Um pouco de Chile

Por Leonardo Bomfim

O dito é antigo: un poco de Chile para que se entierra bien. Ao menos nas salas de cinema de Porto Alegre, isso parece estar sendo levado em conta. Não é sempre que temos obras chilenas contemporâneas em cartaz. No momento, há duas!O novato Cachorro Morto, de Camilo Becerra e o premiado Violeta foi para o Céu, de Andrés Wood, este já um blockbuster da Rua da Praia, passeando com sucesso pelas salas do Centro nos últimos meses.

Aliás, importante lembrar: nos anos recentes sempre houve um pouco de Chile nos cinemas da cidade, especialmente na programação do Santander Cultural. Foi lá que vi alguns dos mais atraentes exemplares do Nuevo Cine Chileno, como Valparaíso, Meu Amor (1969), de Aldo Francia, que embora o título indique uma filiação à célebre estreia de Alain Resnais, está muito mais próximo de uma tentativa neorrealista chilena, influência também nítida em Viagem Longa (1967), de Patrício Kaulen. A referência de Resnais, por sua vez, aparece com os incríveis jogos temporais e narrativos de O Chacal de Nahueltoro (1969), de Miguel Littin, um dos grandes filmes do jovem cinema latino-americano daquele período, que reivindicava a criação de uma imagem do Terceiro Mundo – um Terceiro Cinema, afinal. Mas foi uma geração interrompida, em alguns casos até abortada. A história todo mundo sabe: em 1973, o país sofre um Golpe de Estado e, evidentemente, um cinema livre não tem mais vez. Os artistas precisam fugir.

Um filme que dá conta dessa questão é Diálogos de Exilados (1975), de Raul Ruiz, também exibido no Santander Cultural, em mostra realizada logo após sua morte, no ano passado. A obra de Ruiz é um capítulo à parte da história do cinema, mas são páginas que devem ser viradas com muito cuidado. Hoje o cineasta é mais reconhecido pelas incursões surrealistas dos anos 1980, de potência imagética singular, O Território (1981), As Três Coroas do Marinheiro (1983), A Cidade dos Piratas (1983) ou pelas versões cinematográficas para autores “infilmáveis” como Marcel Proust e Pierre Klossowski. Mas há uma primeira fase, realizada no Chile, que merece atenção – felizmente apresentada na íntegra na mostra do Santander. Em especial Palomita Blanca (1973), sobre as crises de um jovem casal, dando uma dimensão da efervescência cultural chilena e, também, do autoquestionamento político no início dos anos 1970. Deixa um gosto do que poderia ter acontecido caso o país seguisse livre.

Mas retornemos ao presente, a Cachorro Morto e Violeta, duas obras distintas, a começar pelos valores da produção, mas que não deixam de caminhar juntos por linhas tortas. Não tanto por encararem a vida de mulheres, mas porque parecem traduzir, cada um a seu modo, uma sensibilidade universal dos períodos retratados.

Talvez o primeiro êxito do filme de Andrés Wood seja a fuga da biografia ou de um recorte mais factual da vida de Violeta Parra, passando distante de um tom reverencioso que minaria todas as intenções. O tratamento dado pelo cineasta, por sinal, é o de uma personagem de ficção. Quando tudo termina, sabemos muito pouco da carreira de Violeta, mas muita coisa sobre aquela personagem. São raras as cenas em que ela não está presente e, de fato, o filme toma para si a sua persona. Não é estranho, no fim, que a obra perca fôlego juntamente com a artista e então filme e personagem esmaeçam juntos. Se no início temos uma narrativa eufórica, com uma porção de cenas atropeladas, numa mistura de tempos e histórias, perto do desfecho fica evidente um sentimento de estagnação.

O cansaço surge porque estamos vendo a história de um desencanto. Em determinado momento, a artista comenta que uma voz acadêmica não conseguiria cantar as suas canções. É preciso dor, uma vida em sofrimento. A impressão é a de que, nos últimos momentos de vida, o sofrimento de Violeta toma certa distância de seu mundo. O modo como Wood insere as músicas, aliás, deixa isso bem claro: das transcrições populares de acordes rimados na primeira parte do filme às canções agressivas, de harmonias extremamente dissonantes, soando como urros individuais, no desfecho. Pois Violeta foi para o Céu pinta uma mulher que, a partir da arte, viu uma possibilidade de se relacionar com a cultura de seu país, alimentando-se da intensidade surgida desse encontro, mas que ao longo da vida passa a sentir cada vez mais isolada, incapaz de lidar com as coisas e as pessoas que tanto ama.

Por outro lado, em Cachorro Morto o sentimento de desencanto não tem vez. Se Violeta Parra era uma mulher com uma missão, a protagonista do filme de Becerra, Alejandra, é uma mulher cujos olhos estão sempre mirando um lugar nenhum. A própria cidade onde ela vive é completamente deslocada, um deserto. Mas o seu lugar nenhum também é interno: a jovem vive anestesiada em meio a uma enorme quantidade de problemas; a responsabilidade de ser mãe, a falta de dinheiro, o péssimo relacionamento com os familiares, a ausência de afeto na vida amorosa. Nada, entretanto, tem o poder de tirá-la do ponto morto.

Nesse sentido, há uma cena importante, no exato momento em que o filme ameaça escorregar oferecendo uma redenção à personagem. O filho de Alejandra está dançando num palco da escola, seu sogro, que a detesta, lança-lhe olhares quase compreensivos. E ela ensaia o choro. Seria difícil o espectador segurar as lágrimas, caso a menina não interrompesse a inclinação ao melodrama com um súbito enjôo. A apresentação de seu filho na escola seria o contexto perfeito para que a garota se descobrisse mãe, e até mesmo mulher, no sentido cultural do termo. Mas de tão instintivo, aquele vômito tem um valor de afirmação. Alejandra não é uma mulher, muito menos mãe. É um corpo à deriva. O vômito que interrompe as lágrimas também é a afirmação de um jovem cineasta que inicia sua trajetória em longa-metragem.

Violeta e Alejandra, por fim, estão próximas em suas diferenças: a primeira sofre porque tem a consciência da sua utilidade para o mundo. Já a estranha tranqüilidade da segunda só existe porque ela é um ser inútil. Talvez por isso que o filme de Andrés Wood, baseado na vida de uma personalidade famosa que se suicida em 1967, parece uma grande ficção, enquanto a pequena história de Becerra nos dá a impressão de que está acontecendo ao nosso lado.