Drive da São Carlos



O Drive da São Carlos tem McChicken para todos os gostos: com maionese, com galinha frita ou com frango na chapa. A fila é tão grande como a do McDonalds depois de um sábado de festa, porém ali os clientes buscam outro tipo de comida. Na Av. São Carlos – ou Rua do Sexo, para os íntimos – o carro passa por vários guichês, até encontrar o melhor custo-benefício. Tem para todos os gostos: a certinha, a espalhafatosa, a que banca a modelo, a puta-sim-com-orgulho, a travesti e a mulher que esconde o volume (lembrou do Ronaldo?).

O ponto funciona das 19h às 7h. De um lado da rua estão as putas, do outro a paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus, uma das igrejas mais procuradas do Rio Grande do Sul para a realização de casamentos. Nela encontra-se uma das poucas obras do pintor Aldo Locatelli no estado. É como se o cliente passasse por uma aprovação divina: “vá, meu filho, tenha uma boa refeição”. Para trabalhar com tal benção, a puta tem que comprar a sua indulgência, como se fazia na Idade Média, mas em vez de pagar à Igreja, na Rua do Sexo é preciso pagar ao cafetão. Cada agenciador possui um espaço com 20 mulheres em média, que lhe pagam 20 reais por noite para trabalhar. Ou seja, mais de 10 mil reais para vigiar e, de vez em quando, dar uns tabefes nos clientes ou nas funcionárias. Quer trabalho melhor que esse?

Para elas é que não é tão fácil assim. Umas fazem por gosto, outras por necessidade ou falta de opção. É o que contaEdson, dono de boate que poderia passar-se facilmente pelo gringo dono da fruteira do bairro. Segundo ele, no começo a maioria das mulheres começa a se prostituir porque precisa sustentar o filho, o marido, mas logo se acostuma a ter o dinheiro na mão no final da noite, aí é difícil aposentar a bolsinha e o vestido prateado.

A travesti Juliana começou porqueestava cansada de ser menino. Às 22h, ela chega ao seu guichê, no seu ponto, com uma calça jeans apertada e uma blusa vermelha que deixa à mostra a barriga malhada. O rosto não denuncia o que ela tem entre as pernas: os traços são delicados, a maquiagem discreta e os cabelos de um loiro falso, desses que deixa entrever a raiz morena. Ela faz o estilo comportada e sorri enquanto os carros passam devagar. Juliana já tentou um emprego convencional, com carteira assinada, mas nunca recebeu nenhuma resposta dos tantos currículos que distribuiu. Quanto à possibilidade de trocar de nome e realizar a cirurgia de operação de sexo, lembra como esse processo é caro e demorado: “Demora dois anos pra mudar de nome. Se eu tiver pressa posso pagar 1.500 reais, mas eu não vou dar esse dinheiro para o Governo, prefiro ficar aqui então”.

Laila, ao contrário, gosta do que faz. Há quatro anos no negócio ela surge chamando a atenção no alto dos seus 1,85m, top e calça amarelos fluorescente, e a boca excessivamente glossificada. Em cinco minutos, ela toma uma lata de Coca Cola Light e acende dois cigarros, com o nariz umedecido e o olhar desfocado. Quando os carros passam com a música alta, ela rebola até o chão.

Já as mulheres de lá são mais arredias, não gostam de falar, até porque nenhuma parece ter mais de 18 anos. A agenciadora estava lá, sentada ao lado das meninas, e disse rapidamente que não havia interesse em falar com ninguém.

VIDA FÁCIL?!

Na Rua do Sexo, o programa custa em média 70 reais, mas a carne é de primeira. Edson assegura que as profissionais do sexo se cuidam muito mais que as amadoras, além de saber técnicas milenares de como levar um homem à loucura, com orgasmos tântricos e massagens orientais. Assim, a desvalorização dos serviços indigna as meninas, afinal, há todo um investimento em silicone, pelling, cabelo, depilação. “Tem por aqui umas mulheres que fazem um boquetinho por dez reais, o programa a 30. Assim não dá, baixa o movimento e desvaloriza o nosso trabalho”, revolta-se Juliana.

Os carros que passam parecem não ter problemas em pagar os valores cobrados, são sedans Fusion, Vectra, Micra, Civic, Pajeros, todos devidamente ocultos atrás de densas camadas de insulfilm. Escondidos, pois muitos deles são casados, personalidades, garotões fortes, que preferem não serem vistos com travestis. Na noite da São Carlos já passaram jogadores de futebol, pilotos de stock car, entre outros famosos, mas a discrição impera, ninguém vê nada, sabe de nada, escutou nada.

Apesar de se dissimularem, os clientes não têm medo de demonstrar o seu amor pelas putas. “Vááááááááários já se apaixonaram por mim, mandaram flores, vinham todos os dias, mas com beijo na boca é mais caro, só se for muito gatinho eu beijo grátis”, esclarece Laila, enquanto ensaiava um desfile para um grupo de quatro jovens que a filmavam e gritavam “gostosa”, sem ironia.

Para Edson, o único problema que as putas têm é dia de chuva. Elas não concordam.  A violência, a homofobia e o preconceito existem. Carros passam em alta velocidade jogando o pó químico do extintor de incêndio, ovos, cuspindo. E quando os clientes são mal educados, elas soltam a franga. “Uma vez um cliente não queria me pagar, eu fui e quebrei todo o carro dele”, conta Laila. “Eu já pulei de carro em movimento no meio da BR 116 porque iam me matar”, conta Juliana. No entanto, são enfáticas ao dizer que quando o sagrado vira as costas, o profano toma conta. Elas não hesitam em defender-se mutuamente e é melhor não espevitar o galinheiro, pois o galo pode acordar.

E quando o galo acorda é problema. Os tabefes que ele distribui por ali são eficazes, tão eficazes que você pode acordar com a boca cheia de formiga, ou melhor, não acordar. Tanto os clientes quanto as prostitutas já foram vítimas – carros roubados, chaves e carteiras escondidas – mas em um dia normal, o cafetão passa, dá uma olhada e vai embora. E se você for assaltado e procurar por uma viatura da região provavelmente não receberá atenção. Muitos dos policiais por ali são clientes assíduos e não querem prejudicar a vizinhança. Laila inclusive já fez programa em uma viatura, durante o horário de trabalho de um soldado. E foi bom? “Foi ótimo, eu quase sempre gozo no batente”.

Cada cliente tem um gosto diferente e o Drive da São Carlos funciona justamente por essa diversidade de oferta. Além disso, depois de comer, o cliente ainda pode olhar para a igreja, pedir o perdão dos seus pecados e voltar com a consciência limpa para casa.

 

Texto da colaboradora Yajna Moreira (yajnamm@hotmail.com)
Fotos: Michele Oliveira/ Tabaré