Editorial #12

Coca-Cola, Adidas, Sony, Visa, Castrol, Oi, Itaú, Liberty Seguros, Odebrecht, OAS e Camargo Corrêa. Se você é dono ou acionistade uma dessas empresas, tem motivos de sobra pra estar feliz com a Copa do Mundo de 2014. Se não é, tem motivos de sobra pra estar indignado. Muito se fala a respeito dos problemas da Copa no Brasil: corrupção, obras superfaturadas e mau aproveitamento da infraestrutura após os grandes eventos (vide o Panamericano 2007 no Rio). De fato, são temas preocupantes. No entanto, mais preocupante é ver que muitas vezes o debate se limita a essas questões.

Em nome do “desenvolvimento”, as obras de infra-estrutura destruirão as casas de cerca de 170 mil pessoas, que, mesmo realocadas, na maior parte das vezes o são longe de seu trabalho, de postos de saúde e dos vínculos criados com suas antigas comunidades. E não é só em nome do “progresso da nação” que o governo destrói habitações. A Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, por exemplo, será parcialmente destruída por infringir “a legislação ambiental”. Mas até mesmo a consultora da ONU no Brasil para moradia adequada, Raquel Rolnik, admite que a verdadeira razão é tornar a área mais apetitosa à especulação imobiliária. Assim como na Copa da África do Sul, aqui os pobres não serão removidos apenas em termos habitacionais, mas também em termos paisagísticos.

Direitos trabalhistas também serão atacados. São 13 categorias de trabalhadores que terão seus direitos de greve tolhidos durante a Copa. Se quiserem paralisar as atividades, terão que comunicar com 15 dias de antecedência e manter 70% dos trabalhadores em atividade. O direito ao trabalho também será pisoteado pelos cordões de isolamento que impedirão ambulantes de vender comidas e bebidas nas ruas próximas aos estádios, acabando com o comércio popular. Esqueça o pastel de dois pila e os dois latão por cinco. Quem quiser beber, tem que beber Budweiser. Quem quiser comer, tem que comer McDonalds. A FIFA não deixa cair migalhas da mesa.

Também podem ser criados tribunais de exceção. A Constituição brasileira veta previamente qualquer medida nesse sentido, mas é uma das condições da FIFA para a realização do evento. Na África do Sul foram esses tribunais que condenaram um nigeriano a três anos de cadeia pelo simples fato de ser cambista e um sul-africano a 20 meses pela tentativa de furtar um edredom, entre outros casos. O Congresso também se esforça para criar uma lei anti-terrorismo vaga e ambígua, que deve tipificar crimes não previstos no Código Penal brasileiro, outra medida claramente inconstitucional. Diversos juristas e lideranças de movimentos sociais apontam que, do jeito que se encontra o Projeto de Lei, qualquer manifestação e protesto poderá ser enquadrado como “terrorismo”.

Temos ainda as questões da privatização dos aeroportos, das regalias fiscais que o governo abrirá para os parceiros da FIFA, etc., tudo com base no Caderno de Garantias e Responsabilidades, dado pelo governo brasileiro à FIFA em 2007, sem discussão alguma com a sociedade civil e entregue a uma entidade privada que não possui absolutamente nenhum compromisso com o povo brasileiro. O fato é que a Copa não é nossa. É da FIFA. E de seus patrocinadores. Nada muito novo na história do Brasil: prejuízos socializados, lucros – grandes lucros – privados.

Ilustração/Colagem: Jessica Dachs