Por um 8 de março para além dos clichês

O dia 8 de março acabou tornando-se o dia dos clichês. Uma série de matérias jornalísticas e anúncios publicitários se voltam para a mulher nas semanas que antecedem a data, sempre com os mesmos enfoques: exaltação da nossa beleza, feminilidade ou do nosso ótimo desempenho como mulheres “dóceis”, como mães, esposas ou namoradas competentes. Alguns se arriscam a falar das conquistas das mulheres no mercado de trabalho, mas, salvo raras exceções, as matérias permanecem na superficialidade, recheadas de constatações do tipo “olhem como as mulheres estão tomando os lugares dos homens” ou “agora é que são elas”, sem nenhum tipo de aprofundamento ou de reflexão sobre o que representa hoje “ser mulher” e sobre esses novos espaços que supostamente estamos ocupando.

As figuras que transitam em muitos desses discursos – principalmente os publicitários e ficcionais – parecem se reduzir a apenas dois tipos possíveis de mulheres: a Amélia, aquela que, mesmo hoje trabalhando fora de casa, cuida do lar, dos filhos e do marido (ou que sonha em fazer isso um dia), e a figura transgressora da mulher sensual, com uma alta carga de erotismo, que parece ter como função primeira, e talvez única, da sua vida conquistar e seduzir os homens (reparem que sempre o desejo se volta para o sexo oposto). Dificilmente surgem, nessas narrativas, mulheres que desempenhem diferentes papéis ou que vivam realidades mais complexas do que simplesmente a de “caçadoras de homens” ou “mãe e/ou esposa perfeita”. Embora eu acredite que nenhuma mulher se reduza a apenas um desses papéis, os meios de comunicação insistem nessa fórmula pronta, afastando qualquer possibilidade de individualização, como se todas nós tivéssemos os mesmos comportamentos e vivenciássemos a condição de “ser mulher” da mesma forma, independentemente de outras “marcas” sociais que pesam sobre nós, como classe, cor da pele, geração, religião, etc.

Assim, o velho dualismo de “santa x puta” é perpetuado, como se existissem apenas dois tipos de mulheres, uma que deve servir aos homens afetivamente e em tudo que esteja relacionado a afazeres domésticos, aquela “pra casar”, e outra que os serve na cama, satisfazendo-os sexualmente, enfim, aquela “só pra comer”. Aliás, reparem o que se esconde por trás dessa compreensão de que o homem come a mulher: homem = sujeito, comer = verbo, mulher = objeto. O homem é o sujeito ativo, a mulher o objeto passivo. A passividade é, afinal, a “característica” do feminino. Se a mulher manifestar demais os seus desejos e vontades e resolver tomar as rédeas da sua vida e/ou do seu sexo, ela terá que arcar com todos os tipos de condenações e categorizações estereotipadas do seu comportamento.

Alguns podem alegar que isso está mudando, que hoje estamos assumindo cada vez mais um papel ativo nos relacionamentos afetivos e sexuais, conquistando cada vez mais o mercado de trabalho, etc. É claro, devo reconhecer que muitas coisas melhoraram em relação a 100 ou 50 anos atrás. Contudo, a “lógica” machista subsiste em pequenas práticas do dia-a-dia, em comentários, julgamentos morais, em formas diferentes de educar meninos e meninas. Ela atravessa o corpo social através de instituições, símbolos, normas, conhecimentos, e também silenciamentos e invisibilidades. O exemplo recente do caso de estupro no programa Big Brother revelou não apenas a violência sexual cometida por um dos participantes, mas também uma violência muito mais sutil e invisível, perpetuada e naturalizada, cometida por um grande número de brasileiros que foram à internet esbravejar contra o comportamento da vítima. “Ela pediu”, “quem mandou beber todas e ir pra cama com o cara”, “ela tava querendo”, foram alguns dos comentários sobre o caso. A culpabilização da vítima e a repreensão moral do seu comportamento revelam que o velho dualismo “santa X puta” é mais atual do que se imagina, e que a violência física e sexual nunca está desassociada da violência simbólica. Outro caso que aconteceu no mesmo programa é mais um exemplo: uma das participantes se relacionou sexualmente com três homens da casa e choveram manifestações machistas de telespectadores e dos próprios participantes do programa, um deles chegando a dizer que “não queria ser o pai da fulana”.

