Vagamundo bageense

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As noites de Bagé eram, para mim, principalmente duas coisas: cuscos e batuque. Claro,
havia o silêncio também – mas ele era o pano de fundo escuro, era o que acontecia quando
não havia cuscos latindo, nem batuques batucando. A cadência dos tambores vinha das
encruzilhadas de terra, de algum pátio de casa achatada nos arrabaldes (lá onde viveu o
homem que escutou as últimas palavras de Solano Lopez, e não as disse a ninguém); vinha dos
fundos matagais com suas furnas invisíveis (lá onde antigamente viveu o Dragão zarolho dos
índios minuanos); vinha de capões de mato engastados entre palacetes, das vizinhanças da
Matriz com suas torres bulbosas (lá onde os chimangos sitiados, na Revolução de 93, tiveram
de comer ratos – e um cavalo). E os cuscos respondiam, perto e longe, espalhados por todos os
círculos concêntricos da cidade, daqui até onde o sol nascia.
Ouvi dizer que existem mais de cem terreiros em Bagé. Muitos deles fundados pelo Príncipe
Custódio – ou apenas “o Príncipe”, um homem já tão legendário que foi diluído na abstração.
Pois então: dizem que era, de fato, um príncipe, herdeiro do trono de Daomé, na África
Ocidental. Que foi expulso de lá pelos ingleses. Que veio se refugiar em Bagé – não foi o
primeiro nem o último náufrago do mundo a acabar por lá. Dizem que andava pelas ruas com
um turbante glorioso na cabeça; que era muito alto e bonito. Incomparável nos búzios, foi pai-
e avô-de-santo de muita gente. Ganhou fama. Foi morar em Porto Alegre, perto do que hoje é
a Travessa dos Venezianos. Espalhou seus orixás pela Cidade Baixa e ainda hoje, nos terreiros
escondidos entre a Lopo Gonçalves e a perimetral, cochicha-se: “O Príncipe Custódio foi nosso
pai”. Jogou búzios para Borges de Medeiros e para Getúlio Vargas. Dizem que o pagavam com
ótimos charutos.
Incrível, não? Mas lembrem, damas e cavalheiros: ele foi, antes, para Bagé.
A memória coletiva de Bagé abunda com esses visitantes improváveis. Ninguém esquecerá
o causo de Richard Gere tentando comprar cacetinhos em uma padaria nativa. Ou de Omar
Shariff bebendo uísque no Clube Comercial. Ou daquele tal juiz (Lalau?) que foi preso em um
conhecido estabelecimento da cidade (um motel chamado Flipper, cujo logo é um golfinho
faceiro saltitando). Ou do milionário australiano que tentou dar a volta ao mundo em um
balão, e acabou caindo aqui (“aqui no fim do mundo”, completaria o bajeense típico, com o
sorriso misto de galhardia e autocrítica que é especialidade da fronteira).
De Bagé diz-se muita coisa. Que é um poço de provincianismo, por exemplo. Talvez seja – mas
nesse caso é o ideal platônico de província, uma província tão provincial que, com um leve
empurrão, acabaria resvalando para os domínios do realismo fantástico. Também dizem que é
a cidade mais gaúcha do Brasil. Deve ser mesmo. E é exatamente por isso que, lá em Bagé, se
desfazem e se desmancham todas as caricaturas e estereótipos do gauchismo. Na minha velha
cidade mestiça, meio castelhana e meio lusíada, meio charrua e meio áfrica, estão os gaúchos
ancestrais, anteriores ao mito metropolitano – o “gaúcho cívico” – e ao seu contra-mito –
o “gaúcho que não existe”. Os gaúchos de Bagé existem, sim, só que não são necessariamente
o que tu vês no Galpão Crioulo.
Os gaúchos de Bagé, entre outras coisas, fazem macumba.
autor de A árvore que falava aramaico.
Fotos:  José Greco / Fototeca Tulio Lopes do Museu Dom Diogo de Souza