Noche de Luna y Juan

O folclore musical deste pampa, que aqui no Rio Grande recebe o nome não muito preciso de Música Gaúcha, é território predominantemente percorrido por cantores de vozeirão forte e gestos duros, que não raro carregam certa ânsia desmedida de regresso a um passado supostamente idílico. Imersos em suas fantasias de centauro, costumam esquecer, às vezes convenientemente ao poder público e às elites, da realidade cotidiana do povo que pretendem representar.

Luna Monti e Juan Quintero, respectivamente bonaerense e tucumano, cantora e cantautor, formam juntos uma dupla (e um casal) que há dez anos percorre os palcos argentinos, com seu folklore que vai na contramão de qualquer tendência passadista e alienada. Convidados a se apresentar no Studio Clio de Porto Alegre (também uma ilha de serenidade – numa José do Patrocínio de trânsito atroz), conversaram brevemente com este Tabaré entre goles de expresso e estripulias da filha Violeta.

Afastando o frio da rua, Juan toma o primeiro gole de café e começa a charla falando sobre a renovação do folclore argentino: “Parece que a nossa geração está buscando outra linguagem. Adoramos quem veio antes, os autores que crescemos escutando, mas temos uma linguagem própria, não falamos como eles e nossa paisagem é outra, somos da cidade. Estamos na busca de algo mais coloquial.” Nessa nova busca Juan e Luna surgem com composições e interpretações genuínas, cousa apreciável em tempos de seca.

Em meio ao agito da pequena Violeta, que brinca alheia à entrevista com grãos de café e um mapa de Porto Alegre, Luna Monti comenta a declaração de Mercedes Sosa em que a Negra dizia cantar essencialmente para o público latino-americano, embora sua música houvesse agradado também a muitos ouvidos europeus. “No meu caso nunca penso onde vai chegar nossa música, fazemos o que temos vontade sem pensar aonde podem chegar nossas canções.” E no paradoxo de se fazer música regional para públicos que podem ser tão exóticos como o da Inglaterra, onde já tocaram, canções tornam-se língua franca capaz de unir sensibilidades. Confirma-se o poder da música de transpor fronteiras linguístas, políticas e culturais.

E para terminar de apresentar esse duo de músicos-visitantes, deixamos que falem com voz própria seus versos e notas. Aqui os tens.

Fotos: Jessica Dachs/Tabaré