A mulher que alimentava os peixes

Ele tinha muito jeito de jornalista. Estava lá comigo, munido de uma  câmera fotográfica da marca Canon – não sei se profissional ou semi. Passávamos por uma área onde as mais diversas espécies de vegetação  rasteira se mesclavam por cima da areia fofa e quente. Eu, no ápice do efeito da maconha, o observava e escutava seus comentários sobre a paisagem, concordando com tudo e imaginando aquela cena como se fosse um curta- metragem.

Prestei atenção no meu amigo e colega de profissão. O seu trabalho parecia ser divertido e interessante, mas não combinava comigo, muito embora  eu tivesse apreço pela coisa e também soubesse manipular a máquina. Quer dizer, o pleno exercício do jornalismo é realmente o exercício da vagabundagem. Ambos vagabundeavam. Fazíamos isso há dois dias. E eu, levando essa máxima ao seu extremo, deixava para ele a incumbência dos   registros.

Estávamos entre uns dez, desbravando o bucólico lugar. Minha audição parecia estar supersensível, e eu conseguia ouvi-los se distanciar. Ficamos só nós dois. O silêncio por fim tomou conta do espaço, deixando tão somente o suave bater das plantas, por vezes interrompido pelos cliques da máquina. Havia uma mulher loira sentada na beira de um pequeno riacho, em cima de um tijolo. Aparentava uns 40 anos e vestia um agasalho marrom e uma calça esportiva azul.

– Vamos fotografar aquela mulher? – Perguntei.

– Vamos.

Eu tinha a barba e os cabelos longos que chegavam até o meio das costas. Vestia camiseta e bermuda largas e sujas. Meus pés também estavam sujos. A câmera não me cairia bem. Desde pequeno gosto de tirar fotos, mas de todos os fotógrafos que conheci, todos eles eram chatos e bitolados com uma merda de câmera na mão. Meu amigo até que não, mas, de qualquer forma, parecia mais apresentável, envolvido e disposto a fotografar. Como eu disse, tinha uma cara de jornalista mesmo. Fiquei pensando que um dia ele seria reconhecido pelo excelente profissional que é, e então eu me lembraria daquela nossa tarde com a mulher.

Ele se aproximou dela primeiro. Eu depois. Algo o chamou a atenção na água. Não sei o que foi. Fiquei olhando fixamente para a água enquanto do bater constante de fotos por parte do meu amigo, que começou a percorrer pelos cantos e ir para mais longe, procurando melhores ângulos, suponho. Fiquei a sós com a mulher, a observá-la. Fiquei com vontade de fotografá- la de perto, fazer recortes do seu rosto. A sua pele era amarela e enrugada. Agachei-me ao seu lado. As suas mãos eram secas. Suas unhas, roídas. Ora ela comia uma bolacha de água e sal, ora despedaçava-a e atirava no riacho.

Meu amigo voltou. Pedi um cigarro. A moça nos estendeu um isqueiro. Fumamos juntos. Apesar de ver que os micro pedaços de bolacha afundavam, era impossível enxergar os peixes. Comentei isso com ela. Apontei para o fato de os peixes abandonarem os pedaços maiores, sendo incapazes de digeri-los. Sorrimos ao olhar para a água de novo. De forma alguma eu quebraria aqueles bons fluídos que a brisa nos trazia para perguntar se ela gostaria de ser fotografada.

– Aqui não tem peixe grande? – Perguntei.

– Eu venho aqui há anos e nunca vi. Por isso os alimento.

Só então reparei que ela trazia consigo uma garrafa vazia de cinco litros, com o gargalo cortado e um barbante preso à tampa enrolado num pedaço de madeira, propício para a pesca em água rasa. Fotografei com os olhos.

Por Iván Marrom

Fotos: Gabriel Jacobsen