistas de rua, pregadores exaltados e militantes em geral encenam um quadro onde os carros são obrigados a ceder espaço para a música, a amizade, o grito – para as pessoas.O Centro que a gente quer de certa forma já existiu, numa época de cinemas de rua e cafés, de passeios e carnavais em plena Rua da Praia. O Centro que a gente quer tem cor de vida e gosto de futuro, tem tu, ele, nós, vós, eles. E tem um montão de sorrisos, suficientes para enfeitar um número infinito de imagens como esta.

Foto: Felipe Martini/Tabaré