Tom Zé não me deu o rabo

Por Luciano Viegas

Tom Zé e seu Rabo – Foto: CC BY-SA Fora do Eixo

Tomei essa liberdade de perguntar. Meu ídolo entrando no palco de vestidinho cor-de-rosa, fiquei maluco. Despiu-se, “nu com a sua música”, beijou o rabo do Caetano e Gil, blá blá blá, mas quando toquei no assunto do SEU RABO, tirou da reta:

– Tom zé, por obséquio, posso beijar o seu rabo? – interrogação

Explico: além do vestidinho, Tom Zé “abriu o encerramento” do festival de teatro que tava tendo por aqui (esse que tem um precinho meio salgado, mas que no show dele resolveu fazer liquidação, porque é made in brazil) com um rabo de capeta enxertado no traseiro, de plástico, vermelho e preto, pura sedução. Aí o sujeito me olhou nos olhos, percebeu a má intenção, como quem diz “sou cabra-homem”:

-Mas esse é o único rabo que eu tenho, meu querido.
-Justamente, esse é o único rabo que eu quero, Tom Zé.

E assim o cara conseguiu me enrolar, porque tinha que continuar o show. Tom Zé, favor ser mais humilde, coloca o rabo na jogada, todo mundo estava afim de. Nem um selinho à la Hebe? É a sensação do momento. Pelo jeito Tom Zé caiu naquela lorota de se valorizar. No seu rabo ninguém toca, e não se toca no assunto. Isso depois de tirar o vestido e esfregar sua genitália-tropicália na minha testa. Toninho Malvadeza. Ainda cheirou uma calcinha que atiraram sobre o palco, de fazer inveja.

Ah, sim, parece que o show foi realizado pela Opus, a produtora de festas da RBS que resolveu extorquir uma graninha de quem é cult agora (nicho de mercado valioso). Tom Zé, nessa encenação de abertura que mais parecia um talk-show/orgasmo intelectual fez leitura da ZH, que foi vaiada de pé no Araújo Viana. Uma quarta acima. Mas vamos deixar de hipocrisia e reconhecer que os Sirotsky pelo menos dessa vez acertaram a mão. Trouxeram um cara bem bacana pra cá, valeu mesmo RBS! Só que o som bem na frente do palco era uma bosta, e todo mundo tinha que ficar sentado na hora de dançar (até o momento da rebelião, que não tardou). Logo no show mais foda da minha vida, ficar sentado na dura cadeira-madeira?

Fui pra cima, cheguei chegando, pedi-lhe o rabo; pedido negado, chororô. Eu, pobre-rouco-diabo, coração despedaçado. Era um rabinho comprido que às vezes batia no microfone fazendo estardalhaço, e tinha, bem na ponta, uma cabecinha vermelha.

Agora me diga quem mais, no Brasil, em lançamento de disco, lota um teatro e coloca toda a juventude reunida pra chacoalhar as membranas? Quanto vale esse rabo? E ainda pisa no calo da Coca-Cola, que tá bancando todo o espetáculo. É por isso que prefiro a Pepsi e o Tabaré.

Tom Zé, cabra safado, vá despejar seu lixo lógico noutra freguesia que esse show, essa sedução que não conclui, já foi demais pra minha cabeça. Não quero bis. Vi um dos últimos gẽnios vivos e não ofegantes da MPB ali, esfregando o rabo na minha cara. O Arnaldo Baptista também é foda, mas anda bem ofegante, há uns trinta anos. Tom Zé, só um beijinho no rabo, vai!