Um jogador: apontamentos de um repórter moço (parte 1)

Diecisiete negro
Por Francisco Guimaraens

Foi quando eu ainda era torcedor, assim, uma espécie de apostador. Faz um tempo, então eu não passava de um moço cheio de apontamentos, um tanto ocidentais, é verdade.  Pois se trata de uma história chilena.

O cenário suntuoso, à beira do Pacifico, num Hotel Cassino palco de grandes torneios de pôquer, daqueles que na época assistia com grande entusiasmo. E é uma história de um apostador, que sou. Inclusive quando não exercito essa agonia que encontro na adrenalina de jogos e nas tão temíveis apostas.

Talvez seja difícil imaginar nisso tudo uma coisa tangível, e nem tenho eu a pretensão de descrevê-la. Como seria explicar uma sensação que permeia tanto, e tantas existências. Não pense também que não tenho controle, pois este está no entrave social e pessoal que me envolve.

De volta aos ares mais pacíficos, Não poderia esquecer de amigos que estavam lá. Vestidos no limiar da aceitação de Viña Del Mar, com seus prédios de Vidro e Cassinos, tudo que uma visita de 4 horas é capaz de lembrar.

A Roleta. O faro.

Nem o vicio no pôquer, na época exercido, impediu ao apostador cair nesta tentação. Roleta. Aos olhos de um irmão: um ardiloso método. Tentou assim me ensinar a jogar. Friamente recusei.

Não.

Sem método algum a aposta foi de quase um terço das fichas adquiridas por 16000 pesos chilenas (e que valiam também uma bebida, amadoramente trocada por uma cerveja): tudo no numero 17.

Um jogador e seu número. Dezessete: um número com tanta história, e nenhuma merece ser contada.

Perdi. A palavra do método ganhou força em meus ouvidos. Junto com um olhar de desaprovação.

Não. Agora vai o resto. 17!

‘Diecisiete negro’, na voz rouca e bigoduda do crupiê. Em um milésimo de segundo, pensei: hora de fingir ser frio e calculista e recolher todas minhas fichas sem falar. Mas um milésimo e foi tarde. Dois braços de cada lado me envolviam e pulavam a meu redor. Como torcedores que, de fato, eram. Devo a esses braços, esses amigos de aposta e de vida, os olhares de reprovação dos velhinhos de terno, que de tanto viver, viraram o próprio cassino.

E era hora de ir, havia um metrô e depois um ônibus. Era hora de ir. Saí com 36 vezes mais do entrei. E em dinheiro também.

Pacifico. O termômetro, juro, marcava: 17 graus. E uma sensação de ganho sem igual. E mais uma lembrança de aposta. Numa vida cheia de outras, numa vida de torcida.

Brasil: um lugar bem menos pacífico. Apesar de não termos cassino, não deixei de apostar um só dia desde então. Aposto na rua, em casa, na faculdade, em praças, livros e até, num pensamento tão (pouco) comum. Aposto em moças, vestidos, jogadores e emoções.

A vida é uma aposta. E nem sempre se ouve ‘Diecisiete negro!’

A vida é para torcedores, apostadores de emoções. Que tantos vivem, poucos ganham.

Em uma noite em Viña Del Mar saí vencedor. E como bom vencedor, só quis apostar de novo.