Grupo de Desenho do Colúmbia Palace

Por Daniel Eizirik e Nanda Gouveia
do Projeto Ocupação Cultural

| Arquivo Grupo de Desenho do Columbia Palace

O antigo hotel Columbia Palace (av. São João, 588 – São Paulo) ficou abandonado por mais de 20 anos. Na noite das eleições presidenciais de 2010, foi ocupado e revitalizado por 80 famílias que restauram e ressignificam o espaço até hoje. Mesmo depois de tecer a rede elétrica e hidráulica dos 6 andares de forma artesanal, de tirar sacos e sacos de lixo e entulho, de pintar inúmeras paredes, vedar vazamentos, trocando portas, tirar bicho, faxina, cozinha, quarto, casa, centro cultural, os residentes ainda são considerados ilegais perante a lei.  No final de agosto de 2012, os moradores receberam uma ordem de despejo.

Escada do saguão | Daniel Eizirik

2011
O Grupo de Desenho Columbia Palace surgiu dentro da ocupação São João (MSTRU – FLM), em 2011, de forma natural, num percurso turvo e tortuoso. Desde pequeno, gosto de desenhar fora de casa e passei a fazê-lo dentro da ocupação.

Acontece que sempre que me sentava na escada ou no chão do corredor e tirava um bloco, uma caneta, brotavam centenas de milhares de crianças em cambalhotas, jovens em gritos de pergunta: “me empresta papel, caneta, quero desenhar.” E essa hora mexia com certas relações. O fluxo dos riscos crescendo no papel parecia abrir novos fluxos de absorção e diálogo.

A luta do Movimento por Reforma Urbana seguia, e eu tinha cada vez mais perguntas. Continuei desenhando, mas passei a levar o dobro de material quando ia para o Columbia Palace. A experiência ganhou frequência, os rostos se repetiam e decidimos dar uma sequência estável para os encontros.

Acordo no. 1 – Quintas-feiras, 20h.

Grupo em atividade | Daniel Eizirik

Essa foi a primeira regra estabelecia. Com o avanço das quintas-feiras e sem planejamento, foram surgindo mais acordos com os jovens moradores do grupo: 2. O espaço é sagrado; 3. Saiba escutar, obedeça se quiser; 4. Primeiro desenhamos, no fim mostramos os desenhos que queremos mostrar e conversamos sobre eles; 5. Música, cada noite um escolhe ou faz um pedido.
A proposta de viver o desenho como ferramenta para troca de experiências trouxe novas situações para cada encontro.

O imaginário compartilhado ganhou força e nos entendíamos cada vez mais. Com a participação frequente e luminosa dos irmãos  Gustavo e Guilherme, Binho e Renan,  além de Lucas, John, Alan, Elessandra, Nanda (que não são irmãos,mas manos), para lembrar alguns, certo vocabulário comum permitiu que a gente falasse a mesma língua, mesmo trabalhando com pessoas entre 3 e 40 anos de idade. Tentamos abordar assuntos relativos às coisas de dentro, às coisas do dia-a-dia. O que é desejo? Tenho autonomia? Como foi sua semana? E sempre que possível, a resposta devia vir em forma de imagem, no papel.

Evitando a situação de aula, com professor e aluno, surgiram temas e propostas diferentes para cada encontro. Conversando sobre signos, símbolos e a origem das palavras, víamos a maturidade mesmo nos mais novos. Evocamos nossos fantasmas à luz de velas, refletimos sobre as cagadas do passado, a vida dentro de casa, as imagens marcantes do passado.

sistema espacial | Gustavo

E fomos trabalhando cada noite mais longe. Começando dentro da sala da artista Nazaré Brasil, no primeiro andar da ocupação. Ao poucos saímos para o corredor, no meio do caos das brincadeiras no saguão, depois para rua, pra avenida, MASP, Galeria Soso, até uma noite no Hotel Central do Anhangabaú*, também assombrado por décadas de abandono.

