Marcha contra a mídia machista

Por Letícia Zenevich

Cheguei ao Arco. Em comparação à Marcha das Vadias, éramos desoladamente poucas. Mas estávamos ali. As pessoas se aproximavam, queriam saber o que estava acontecendo. “Isso é tipo a Marcha das Vadias?” – uma garota me questionou. Assenti. Mas com um fim, ainda que extremamente amplo, mais objetivo: acabar com o machismo na mídia.

Não posso falar pelo grupo inteiro, até porque heterogêneo, mas sei bem o porquê de eu estar lá. Sabia que a mídia não se comoveria com nossos passos, ainda que firmes. O que buscava era despertar nos outros a questão, fazê-los refletir sobre o papel da mulher na mídia, para que juntos denunciássemos os comerciais e os programas que nos reduzem e estereotipam, para que na vitória de uma atleta seja filmada sua medalha ou seu sorriso, não sua bunda. Para que a mulher não tenha uma felicidade orgasmática ao se deparar com um novo produto de limpeza sem que, no entanto, limpar a casa seja visto como uma atividade inferior.

Queria conscientizar, implantar essa ideia de que a gente controla a mídia a partir de nosso papel de consumidor.  Claro, falar em papel de consumidor exclui muita gente que não pertence a essa redoma de consumo, mas ali, sábado na Redenção e na Cidade Baixa, estávamos atingindo exatamente esse público, que pode consumir. E, no consumo, pode escolher. É a regra de mercado utilizada a nosso favor. Que a nossa demanda e, nela, a nossa conduta social, possam efetivamente baixar, a despeito dos milhares de reais investidos em uma campanha publicitária, a demanda por determinado produto, quando ele se vincular a estereótipos machistas.

Os cartazes pediam o boicote de determinadas marcas de produtos de limpeza, de cervejas, de desodorantes.  Nada muito difícil. Assim como o torcedor gremista não vai comprar e vestir uma camisa do colorado porque as ideias a ela vinculadas não lhe representam; assim queremos para os demais produtos, que não sejam comprados quando sua publicidade está baseada em uma ideia de inferioridade ou de submissão da mulher ou de desrespeito à identidade de gênero em geral. Para isso, é necessário criar, assim como nos produtos de clube de futebol, essa vinculação entre uso do produto e expressão de uma aceitação pelo que o produto representa, que existe, mas ainda é baixa no Brasil.

Assim, nessa perspectiva, a voz do cidadão, em seu papel de consumidor, vai se passar no caixa do mercado, da loja, na compra virtual, onde ele dirá, ao comprar ou não tal produto, se concorda com seu comercial e as ideais nele vinculadas e se está ou não de acordo com o papel que a determinada empresa está promovendo na sociedade.

Difícil passar tudo isso em poucas linhas rimadas. Mas tentamos. Animad@s e com cartazes em punho, cantávamos, além das canções já conhecidas da Marcha das Vadias, mais algumas: “Se sou atleta, vitoriosa, por que pra mídia só sou gostosa?” (com variações para “se sou mulher”); “Prudence, qual é a piada? Estupro é crime e não é palhaçada!”; “Te liga, Nova Schin, machismo, não; cerveja, sim!”, “Lute, lute, lute, não deixe de lutar, por uma mídia livre, feminista e popular!”.

Numericamente, não impressionávamos, mas ainda assim entregávamos folhetos e as pessoas nos observavam, talvez divertidas ou curiosas com a situação, esse exercício contínuo de cidadania na era do consumidor. Resquício ou semente, não sei bem. Mas não pude deixar de estar ali e, um dia depois, ter aquela sensação boa de estar sem voz e, paradoxalmente, sentir que sim, ela importa.