(breve) ensaio sobre um nobel (e uma vida)

retrato do escritor | Bottelho

Por Natália Otto

No princípio, criou Deus o céu e a terra e uma casinha de agricultores na vila de Azinhaga, no interior do interior de Portugal. Nasceu lá, em 1922, e podia ter sido um sem nome como os cegos de seu ensaio, como a mulher do médico e a rapariga dos óculos escuros, o escritor-ateu-comunista-que-vivia-numa-ilha. Há exatos 14 anos, em 8 de outubro de 1998, tornou-se outro: o único-escritor-de-língua-portuguesa-a-ganhar-um-Nobel-de-Literatura. Mas continuou na ilha. E comunista. E ateu. Agora nobelizado, para o desgosto de algumas santidades.

Era espaçoso como as frases quase intermináveis de seus romances. Pegou emprestado grandes personagens e pseudônimos, de Jesus Cristo ao Ricardo Reis de Fernando Pessoa, para reescrever estórias como quis. Falou sobre as terras mais fantasiosos e as imaginações mais brutais: o mundo sem olhos, o mundo sem morte, um mundo com – e de – Deus. Compreendeu o testemunho humano sem usar aspas.
Fez alguns inimigos e muitos admiradores. Para o Vaticano, era um “populista extremo e ideólogo anti-religioso”. Para o crítico literário estadunidense Harold Bloom, era, em 2003, o “mais talentoso romancista vivo”. Pra mim, era um pouco dos dois. Ao receber o Nobel, que veio meio de surpresa, já quase que vazio de esperanças, o escritor-ateu-comunista-que-vivia-numa-ilha dedicou o prêmio a todos os falantes do português. Aceitem como vosso um prêmio que tem que ser entregue a uma pessoa que o encara como pertencendo a todos. 
José Saramago do deus da letra minúscula, dos personagens sem nome, dos diáologos sem aspas adormeceu com os vulcões da ilha em que vivia, Lanzarote, em 18 de junho de 2010. Nesse dia, todos cegamos um pouco.
Acho que a grande revolução, e o livro “Ensaio sobre a Cegueira” fala disso, seria a revolução da bondade. Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem pelo este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa. (Saramago, em entrevista à Folha de São Paulo, 1995)