Memória, Verdade, Justiça

Compartilhamos aqui nosso oitavo editorial. Com ele alçamos a necessária bandeira que é a reparação histórica dos crimes das ditaduras civis-militares, responsáveis pela sangria deste continente em décadas ainda recentes. Fechemos nossas feridas.

guardiã dos juramentos dos homens e da lei, por Pepe Martini/Tabaré

Têmis, guardiã dos juramentos dos homens e da lei, por Pepe Martini/Tabaré

O dia 18 de novembro de 2011 entrou para a história do Brasil: nessa sexta-feira, o Governo Federal sancionou duas leis, uma criando a Comissão da Verdade, a outra instituindo a Lei de Acesso à Informação, que põe fim ao Sigilo Eterno. Trata-se de uma vitória.

Mas que sabor amargo tem essa vitória. Por mais fartos que já estejamos de infantis competições com nossos hermanos, é impossível dar uma espiada para o outro lado das fronteiras e não sentir alguma inveja, vendo uruguaios e argentinos na dianteira do acerto de contas com o passado. Mas bueno, todos sabemos que essa não é uma disputa entre países. É uma luta comum pela verdade. E temos todos apenas uma verdade: a que continua sendo enterrada cotidianamente, sem sabermos quem matou Rubens Paiva, quem suicidou Vlado, quem torturou Dilma Rousseff.

Todo e cada dia de memória negada evidencia a falácia da “democracia consolidada”. A ditadura Civil-Militar não acabou: ela se eterniza nos mortos sem nome, nas covas rasas, na tortura desgarrada. Orwell já disse que quem controla o passado, controla o futuro. E o que sabemos de nosso passado? Quem financiou a Operação Bandeirantes? O que se passou no Araguaia? Essas questões não são de mero interesse histórico. A ditadura não se perpetua somente por eternizar nossa amnésia, mas também por nos legar um dos aparatos repressivos mais truculentos e brutais do mundo.

Somente sabendo como assassinaram Marighela, ou como foi morto Lamarca, é que podemos entender como a PM de São Paulo produz um cadáver por dia e a do Rio de Janeiro outros 10 mil em dez anos. Sim, o braço militar do Estado mata e tortura mais hoje, em 2011, do que nos idos de 1970, auge da repressão. E não se contenta em ser máquina do extermínio material: o Sigilo Eterno é também uma máquina de extermínio simbólico. É aí que Aschwitz encontra a Operação Condor: os capangas e burocratas sempre agiram em tenebrosa sintonia. Não se contentavam em tirar a Vida do Corpo, mas buscavam tirar o Nome da História. Não bastava ocultar cadáveres, devia-se também enterrar a memória.

A luta não acabou. Ela apenas começou. Temos de fazer uma Comissão da Verdade de verdade. Não se trata somente de conhecer nossa história. Vai além da “consolidação da nossa democracia” e ultrapassa até mesmo nossa insaciável sede de Justiça. A Comissão da Verdade tem de ser nossa bandeira fincada contra o fascismo. Tem de ser nossa mordida na mão que tenta nos calar. Tem de ser nossa barricada contra os coveiros da segunda morte de nossos mortos. Tem de ser o pranto de nossa voz rouca que insiste em dizer: ni olvido, ni perdón.