O infinito no instante

Em uma dessas tardes de vento, sol, sombra e jacarandás – que a primavera portoalegrense costuma oferecer – atravessamos uma rota cotidiana, lar histórico desta cidade, também conhecida como Rua da Praia, a caminho de uma conversa com o poeta da imagem Luiz Eduardo Robinson Achutti. O artista, fotógrafo, antropólogo e professor compartilhou conosco sua história de vida, seu percurso no mundo. Ele, que colaborou com vários jornais, comenta sua relação com o Jornalismo, a criação da Fotoetnografia e o difícil trabalho de encantar a matéria ordinária.

Há 40 anos, no interior do Rio Grande do Sul, uma criança brindava a infância de uma maneira diferente. Havia uma transmissão entre neto e avô, Luiz e Bortolo, na arte de aprender a dar voz à alma através do olhar. Submerso na magia alquímica do laboratório fotográfico do avô, os negativos da pequena câmera Leica lhe revelaram um mundo fascinante do qual ele não se desprenderia tão cedo: “Meu avô era fotógrafo em Santa Maria e pelos 12 anos eu entrava no laboratório de fotografia com ele. Lá pelos 15, fiquei sabendo do Foto Cine Clube Gaúcho e me inscrevi”.

Filho de um casal de médicos, quando Achutti se aproximou do momento de decidir seu futuro profissional, ficou claro que não seguiria os passos de seus pais. Cabeludo, no auge da ditadura militar, queria ser fotógrafo e fazia teatro. Optou pelas Ciências Sociais como formação acadêmica. Foi neste período de escolhas e incertezas que a fotografia surgiu como profissão através da cooperativa Coojornal, que editava um jornal com o mesmo nome.

Revolução Sandinista, Nicarágua. crédito: Luiz Achutti

Tabaré: Tu citas a Coojornal como uma referência na tua relação com o Jornalismo. Como foi essa experiência?

Achutti: Foi o jeito que eu comecei a vida profissional. Isso em 1978, no primeiro ano da faculdade, eu tinha 21 anos recém feitos. Lembro que encontrei um conhecido na rua que disse: “Vai ter uns freelancers lá da Coojornal, não quer ir junto?” Passei o dia todo com medo: vou, não vou? Uma amiga disse: “Tu não quer ser fotógrafo? Vai!”. Daí eu me apresentei, comecei a fazer freela e deu no que deu. Eu sabia um pouco de foto, mas de Jornalismo, Fotojornalismo, não sabia nada. Era um ambiente bem legal, os caras não eram meus chefes, eram meus amigos. Fim de tarde a gente ia pra um barzinho que tinha ali – quase na Farrapos – e era pra falar da vida, tomar cerveja e discutir pauta. Na real tava trabalhando o tempo todo. Tudo era jornal e eu convivia com tudo isso. A informalidade ia até na questão do horário, de dez da noite se reunir num buteco, e dali saía uma matéria, uma ideia, um aprendizado de gurizada.

 Tu tem a mesma relação com o Jornalismo hoje?

Quando fotografava pra jornal eu tinha uma relação, que acho que perdi. Eu gostava do Coojornal porque ele era meu, entende? Eu gostava do JB [Jornal do Brasil] pela tradição, pela importância de estar, mal ou bem, no JB. A sucursal era lá no fim do mundo e as pessoas eram legais… As do Rio eu não conhecia pessoalmente, alguns me tratavam de forma seca, me chamavam de “Porto Alegre”, para ter uma ideia… “E aí Porto Alegre, tá pronta a foto? Manda logo que a gente tem que fechar”. Depois a Folha [de S.Paulo], que tinha lá o seu charme, quem se achava intelectual assinava a Folha, até hoje é assim. Mas faz anos que eu praticamente não faço nada pra jornal e me informo pela Internet. Eu quase não compro a Folha e o JB acabou, o que é uma pena. O JÁ eu dou uma olhada, é dos meus amigos, tem uma tradição, eu ajudei a fazer no começo, mas eu não me emociono. Eu não tenho ilusão com o Jornalismo. Tudo envolve muito dinheiro hoje, tudo é muito pautado, muito negociado.

***

O fotógrafo viveu e registrou processos históricos importantes. Com o objetivo de contar a história dos países socialistas através de seu próprio olhar, Achutti esteve na Nicarágua em 1988, na Alemanha (antes e depois da queda do Muro) e em Cuba quando o socialismo florescia na boca de todos: “Pô, eu era comunista, como não vou conhecer Cuba? Comecei a juntar dinheiro e, quando eu pude, fui a esses países socialistas contar a história do meu jeito, já que eu não acreditava nas notícias que chegavam, porque eu sabia que era tudo distorcido, óbvio. Em 1989, acabou o chamado Socialismo Real e acabou também o meu projeto – que eu chamava de crônica visual”.

