Viva ao burro!

Por Leonardo Bomfim

Imagem

Enquanto Orson Welles filmava a história do grandioso e caleidoscópico Charles Foster Kane, Howard Hawks filmava o caipira abobalhado que se torna herói de guerra em Sargento York (1941). É um dito antigo: toda grande obra de arte deixa uma questão que as gerações posteriores precisam enfrentar – ou desviar, caso sejam covardes. Cidadão Kane (1941) posa eternamente como referência porque planta a semente moderna ao deixar suspensas as certezas cinematográficas: “se não sabemos mais quem é o homem, como filmá-lo?”

Howard Hawks foi um sujeito generoso, pois deu a ferramenta para que os modernos pudessem lidar com a questão perigosa de Welles. Entre tantas coisas, sua obra celebra a existência do burro, daquele que age imediatamente sem precisar de qualquer tipo de meditação. Talvez por isso a facilidade para filmar o homem. Sua conta é simples: se há homem, há ação; se há ação, há cinema. Sobre os personagens de Hawks, Jacques Rivette foi o mais preciso: “é uma beleza que manifesta a existência pelo respirar e o movimento pelo andar”. Nesse sentido, York não apenas figura como um piolho em Kane, mas também como um contragolpe ao clássico herói fordiano de A Mocidade de Lincoln (John Ford, 1939).

Na sublime obra de John Ford, vemos apenas um acontecimento da vida do jovem advogado Abraham Lincoln. Não precisa mais nada: seu primeiro caso representa a fundação do herói, ele se mostra sempre muito firme diante de seus princípios, não há o que o faça cambalear. Em Sargento York, pelo contrário, temos um homem que vai sendo moldado pelas circunstâncias da vida. Primeiro o amor lhe tira da vadiagem, depois a religião lhe oferece uma redenção e por fim a violência da guerra lhe impõe uma única saída, que Hawks sabiamente pinta com ironia: o heroísmo. É um homem em construção, podemos dizer que o filme termina quando ele talvez esteja pronto para ser firme diante de seus princípios. Mas esse homem, justamente aquele que Welles colocava em crise, já não interessa mais a Hawks.

O curioso é que setenta anos mais tarde – quase um século! –, esse homem interessa a Christopher Nolan. Mais curioso é ver o inglês sendo desenhado como gênio. O autor da celebrada trilogia recente de Batman até pode ser um sujeito inteligente, até pode ser fiel aos quadrinhos, mas como cineasta ainda não passou de 1941. De que adianta realizar um épico metalingüístico que ameaça colocar um ponto de interrogação na figura do herói contemporâneo se a conclusão é a mais conservadora possível? Na tentativa de humanizar um personagem ficcional, legitimando a sua atividade numa sociedade cuidadosamente verossímil, Nolan acaba transformando seu homem num bloco de concreto. Se pensarmos em Kane, esse Batman psicologicamente explicado nas minúcias mais profundas é, no mínimo, ingênuo. Mas se pensarmos em York, personagem que revela o heroísmo como uma farsa, a cria de Nolan é inteiramente ridícula

Um filme como Sargento York deixa-nos a pensar que a burrice de Hawks poderia ser um antídoto para o surto de inteligência da Hollywood contemporânea. Há muitos roteiros supostamente complexos, há muitas intrigas que vestem um figurino rebuscado, mas há poucos homens que andam e respiram.

Claro que ela não é recusada à toa: a burrice costuma ser perigosa – e contagiante. A de Howard Hawks gerou o último momento em que o cinema realmente entrou em combustão espontânea. Se nos anos 1960 a questão de Welles é finalmente resolvida quando o ser dá lugar ao estar, é porque o cinema moderno teve Hawks como farol. O homem em ação de um Acossado (1960), de Jean-Luc Godard, é herdeiro escancarado dos personagens inconseqüentes do cinema hawksiano.

Basta olhar algo como Rio Vermelho (1948). A trama de seu primeiro faroeste não é dada de antemão, não há uma premissa que será desenvolvida religiosamente durante o filme. Hawks nos pega, de cara, pela ação. Tudo começa com uma despedida, o beijo apaixonado e uma batalha com os índios. Quantos filmes no mundo começam com um beijo? E as elipses se multiplicam, o tempo passa, não sabemos exatamente o que está acontecendo ou sobre o que é aquilo tudo. O que poderia encadear uma trama, como a vingança contra os índios ou a procura pela mulher amada, não se concretiza em momento algum. Mas não precisamos saber os motivos, porque o prazer está em ver o homem como algo que está acontecendo. Em suma, andando e respirando.

Talvez não seja um realizador de obras de arte – de fato, seus filmes não impõem grandes questões e por isso raramente figuram entre as listas dos melhores. Mas, sem Hawks, o cinema empacaria por muito tempo diante do impasse deixado por Welles. Viva o burro que nos dá rapidamente as respostas mais sábias para as questões que ameaçam ser as mais complicadas. Viva Hawks cuja obra parece dizer: “se não sabemos mais quem é o homem, basta filmá-lo, pois ele também não sabe quem é, mas vai continuar andando, mesmo que você não ligue a câmera”.