Indie Festival: variações sobre a violência

Por Leonardo Bomfim

Cartaz de “O matador de ovelhas” | Divulgação

Quem perambula pelas salas de cinema do Centro já conhece de longa data a Aida: uma senhora de cabelos alaranjados que não perde uma sessão, sem se importar em ficar a sós com o filme.  Mas durante a primeira edição porto-alegrense do Indie Festival, num incrível surto de cinefilia, Aida realmente não esteve sozinha. Praticamente todas as sessões do festival (que em 2012 completou 12 anos em Belo Horizonte) ficaram abarrotadas de gente. Não foi à toa: durante cinco dias foi exibida uma espécie de coletânea do evento original incluindo filmes inéditos e resgatados. Também foram apresentadas novidades de cineastas de nomes estranhos, alguns bem desconhecidos, mas todos importantes: Apichatpong Weerasethakul, Naomi Kawase, Philippe Grandrieux e Kleber Mendonça Filho, além de pequenas retrospectivas de Charles Burnett, Kazuyoshi Kumakiri e  Aleksey Balabanov. No fim de tudo, fui atrás da impressão geral de Aida: “adorei, mas pra que tanta violência?”. Por isso ela preferiu dispensar a última sessão do festival, provavelmente assustada com o título do clássico de Burnett, O Matador de Ovelhas (1977).

Poderia ter ficado. O filme de estreia do norte-americano é pesado e doce na mesma medida. Claro que a condição daqueles personagens, especialmente a do protagonista, um negro de meia idade funcionário de um abatedouro, entupido de frustrações, é exposta de forma crua, com alguns momentos de violência literal. Mas há o contraponto de sua família – e de fato as grandes sequências do filme acontecem dentro de casa, quando, por exemplo, a filha do casal cantarola um sucesso do Earth, Wind & Fire e a mãe, que naqueles minutos é a mulher mais elegante do mundo, se arruma usando a tampa da panela como espelho. Ou a interminável cena de dança com o casal embalado pela terra amarga de Dinah Washington, cuja letra traduz em poucas e precisas palavras aquele universo. Burnett, no fim, é daqueles que acredita no cinema como uma arte íntima. Filmar quem a gente gosta, do jeito que a gente gosta. É por isso que o seu filme seguinte, O Casamento do Meu Irmão (1983), também exibido no festival, chega a ter uma leveza rohmeriana.

Mas Aida tinha razão. De um modo geral, a programação do Indie Festival apresentou uma série de variações sobre a violência. Já na abertura, Apichatpong trouxe à tela uma história de vampiros, fantasmas e canibalismo no minimalista Hotel Mekong. A ideia do tailandês, parece claro, é esvaziar a violência num sentido imagético (as cenas em que os personagens devoram outros são abertamente patéticas). Mais próxima de um esboço, ou um estudo para algo maior, a obra toma distância da estética do fluxo, do prazer sensorial que caracteriza seus trabalhos mais celebrados. Em contraste, temos um filme duro, especialmente pela forma como o cineasta separa diversas camadas narrativas (a música, a imagem, as histórias faladas), num procedimento que lembra até mesmo o cinema de Marguerite Duras. Resta saber se é apenas um desvio ou se a obra de Apichatpong realmente tomará um rumo mais estrutural nos próximos anos. O contraponto das imagens pacientes do tailandês apareceu na insistente câmera na mão de Apenas o Vento, do húngaro Benedek Fliegauf, que levou o Leão de Prata no Festival de Berlim deste ano ao dissertar sobre famílias ciganas brutalmente assassinadas no interior do país. Mas neste caso, violenta mesmo é a mise en scène nervosa que praticamente cospe nos personagens. Se a intenção é expor uma situação delicada de seu país, por que não encará-los? A câmera de Fliegauf nos impede de estabelecer uma relação mínima com os dois jovens protagonistas e então tudo acaba perdendo força. Até mesmo o desfecho impactante não consegue dizer muita coisa.

Quem não vira o rosto diante da violência é Kazuyoshi Kumakiri, especialmente em Kichiku: o Banquete das Bestas (1997), composto por uma sucessão de cenas repulsivas capazes de testar os limites do cinéfilo mais radical.  A obra de estreia do japonês gira em torno de um grupo revolucionário dos anos 1970 liderado por uma mulher – o antigo líder, seu marido, está preso. Exercendo o domínio através do sexo, ela parece uma abelha-rainha consumida pela histeria (mas todos ali de certa forma estão histéricos e o banho de sangue, no fim, é previsível). Ao contrário de cineastas que apostam no gore como a pedra fundamental de um cinema que almeja apenas o choque, aqui a sangria exagerada tem um fundo poético, o que deixa tudo ainda mais desconcertante. Assim como em Kichiku, distante do contexto nipônico é difícil abraçar imediatamente Esboços da Cidade de Kaitan (2010), outra obra de Kumakiri exibida no Indie.  O filme vai batendo aos poucos e, mesmo sem cabeças cortadas, consegue ser ainda mais desagradável, apresentando uma espécie de cidade dos amaldiçoados, onde a violência é distribuída em doses homeopáticas, por vezes até em passagens delicadas que revelam, entretanto, uma profunda ausência de afeto entre todos os personagens. Um grande filme sobre a vida contemporânea.

