Xadrez do Centro de São Paulo

por Adrian Mealand/Flickr

por Adrian Mealand/Flickr

E se num beco escuro e imundo da vida a única saída for o crack? Um brilho de poucos segundos, olha como faz sentido, ficou tudo lindo!, de manhã cedinho. Para depois se dar conta do tamanho do buraco de sempre. O último estágio da decadência. A unanimidade de que a droga liquefaz o cérebro parece o bastante para ignorar todo o contexto em que ela acontece. Quem não quer estar confortável, se sentir bem? Cada um busca o seu brilho do jeito que dá.

Viajar o mundo, cerveja gelada, montanha-russa, comprar um carro zero depois outro, bola com os amigos, churrasco, pedra de crack. Tudo é a mesma coisa. Ou eu não posso “nem pensar” nessa comparação extrema? Eu quero mesmo é que alguém se ofenda. A busca por satisfação é apenas uma demanda primordialmente humana. Pessoas de bom coração não faltam por aí. “Assistência médica pra essa gente!”.  A velha resolução medieval de isolar os loucos. O crack é lepra, exige limpeza constante e permanente.

A polícia paulistana nunca vai entender. Eu leio as notícias, perplexo. As ruas da Cracolândia, uma peça de teatro sem direção que é o combate às drogas. Ou tabuleiro de xadrez: os peões noiados descalços fogem dos reis montados a cavalo, enquanto, do outro lado, uma procissão de bispos vêm de encontro, tentando salvar a humanidade com pais nossos. Ave maria!, essa gente nasceu pra sofrer. Enquanto todas essas peças se movimentam enlouquecidas, a droga vai brotando da boca do lixo e ninguém sabe de onde vem. Queria ver de perto isso tudo, talvez participar, pois ao espectador só cabe aplaudir ou vomitar, e já estou bastante enojado.

Vou eu saber a solução? De certo é carinho. Tanto problema por aí afora, produto direto deste mundo em decomposição, e desde sempre a ‘solução’ é porrada – o que logo vai gerar outra aberração em retroalimentação. Eu admiro quem ainda tem a fibra de passar o dia angustiado com as diversas questões sociais, lendo teoria política. Quem tem uma resposta na ponta da língua. Já tô exausto, malemal 20 anos, eis a minha angústia. E qual vai ser a solução pra minha cabeça? Eu tenho bebido, fuga aceitável e recorrente. E se a única saída for o crack?

por Luciano Viegas