Cuba. crédito: arquivo pessoal

Em sua linguagem artística, se destaca a temática social, fruto de sua prática fotográfica e de sua formação nas Ciências Sociais. Fundindo Antropologia e Artes visuais, Achutti apresentou em 1996 a denominação Fotoetnografia – uma maneira diferente de fotografar onde a imagem não tem caráter ilustrativo, e sim uma centralidade narrativa que se preocupa com questões sociais e culturais de determinados grupos de pessoas. Narra situações do cotidiano, hábitos, particularidades de diferentes lugares também fazendo uso da sequência narrativa: imagens postas lado-a-lado que acabam contando a cena vivenciada e registrada pela lente do artista. “Na época do meu mestrado em Antropologia, foi que inventei o termo Fotoetnografia. O trabalho de antropólogo pressupõe trabalho de campo, delimitar um grupo e tentar ir lá conhecer. Aí veio a sugestão da minha orientadora: “Tem a Vila Dique, um pessoal da Ufrgs trabalha com eles, vai lá, eles te apresentam”. O começo da separação do lixo foi em Porto Alegre e um dos primeiros espaços para aplicação da separação foi a Vila Dique. Eu tinha interesse, achei que o assunto se prestava pra fotografia. Tinha a coleta seletiva e a prefeitura largava lá, justo pra eles terem do que viver. A questão do lixo é uma questão que apavora todo mundo, né? É muito fácil ter preconceito com o negócio do lixo. Fiquei três anos indo lá. É óbvio que não vou acompanhar uma separação de lixo para dizer que as pessoas são lixo. Eu queria explorar o que tem na Vila Dique, que é igual a qualquer outro lugar ou melhor até”.

Vila Dique, Porto Alegre. crédito: Luiz Achutti

Tu usa a técnica artística pra abordar temas sociais. Tu vê isso no circuito artístico atual, nos museus e galerias de arte em Porto Alegre?

Acho que não… Eu não vou a tudo, às vezes me irrita a Bienal [do Mercosul], acabo não vendo nem a metade. Pra um professor do Instituto de Artes [da Ufrgs] é horrível dizer isso, mas eu me irrito. Tem algumas exposições que eu acho uma bobagem, acho um saco. Tem uma ditadura do contemporâneo, da arte conceitual. Tem gente que decide o que é arte e por conseguinte o que é arte conceitual: quem abre as portas, quem faz os textos de curadoria, acha lugares, promove determinados artistas jovens ou não. Eu uso a Bienal como exemplo porque é muita porcaria pro meu gosto. Ou melhor, bugiganga! Mas eu não vejo nas galerias uma coisa focada no social.

A universidade tem a capacidade de formar um artista?

Eu acho que ela ajuda. Acho que o legal mesmo é o convívio com determinados professores. Nem tanto pelo traço que ele vai ensinar, mas pelo que ele não ensina, pelo o que ele é. Pelas conversas, pelo o que ele conta. Mas a arte é mercado, aí é mais complicado… Acho que não basta um diploma na Ufrgs. Tu passa por todo um filtro de relações. Eu tenho certeza que tem muita gente boa que não tá no mercado das artes, que praticamente não consegue expor. E tem gente que tá aí, brilhando, que eu não sei se vai entrar pra história. A arte tá muito efêmera, né? O Iberê [Camargo] que
nem Instituto de Artes fez, entrou pra história.

Várias transformações foram ocorrendo no campo da fotografia. Quais foram as “perdas e ganhos” dessa mutação dos sais de prata pros pixels?

O que se perdeu foi o ritual que envolvia a fotografia. Bom, agora tu pode fotografar mais, não custa, tu não vai mandar revelar o slide depois. Nos sais de prata, o cara só dava a foto por terminada quando tinha ela em mãos – isso podia envolver um dia, teria que mandar revelar num laboratório ou tu mesmo teria que voltar lá pra tua casa, entrar no escuro e revelar direitinho. Hoje numa fração de segundos ela já tá ali no monitor, depois que tu bateu – não tem ritual. Quanto ao erro, tu já sabe que errou na hora. A expectativa e o ritual de fazer é como quem gosta de cozinhar. Tu cozinha, tu conversa, daí experimenta, mistura, põe no forno. Outra coisa é tu comprar comida congelada, pôr no
micro e comer: com a fotografia é a mesma coisa.

Luiz Achutti falando sobre as diferenças entre fotografia analógica e digital

Tu edita tuas imagens?

Eu uso só o básico do Photoshop. Toda a parte que eu não uso é porque não quero, não aprendi, porque eu não tenho saco e não vale a pena. A foto nunca sai pronta, eu uso contraste, saturação, reenquadrar se ela tá meio tortinha, corto um pedacinho.
Tu edita as analógicas também?

As analógicas também. Eu tenho dois terços de analógica e um terço de digital na minha vida. Nas fotos da minha exposição eu usei isso em várias, até porque tem umas que acabam ficando com uma cor muito caída, muito pastel, meio perdida, aí tu traz ela pra vida um pouquinho com ajuda desses softwares. Isso é desgaste do tempo. Antigamente os caras retocavam as fotos para tirar pontos e riscos com pincel, tinha toda uma manha e tal.

Tu acha que a arte existe por que a vida não basta?

A vida pode ser arte. Mas se eu sou fotógrafo, se eu sou artista, não tô “pensando” que eu sou artista… Eu tô fazendo foto. Se a arte existe… Eu não sei se a arte existe… Eu acho que a arte é desculpa pra muito coisa boa e muita coisa ruim.

texto: Jessica Dachs e Maíra Oliveira