Editorial Edição 9

Publicamos aqui nosso nono editorial. Em um ano que será marcado por eleições, o Tabaré se posiciona junto com aqueles que sabem que a política não começa nem termina nos pleitos.

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Começou 2012. E todos sabem: ano novo, promessas novas. Fora aquelas clássicas de auto-engano, como “começar uma dieta” ou “estudar mais”, este ano reserva mais uma avalanche de promessas enganosas, porém muito mais graves. Motivo: eleições.

Sabemos que não só de discursos fajutos é feito o processo eleitoral: as relações de poder transcendem a politicagem. Se 2011 abalou as estruturas da geopolítica global, 2012 não vai ser diferente. Ao contrário do Congresso, os processos deflagrados na última temporada não entram em recesso. Nos próximos meses teremos eleições no Egito, que passou a ser peça fundamental na política internacional, e também fonte de inspiração para as manifestações que varreram o globo. A principal potência mundial também entra em eleições: um trôpego e cínico Obama disputa eleições com lunáticos do Tea Party, tudo em meio às efeverscências provocadas pelo Occuppy Wall St. e seus correspondentes em outras cidades.

Aqui, na nossa querida Porto Alegre, as coisas não fogem à regra: teremos eleições, rearranjos de força, e por mais reduzidas que pareçam as manifestações, elas também não fogem à mania tão cara aos donos do poder de tentar cerceá-las, criminalizá-las, abafá-las. Não que a criminalização dos movimentos sociais seja uma novidade no Brasil, mas restringir o uso do Largo Glênio Peres e a tentativa de intimar, controlar, serializar e carimbar ciclistas por parte do “poder público” são novos elementos no jogo, que mostram a pronta disposição das autoridades em pisar em qualquer coisa que exale um mínimo cheiro de desobediência e inconformismo.

Pode parecer contraditório: em meio à “festa da democracia”, as manifestações populares mais genuínas e espontâneas são combatidas. Ora, na verdade, se trata de pura coerência. Se tem uma coisa que 2011 nos legou de imediato, é, no mínimo, uma profunda desconfiança em termos de quão democrática é a democracia representativa. E se tem outra coisa que ficou escancarada, é que um corpo vivo numa praça é infinitamente mais potente que um voto.

Não há dúvidas: Occuppy Wall St, Praça Tahrir, Largo Vivo e Massa Crítica são manifestações diferentes com causas e pesos diferentes. Mas também não há dúvida de que se encontram: são a afirmação da dimensão política da vida na ocupação dos espaços públicos. E são combatidas justamente por isso: pelo seu perigo latente de transformarem a política em prática cotidiana.

Ilustração: Edgar Vasques