Cidade Baixa Blues

Era primavera, mas naquela noite fazia frio. E eu caminhava com as mãos nos bolsos. Sentia sede, muita sede. Aliás, a sede que eu sentia não era uma, mas muitas. E a principal das minhas sedes era por pessoas. Não me entenda aqui por mal: essa sede não vinha da boca ou de algum órgão sexual: a minha sede por pessoas vinha dos meus olhos verdes cercados de vermelho por todos os lados: duas balas de menta derretendo no inferno, isso que meus olhos eram. E dentro deles, a maior sede.
Eu caminhava, pisando flores roxas pelo chão.
Bem, antes de prosseguir em meio às tentativas de poesia, talvez seja de extrema importância inserir informações concretas: meu nome é Felipe Longhi, tenho 25 anos, cabelos crespos e grandes, barriga flácida, acho fascinantes os pés das mulheres e sofro de alguma compulsão alimentar. Vivo em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, América. E, no momento, eu estava andando pela rua da República, na região boêmia (veremos a seguir) denominada Cidade Baixa. Isso era mais ou menos meia-noite, na virada de sexta para sábado. E com meus tênis eu esmagava flores roxas, que eu sempre achei que caíssem dos ipês, mas descubro que, na verdade, caem de jacarandás. Enfim.
Eu caminhava e meus olhos pegavam fogo. Não que houvesse claridade ali, só havia escuridão. Mas é que o fogo dos meus olhos é fogo fátuo, e queima justamente quando a noite vem. E eu ia. Louco para matar a sede, eu ia. Me dirigia ao lugar mais óbvio onde eu poderia enxergar pessoas: a esquina da João Alfredo com a rua por onde eu andava. Perdido em versos de algum poema que jamais vou escrever – porque esqueci -, cheguei lá.
E o que meus olhos viram foi monstruoso: viram o nada. Ninguém na esquina, ninguém na rua. Nenhum perfume no ar. Nada. A completa ausência de música naquelas calçadas só fazia ressaltar o aspecto sujo e feio da cidade, quando morta. Fazia ressaltar o aspecto sujo e feio daqueles quatro carros da SMIC, recheados de fiscais. A sujeira e a feiúra das viaturas, com brigadianos dando guarnição à burocracia silenciosa dos fiscais. A luz vermelha que girava em cima das viaturas se confundiu com a luz vermelha dos meus verdes olhos secos. Aliás, as viaturas também são verdes. Então, era como se aquelas viaturas da Brigada Militar, vermelho sobre verde, fossem os meus olhos, verde sobre vermelho. E, ao mesmo tempo, quanta diferença.
O comboio vinha pela João Alfredo, em marcha fúnebre. Pararam em frente a uma lanchonete, na esquina oposta. Um dos fiscais, sem sair do carro, proclamou qualquer protocolo. Em instantes, os garçons desciam as grades e fechavam a lanchonete.
Entrei no bar da esquina em que eu estava – o que restava aberto. Poucas pessoas por lá. O local, que já foi sinônimo de aglomeração, era agora repositório de silêncios. Bebi uma cerveja amarga e sem cor, antes de fechar os olhos. Pensei: nada mais triste do que saciar uma sede com outra.
parágrafo novo
Já em casa, no dia seguinte, eu acordo lembrando do estranho sonho que tive: eu pegava uma garrafa cheia de álcool, colocava um pedaço de pano, acendia com um isqueiro, fazia impulso e arremessava bem forte, contra um enorme cordão policial que separava meu coração do teu.
parágrafo novo
E acordo também com uma forte dor de garganta. Que eu sei, você também sabe: isso não é doença. É vontade de gritar.

fim

texto: Felipe Longhi