É interessante perceber como muitos homens e mulheres se acham no direito de vigiar, comentar e julgar as nossas sexualidades. O que muitos não percebem é que esses “inocentes” comentários e julgamentos morais acabam dando suporte a todos os outros tipos de violência cometidos contra as mulheres. A perseguição aos comportamentos “desviantes” é historicamente acompanhada de formas brutais de violência contra a mulher, como o exemplo da Inquisição Católica. Milhares de mulheres foram mortas e torturadas não “apenas” por fazerem bruxaria, mas por terem uma conduta sexual considerada inadequada, se recusarem a fazer sexo com celibatários da igreja, realizarem partos e tratamentos sem o aval dos saberes oficiais, entre muitos outros motivos que encontravam para mandar as mulheres para a fogueira. Nos séculos XVII e XVIII, uma série de procedimentos de “castração” eram legal e socialmente permitidos na Europa para normalizar mulheres com comportamentos considerados lascivos. No Brasil, até a década de 80, homens que matassem suas namoradas, esposas ou amantes, podiam usar como tese de defesa o princípio da “legítima defesa da honra”, caso elas tivessem cometido adultério ou ferido a sua honra de alguma forma. Assim, o Estado simplesmente concedia o direito de assassinato de mulheres que tivessem um comportamento “inadequado”.

Hoje, esse tipo de violência se repete em inúmeras outras ocasiões, como nos casos em que policiais ou delegados perguntam com desconfiança às vítimas de estupro sobre a roupa que elas vestiam quando foram atacadas. Além de toda a violência física e emocional por que passaram, essas mulheres ainda têm que aguentar um olhar desconfiado sobre seus comportamentos, suas formas de vestir e agir. É como se nós, mulheres, tivéssemos que nos sentir culpadas por não “andar na linha” e não corresponder às expectativas sociais em relação ao nosso comportamento. Não são os homens que não devem estuprar, mas nós que devemos constantemente cuidar para não sermos estupradas, para não dar “motivos”, usando roupas muito curtas ou saindo sozinhas por aí. Nessa lógica, os homens são tidos como seres irracionais, incapazes de controlar seus instintos – mais uma inversão absurda na tentativa de culpar as mulheres pelas violências sofridas.

Embora exista essa desconfiança em relação ao comportamento da mulher, o estupro é um crime socialmente condenado que, quando aparece nos meios de comunicação, é tratado como se fosse algo isolado, cometido por loucos, maníacos ou “monstros”. No entanto, o estupro é um crime recorrente, como revela o levantamento da Polícia Civil do Rio Grande do Sul que aponta que, somente em 2011, 2984 mulheres registraram ocorrências por estupro no estado. Ou seja, a cada dia, no mínimo oito mulheres são estupradas no Rio Grande do Sul, sem contar os casos que não chegam às delegacias por diversos motivos. O mesmo acontece com os casos de violência doméstica, que só ocupam as páginas dos jornais e os programas de rádio e televisão quando acontecem casos concretos que geralmente resultam em morte. O foco nas consequências, ao invés de fazer uma reflexão constante e preventiva, revela a falta de compromisso dos meios de comunicação em combater e fazer pensar sobre esse tipo de violência. Assim, seguimos fingindo que estes são problemas pequenos e isolados, resultado de patologias ou desvios individuais, e não algo que está relacionado a uma cultura machista que trata as mulheres como objetos e não como sujeitos.

Não podemos, contudo, tomar as mulheres como vítimas oprimidas e os homens como culpados opressores. As opressões se dão de forma muito mais complexa por diferentes sujeitos e instituições da cultura, ora sendo protagonizadas pelos homens, ora pelas próprias mulheres. É reducionista pensar que todas as mulheres e todos os homens vivenciam as mesmas formas de subordinação e dominação e ocupam lugares estáticos nesse jogo de poder. Pelo contrário, existem desigualdades dentro dos variados grupos de homens e mulheres e muitas diferenças na forma de ser e vivenciar a subordinação e a dominação, que variam de acordo com as condições econômicas, a raça, a localidade, a geração, a identidade sexual, etc. A cultura machista não vitima apenas as mulheres, mas também os homens, que são obrigados a desempenhar os papéis culturalmente designados a eles, mantendo-se em uma posição de autoridade e firmeza, tendo que afirmar as suas masculinidades a todo o momento, sendo “impedidos” de demonstrar sentimentos, fraquezas e inseguranças.

Criar novas formas de ser e pensar a mulher requer a criação de novas formas de ser e pensar o homem. Um exercício de distanciamento das nossas “verdades” e dos papeis que temos como naturais para homens e mulheres é um bom começo. Buscar pensar de que forma as expectativas que “criamos” para nós mesmos correspondem às expectativas socialmente construídas para nós enquanto mulheres ou homens é uma maneira interessante de perceber como somos fortemente influenciados pelo nosso contexto cultural e como estamos suscetíveis a reproduzir os machismos presentes na cultura. Somente assim, pensando e discutindo a nossa situação enquanto mulheres e homens, poderemos construir novas formas de ser e estar no mundo, mais livres, menos fixas, longe de grandes expectativas e frustrações.