O primeiro pedido musical foi Raul Seixas, que morou nesse mesmo prédio na época em que funcionava o hotel e iluminou a noite. O segundo pedido foi de ópera, rendendo o delicado encontro com Kurt Weill reverberando entre o encanamento e a fiação dos corredores.  E como não poderia ser diferente por aqui, tentei somar outra visão a esse relato. A Nanda Gouveia, 19 anos, dois de Columbia Palace, esteve presente em quase todos encontros. Passo a palavra para ela, para depois retomar e concluir nossa jogada.


Pelos olhos da Nanda
“ ‘Escrever é escrever-se, ler é ler-se’**, uma das célebres frases ditas no Grupo de Desenho da ocupação São João, era o que ocorria toda quinta-feira à noite no ano de 2011. Um dos quesitos era não separar o certo do errado, o bonito do feio em um desenho, ir apenas onde o papel e o lápis iam nos levando”.

ReXistência colaborando com pessoas que passavam na rua | Arquivo do Grupo de Desenho do Colúmbia Palace

No ateliê da tia Naza surgiram momentos incríveis: frases, música, sorriso, choro de um dedo machucado, discussões que iam além do que vemos todos os dias. Momentos para parar e refletir sobre o mundo e as coisas a nossa volta, que ocorrem no nosso tempo.

Olhando, pensando e revendo alguns desenhos do caderno, observo como tudo isto foi essencial para mim e creio que para todo o Grupo de Desenho. Tudo ficou para o tempo infinito. Em nossas memórias, um desenho sobre a luta da terra, uma caricatura. Um desenho feito dentro de um prédio escuro do correio, o trecho da música do Raul Seixas discutida em um encontro que dizia “Cada um de nós é um universo”. Os acordos sobre saber escutar, obedecer só quando quiser, e o acordo de o espaço ser sagrado. Nuvens, monstros, ocupações, memórias…

Nunca irei esquecer a tranquilidade que havia em mim, do Daniel tentando articular o grupo a se concentrar e a se unir, a aprender a fazer desenhos não apenas no grupo mas quando a vontade bater, sem precisar necessariamente do grupo, bastando ter um papel e um lápis na mão para fazer a revolução – de grande importância essa dica inclusive. De certa forma aprendemos muito além disso, aprendi que pode haver uma desenhista sem saber desenhar, ou uma atriz que representa todos os dias sua vida sendo a protagonista, ir onde o vento levar, apenas começar e não impor limitações, ser ave.

2012

Polícia | Arquivo do Grupo de Desenho do Colúmbia Palace

Em setembro os moradores enfrentaram a tensão de uma ordem de despejo, marcada para o dia 11. O proprietário do prédio apareceu, dizem que até quitou a enorme dívida fiscal do abandono. O prédio que foi deixado às traças, às pulgas e aos ratos, hoje está ajeitado, habitável e habitado. E o proprietário/seus herdeiros o querem de volta.

É muito atrativo sair das “nossas estruturas” de organização, na busca de novas formas de vivência. Dentro dessa pluralidade acabei esbarrando em “outras estruturas” de regência e conduta, das quais brotam mais e mais dúvidas. A ordem de reintegração de posse do prédio foi adiada, mas não suspensa. Entrando hoje de manhã no prédio, meu corpo foi tomado por calafrios. O que fazer amanhã? No domingo, dia 9, aconteceu o evento cultural rExistência Cultural, na rua e em solidariedade aos ocupantes. No mesmo dia 11, foi inaugurada uma exposição de fotos e uma instalação sobre o Columbia Palace na Câmara Municipal.

O preenchimento humano do espaço físico me fez acreditar que a posse do prédio estava mais próximo dos atuais moradores. Hoje, essa imaginação pareceu real demais.

Para saber mais: projetoocupacaocultural.blogspot.com // columbiapalace.tumblr.com

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** “Escrever é escrever-se”, ou “trabalhar é trabalhar-se”, atribuídas à professora Grácia Lopes

* Ações que contaram com o apoio do projeto ERSILIA, da artista norte-americana Swoon para exposição De Dentro e De Fora, MASP 2011. Muchas gracias as galerias Soso, Choque Cultural, Casa das Caldeiras, dos rapazes SHN e Paula Z. Segal.