Still de Kichiku: Banquete das Bestas

Mas se houve uma obra que expôs o mal-estar contemporâneo com maestria foi o brasileiro O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. Há muito tempo não se esperava tanto de um filme daqui e as expectativas se confirmaram: é a grande obra-prima dos últimos anos em nosso cinema. As revisões são necessárias para que todas as portas abertas pelo filme sejam devidamente penetradas, mas numa primeira vez algumas coisas já chamam a atenção. O modo como o cineasta entrelaça o ordinário e o extraordinário, por exemplo. A rigor, estamos vendo cenas muito familiares, problemas entre vizinhos, algo que acontece perto da gente. Mas o filme insere um tom dissonante, como se a todo o momento afirmasse que aquilo é cinema, que é invenção. Fala-se muito do trabalho de som, certamente por causa do título, mas o grande ponto aqui é a desconstrução espacial. O filme inteiro se passa numa rua do Recife, entre prédios, casas e apartamentos, mas tudo é redefinido de tal forma que a gente não consegue ter uma localização precisa sobre aqueles espaços. A rua se transforma num labirinto de grades, paredes e muros que separam o território de cada personagem e, consequentemente, modula as próprias relações pessoais.

Em O Som ao Redor, todos agem como o gato que descansa com os olhos abertos. Entre janelas e grades, saber do outro é indispensável – não por acaso, entrelaça as histórias a chegada de novos vigias na rua. O que amedronta não é tanto da violência urbana, que também está ali, mas os olhos indiscretos. As pessoas sempre têm algo a esconder, isso fica claro, e o filme se dedica a diversos episódios de intimidade em que os personagens rompem com a vida em comunidade para ter algum tipo de prazer solitário – do banho de mar noturno até a masturbação na máquina de lavar.

O perigo de ter muitos personagens num filme é forçar um elemento em comum, uma linha facilmente identificável entre todas as histórias. Em O Som ao Redor isso não acontece, é como se o filme pegasse uma rota diferente, inclusive num sentido estético, a cada cena, a cada personagem que surge. O mais importante, no entanto, é que Kleber Mendonça gosta de seus personagens, até mesmo aqueles que deseja criticar. Por isso a impressão de que o filme, embora extremamente denso, tocando em pontos delicados do nosso convívio, poderia ter tranquilamente umas dez horas de duração.

Still de “o Som ao Redor” | Foto: Divulgação

Se há alguma coisa (talvez a única?) que O Som ao Redor parece celebrar, por vias tortas, é esquizofrenia social brasileira. Numa das cenas capitais, moradores de um prédio debatem na reunião de condomínio se devem ou não demitir o porteiro, que após longos anos de casa dorme durante o serviço. A prova é um vídeo montado pelo filho de um condômino, com imagens registradas secretamente. A classe média, aquela que reclama que a Veja chegou fora do plástico, também vigia o porteiro, naturalmente. Como quem filma uma vingança (gostando dela), Kleber Mendonça traz na cena seguinte o porteiro acordado e atento, na sala de controle do condomínio, observando o casal que troca carinhos mais generosos dentro do elevador. A vigilância do porteiro é poética, um gasto improdutivo de energia; a dos moradores é rancorosa, vingativa. Nesse sentido, o desfecho apenas confirma aquilo que atravessa toda a obra: a vingança é o que nos une. Ela está em todo lugar, em atos mesquinhos, gratuitos, mas também em voos maiores, que de certa forma explicitam um pouco da história social brasileira.

É curioso, mas certamente nada tem a ver com o acaso o fato da nova mostra da Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia de Porto Alegre, inaugurada no último sábado, ser dedicada, assim como o filme de Kleber Mendonça Filho, ao mundo sob constante ameaça. No fim, a violência exposta no Indie Festival e a insegurança do mundo contemporâneo estão intimamente ligadas. Mas é fundamental identificar de onde o medo vem. Porque a insegurança, muitas vezes, serve de muleta para o conservadorismo mais atroz. Não deixa de ser a grande questão de O Som ao Redor, o retrato perfeito de um país que recorre ao alerta laranja quando qualquer vírgula da história ameaça mudar. Ao menos, agora a gente já pode dizer que tem cinema.