Paulistas marcham pela cannabis

texto: Rodrigo Isoppo
fotos: Teresa Castro

“Uma excelsa vos ressoa,
No universo inteiro ecoa:
Para a frente caminhai!
O amor é a luz que se alcança,
Tende fé, tende esperança,
Para o Infinito marchai!

Castro Alves
Desde que o mundo é mundo e o homem é homem, o alimento sempre foi a necessidade básica de todo o organismo social e cá entre nós, nem sempre tivemos arroz, feijão, bife e batata prontinho em nossos pratos. Para a batata se tornar batata, algum humanoide teve que catá-la no mato e prová-la, em um jogo de acasos. Azar tiveram os descobridores da figueira-do-diabo, ou da ortiga, que provavelmente deram suas vidas para que hoje saibamos que são venenosas. Neste contexto, nasceram os primeiros criminosos (usando a tipologia contemporânea brasileira), que ingenuamente experimentaram substâncias psico-ativas da vasta natureza e se deleitaram com seus efeitos no organismo. A História da relação da droga com o homem começa aqui, tendo como primeira classificação taxológica: os alimentos do corpo e os alimentos da alma.

Com o passar das eras, as substâncias psico-ativas, que provocam alteração na consciência humana, representaram materialmente ou simbolicamente diferentes significados e significantes, tendo como principal os ligados a espiritualidade, misticidade e religiosidade: uma sacra-substância que conecta o ser humano com outros planos e dimensões da existência. Mais tarde, descobre-se funções medicinais nesses mesmos elementos. Agora, muitas destas substâncias são hoje proibidas pela lei. Mais que proibidas, os que consomem são considerados criminosos. Que lógicas são adquiridas a esse processo? Para complementar mais ainda a dificuldade lógica da problemática, existem drogas que são lícitas e outras ilícitas.
As drogas causam dependência. Sim, causam, e é caso de saúde pública. Mas seguindo nessa linha de argumentação, doce também vicia e nunca vi obesos sendo chamados de criminosos, nem confeiteiros de traficantes. As drogas fazem mal para a saúde. Sim, podem fazer mal. Este argumento se definha nas próprias pesquisas científicas, visto que álcool e tabaco causam mais mortes do que todas as drogas ditas ilícitas. Falácias a parte, devemos analisar a criminalização das drogas no contexto sócio histórico político e econômico. Aí as coisas começam a fazer sentido.
Marcha da Maconha, desde 2007, tem sido a principal alternativa de trazer à tona para a sociedade toda informação que o poder público esconde por baixo dos panos, aliena a população com fins de continuar com suas políticas de investimentos pesados na “guerra às drogas”. Hoje ela ocorre em 37 cidades brasileiras provando que, com esse alcance, há muita gente insatisfeita com a série de medidas e suas conseqüências desta guerra que afeta inclusive o sistema democrático do país, visto que vários princípios jurídicos da nossa constituição são diariamente violados e milhões de pessoas violentadas pelos instrumentos de repressão policial. Com o mote “Basta de guerra – por outra política de drogas“, a edição de 2012 vem com disposição de ir a fundo no debate, mexer nessa ferida. Considerando que o chamado tráfico nada mais é que a produção e a comercialização das substâncias ilícitas, fica evidente que quem sustenta essa economia na ilegalidade, em sua versão armada e violenta, é a atual lei, que criminaliza e combate aqueles que participam dela na sua ponta mais frágil – o varejo – ao mesmo tempo em que  gera enormes lucros aos que estão no comando na ponta mais forte, os donos do negócio.
Os dados evidenciam que a guerra às drogas é uma guerra perdida. Bilhões de dólares foram investidos,  o número de usuários se intensificou, o tráfico e a violência se intensificaram, alem de que os encarcerados em sua maioria das vezes não apresentavam antecedentes criminais, não possuíam mais de 100 gramas e não tinham condições para financiar um advogado de defesa. Visto que faz tempo que o tabu de que as drogas ilícitas são relacionadas a algo inerentemente demoníaco já foi superado, nossas políticas estão retrógradas. E o chamado a ir para as ruas não se limita apenas aos consumidores da Canabis e sim à todos que acreditam na democracia.
