Pra ver o corpo todo mundo aparece

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Por Matheus Chaparini

A frase é do amigo Fred e cai na situação como uma luva.

É terça feira em Porto Alegre. Mais do que em qualquer lugar do mundo, é terça feira na escadaria da Borges de Medeiros. Cerca de quinhentas pessoas se aglomeram para beber, conversar e dar o último adeus a este ente tão querido por todos nós. O falecimento e o velório foram amplamente divulgados – até aquele jornalão ali da Érico com a Ipiranga deu notícia – e o povo veio. Pra ver o corpo todo mundo apareceu. Até quem nunca tinha sido visto por ali, nesta noite foi. E a festa esteve linda. Linda demais!

No dia seguinte, surgem registros fotográficos aos borbotões. Surgem também campanhas em defesa do bar e até mesmo um abaixo assinado. Remédio depois do enterro. Não há mais nada a se fazer, o Tutti da escadaria se foi. Mas isso não era nenhuma novidade. Já há algum tempo era evidente a chegada desse momento. E por que não se fez nada para impedi-lo? Por que só agora vemos todas essas manifestações? Talvez não houvesse mesmo muito que fazer diante de um leilão marcado pela Justiça, mas então por que isso agora?

É sexta feira em Porto Alegre. Uma sexta feira como outra qualquer. Saio de mais uma reunião do Tabaré, monto em minha bicicleta e rumo para a Cidade Baixa. Na última hora, desvio minha rota. Queria passar pela Duque, para chorar o morto e jogar algumas flores sobre o túmulo. E o que eu vejo, tão logo me aproximo da escadaria? Ele. Vivo, de pé, quase um Cristo, ressuscitado no terceiro dia. Agora sim, o verdadeiro fim do Tutti Giorni como o conhecemos. A mais provável última noite de vida do bar mais querido da cidade. E não mais do que cinquenta fiéis apóstolos o cercam para dar o último adeus.

Fotos: Martino Piccinini