Um jogador: apontamentos de um repórter moço (parte2)

A melhor fonte do mundo
Por Francisco Guimaraens

No jornalismo aprendemos que a relação com as fontes pode ser mais complexa que a mera busca por ‘aspas’. Um dos dilemas éticas da profissão, trabalhados exaustivamente em textos e aulas nas faculdades e encontrado diariamente nas redações, consiste em julgar que/quando a fonte sempre pode ter um interesse específico.
O que segue é um relato sobre minha relação com uma fonte. Mas não tem nada a ver com dilemas éticos…

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Durante a longa reportagem sobre o turfe, o Jockey, e suas peculiaridades, que fizemos para a edição de aniversário do Tabaré, tivemos a oportunidade de entrevistar TJ Pereira.

Jóquei renomado (campeão de dubai!!!), consagrado e famoso no meio.  Assim nos foi apresentado pelo valoroso Milton.

Após a entrevista, Pereira nos confidenciou que apesar de estar pela primeira vez de férias em Porto alegre (sem montar), iria correr na Reunião de aniversário do Jockey Club do Rio Grande do Sul. (JCRGS)

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Era uma quinta feira, 8 de setembro. A reportagem estava de folga, o bondoso seu Tabaré concedeu o direito à independência a seus subordinados.  E o JCRGS completava 114 anos  à beira do Rio Guaíba, ás margens de seu Ipiranga.

Mas um repórter da equipe (eu) decidiu sua folga, casualmente, naquele antro de apostas, cenário de sua labuta por tantos meses.  No Hipódromo do Cristal estavam as mesmas pessoas que a reportagem acompanhou durante tantas quintas-feiras. Talvez, estivessem todas elas.

Mas o presidente estava ali embaixo, no setor popular, cortando o bolo e discursando.

E foi ali, naquele dia, sem meu colega de pauta, folgado (ou folgando?) que vi a única briga no saguão de apostas pelos mais de oito meses de reportagem.  Um pequeno conflito perto do balcão de apostas mas logo superado.

Cheguei já haviam corrido alguns páreos, inclusive, com TJ. Mas ele ainda iria correr o oitavo páreo do dia. Pensava então, em combinações de apostas que envolviam minha fonte para maximizar o lucro (um campeão de dubai certamente pagaria pouco pelo seu favoritismo…).

Enquanto esperava o páreo (finalmente um páreo em que tinha a ‘barbada’), naturalmente, apostava nas outras corridas. Mas assim, naturalmente.

Na primeira aposta do dia, recorri como recorrentemente fazia junto com meu colega de equipe, a uma das caixas conhecidas pela reportagem.

-Mas cadê o teu amiguinho?

A pergunta obviamente foi seguida de risos dela e da amiga. Após aquele momento decidi a apostar em outros caixas, pois detectei naquele momento que a relação profissional estava se deteriorando no tom de deboche da fonte e poderia prejudicar o bom andamento da matéria. E, claro, das apostas também.

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Após uma série de fracassos nas escolhas dos cavalinhos, chegava a hora.

TJ Pereira corria com o cavalo ou égua, nunca descobri, chamado Super Boat.

O páreo era com ‘produtos’ de 4 anos sem mais de uma vitória, 5 anos sem mais de duas vitórias e 6 anos sem mais de três vitórias.

Para os leigos: não importa, só aposta.

Era hora, apareceu na tevezinha na parede que aglutinava gente ao redor. TJ pereira, numero 7 no programa, estava pagando…

45 por 1.

45 por 1.

Azarão! TJ, campeão de dubai. Fonte da matéria. 45 por 1 num páreo no cristal. Maldito Milton.

Como é que um cara pretensamente um dos melhores do mundo é azarão num páreo no cristal? E que premio é esse de dubai? Será que entrevistamos um cara qualquer? Será apenas um jóquei qualquer que casou entrando à cavalo e usa aliança cheia de cavalinhos desenhado?

Ridícula!

Após 15 minutos de intensa preocupação e agitação (e sem meu amiguinho para dialogar) desconfiei dos rumos que a matéria poderia estar tomando, desconfiei da fonte, mas principalmente da aposta que iria fazer!

Calculei, então, que a vitória de TJ seria mais trágica se eu não apostasse nele do que a eventual derrota com meu dinheiro.

Foi pura matemática.

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No cânter desfila-se os cavalos antes da corrida, e naquele dia fui conferir Super Boat com o jóquei da minha escolha, meio que por ansiedade ou por peso na consciência.  Pois TJ surgiu ao desfile, com uma roupa verde-limão que brilhava naquela insipiente noite fria no hipódromo.

Verde-Limão

Na boa… verde limão! Com hífen e tudo.

O cara casou a cavalo, aliança cheia de cavalinhos no dedo, e vem pro hipódromo do cristal como azarão e veste verde-limão!!

Resolvi colocar míseros dois reais em Super Boat e seu cavaleiro verde-limão.

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Na hora da corrida, minha apreensão fez me levou ao alambrado. Onde crianças e os amadores nervosos, como eu, assistiam as corridas.

A largada foi dada pela starter Suzana Davis. Gente boa, segundo nosso fotografo.  Lá na Icaraí, do outro lado da pista, onde pouco se vê a olho nu, só distinguia o verde limão disputando a ponta. Putaquepariu, ele vai cansar…

Na curva do Barra xopin , o verde já disparava. Adrenalina. Mas faltava ainda.

Não há pior maneira de perder suas apostas do que num cavalo que sai na frente e cansa na reta final. E isso sempre acontece.

A reta final, onde se vê tudo claramente dos pavilhões de apostas, foi um momento de puro deleite. O Verde-limão estava a distância, quilômetros, léguas, de todos ou outros.

90 pila.90.

A melhor fonte do mundo.

Resolvi tirar todo o dinheiro naquela caixa brincalhona. Só pra provar que não precisava do meu amiguinho, pelo menos naquele dia. Não precisava de ninguém! A sensação de ganhar a aposta contra quase todos, não precisava de mais ninguém, de mais nada.

A noite acabou. A volta pra casa foi a pé mesmo, com 90 reais engordando minha cueca e mil pensamentos de euforia. Naquele dia a solidão teria companhia. Nada física, confesso, e sim da pura febre que só as apostas me proporcionam. Nada mais importa.

90 pila. Pra mim, um milhão.

Grande TJ ! sempre soube jóquei bom, se sabe, usa verde-limão! Um cara entrou a cavalo para casar. A aliança tem seis cavalinhos. Tudo com cavalinho. Que representa sua vida, sua arte, seu trabalho, seu amor.

Tudo com cavalinho.

Confira no site do Jockey Club o páreo vencedor do Tabaré (o oitavo do dia oito de setembro do ano passado) na locução de Airton Bernasque.