Ídolos

Por Chico Guazzelli

Andando de bicicleta pela Zona Norte de Porto Alegre tenho cruzado repetidas vezes pela frente do meu antigo colégio Uruguai, entre a Goethe e a Quintino. Lá, estudei na primeira e na segunda série, me alfabetizei e aprendi as equações, tive colegas loiros e negros (talvez pela única vez na minha vida), aproveitei todas as vantagens que a escola pública me proporcionou. Passando por aquele pequeno prédio de dois andares (que na minha lembrança era imenso), espio sempre o pátio interno. E pelos vãos da grade vejo uma goleira de cano onde consagrei um dos melhores momentos da minha vida.

| Foto: arquivo Commons

Sete anos, 1996. Meu ídolo era Chilavert, que jogava no Vélez. Naquele recreio eu estava no gol, no jogo contra os temíveis alunos da minha tia, a outra turma da segunda série do colégio. E bem no fim da diversão teve um pênalti. Ali, naquela areia, perto daquele cano, o craque do outro time (uma daquelas crianças que cresce antes dos outros) se preparou para bater. Inexplicavelmente voei com uma ‘ponte’ sensacional para o canto direito e espalmei para longe o perigo que aquela pequena bola trazia a todos nós. Voei, em minha memória, como Chilavert fez contra Palhinha e, também, como fazia em meus desenhos.

Chilavert foi meu primeiro ídolo no futebol, depois vieram tantos outros. Exatamente como acontece com todas as crianças no Brasil, sejam elas de 12 anos ou 55. Exatamente como acontece com todos os torcedores que assistem rotineiramente aos marmanjos e adolescentes que desfilam atrás da bola e da vida todas as semanas.

O esporte se sustenta através de ídolos. Figuras representativas para torcedores, jornalistas e cartolas. Não só no futebol. São frequentes os exemplos de ídolos, cuja imagem impulsiona o esporte que praticam. Guga, no fim dos anos 90; Popó, nos 2000, e mais recentemente Anderson Silva.

Numa Vila Porto-Alegrense vê-se um guri negro, magro e singelo, com camisa do argentino Riquelme. Numa vila logo na entrada da Porto Alegre, bem ao lado das construções da Arena, um bar tem em seu nome: Bar Zidane. O batismo veio em homenagem a um jogador, filho de argelino que imigrou para Marselha, e que contra todas as perspectivas ganhou inúmeras honrarias pelo mundo – inclusive esta: o nome de um bar em uma das vilas mais humildes de cidade. O mundo diminuiu, como diziam meus professores de geografia. E os ídolos cada vez mais são idolatrados em todos os cantos.

Tenho um cartaz do Muhammad Ali no meu quarto, mesmo nascendo 14anos depois de sua lendária luta no Zaire. Acumulo livros, camisetas e memórias de um certo Diego Armando, tendo vibrado apenas com um gol seu: aquele contra a Grécia na Copa de 94, nos Estados Unidos. Esse é o poder do ídolo. De um ídolo que, como qualquer um de nós, também sofre, comete erros, faz escolhas e acumula contestações. No entanto, ao contrário da maioria dos seres humanos, resiste ao tempo e a geografia.

Em contrapartida ao crescimento dos ídolos está a idolatria. A idolatria cega as diretorias, os torcedores e os jornalistas. A idolatria é um fenômeno bem importante para o márquetim, para as imagens e para o sistema. A idolatria vende, à custa dos ídolos.

Por exemplo: Fernandão foi escolhido para ser treinador do Internacional, surpreendendo a todos. Essa escolha demonstra a tendência no ramo dos ‘treinadores’, onde os profissionais de ‘carteirinha’ estão sendo deixados de lado em favor de um ídolo. O antecessor de Fernandão, Dorival Júnior, assumiu ano passado no lugar de Falcão, outro ídolo colorado. Na mesma época, Renato treinava o Grêmio. Durante muito tempo sempre que ‘caía’ um treinador, principalmente na dupla grenal, um dos pré-requisitos básicos que se exigia do sucessor era a ‘identificação com o clube’. Renato, Fernandão, Falcão, Koff (este ultimo que almeja retornar à presidência do Grêmio). São as respostas de nosso tempo, de nossos clubes.

Hoje vivemos um tempo de Gladiador, de Moreno (que viraram outdoor logo que vestiram a camiseta tricolor), de D’alessandro, de Forlán. Desses jogadores que vão além dos campos, e estabelecem-se como imagens e produtos. Às vezes, inegavelmente, prosperam. D´alessandro e Kleber por exemplo, demonstraram atitude e talento nos clubes gaúchos, superando todas as contestações e tornando-se ídolos.

No entanto no futebol os resultados superam tudo. Como na vida. Mesmo que se supere a idolatria a Falcão e Renato, Fernandão e Koff, chamaremos outros ídolos. Afinal, estamos no tempo do márquetim. Além disso, os ídolos do passado venderem e vendem cadeiras nos estádios, camisetas, cremes de barba e celulares. Eles também representam a esperança, o sonho e a alegria no imaginário das nossas crianças. Pois sempre teremos milhares de crianças correndo, driblando lata e querendo ser o novo Neymar, que mistura de forma fenomenal a imagem do celular, do xampú e dos refrigerantes com seus dribles e gols que encantam e fantasiam os admiradores do futebol.