A Marcha da Maconha, cumprindo seu papel de questionar e propor à sociedade o debate sobre outra política de drogas, e percebendo a importância das decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) na mudança de rumos das políticas públicas – como nas recentes vitórias sobre o aborto de anencéfalos e das cotas para negr@s em universidades – quer pressionar a Corte no sentido de um entendimento favorável sobre a descriminalização do porte de drogas, ainda esse ano. Entende-se dessa batalha como um primeiro passo no sentido de por fim ao encarceramento da juventude, abrir caminho para o uso medicinal, o cultivo caseiro e o uso recreativo desta planta, visando no horizonte próximo a legalização das drogas e o fim da guerra.
Em São Paulo, após a repressão, ataques, censuras provocados na marcha do ano passado, finalmente teve seu direito julgado pelo STF de se manifestar. Marcharam cerca de 10 mil pessoas apesar de algumas mídias terem divulgado 2 mil, e o evento ocorreu sem ocorrência de violência mesmo na presença dos “homi” durante o trajeto inteiro. Ela teve sua concentração no vão do MASP com a presença ilustre de Henrique Carneiro, professor de história da USP recordando nosso direito ao prazer, a festa, o lazer e principalmente o direito à ingestão; José Henrique Torres, da Associação de Juízes para a Democracia (AJD) nos mostrando que a luta não deve se focar apenas nas ruas, mas também no campo jurídico e que devemos estar a par dos princípios jurídicos violados pela guerra; e, por fim Denis Russo, jornalista e autor do livro “O Fim da Guerra” divulgando sua obra e reforçando a mensagem. A passeata em si percorreu a Av. Paulista, descendo a Rua Augusta e desembocando no crepúsculo do dia na Praça da República, onde a festa se prolongou. Cartazes, gritos de guerra, algumas manifestações partidárias de esquerda, música proporcionada pelo carrinho móvel de som do Baixo Centro chamaram atenção dos transeuntes e residentes dos prédios que os contornavam. A mensagem era de paz e liberdade, flores distribuídas e abraços-grátis, tudo para desmistificar o mito do monstro maconheiro.
Para esclarecer aos que ainda acreditam que a legalização da maconha está intimamente ligada à permissão de vagabundagem – ou até àqueles usuários que ignorantemente defendem esta única causa – prestem atenção ao que realmente é relevante: A legalização significa que o Estado se responsabilizaria pelo controle da substância do que diz respeito à qualidade, o grau de princípio ativo presente e a presença de substâncias estranhas na sua composição. Descriminalizadas ou legalizadas, o desafio será aprender a viver com as drogas. Aprender a aceitar que o uso delas faz parte do comportamento humano. Aprender a viver com as drogas de modo que causem o menos mal possível e, em muitos casos, o melhor bem possível. Os danos de consumo destas substâncias podem ser reduzidos usando veículos de pesquisa, informação e educação que, enquanto criminalizadas, sua disseminação torna-se bloqueada. O comércio deixaria de ser violento, por ser uma atividade regulamentada, acabando assim com o tráfico de drogas e o uso das armas nesta relação. A descriminalização e a despenalização reduziria o aumento exponencial do encarceramento, da desestruturação familiar e a liberdade de plantio abriria portas para que este produto seja livre nas 2500 funções que cientificamente já foram provadas (medicamentos, alimentos, vestimentas, cosméticos, isolante, papel, por ai vai.)
Concluindo a matéria, depois de apresentados todos os elementos do debate, clamo eu e o povo: “legalize DILMA vez!“. Continuem marchando a favor da liberdade e da democracia. São Paulo marchou, agora é a vez de Porto Alegre!
“Algum dia, quando a descriminalização das drogas for uma realidade, os historiadores olharão para trás e sentirão o mesmo arrepio que hoje nos produz a Inquisição”
 Javier Martinez Lázaro, juíz penalista espanhol