Pintamos os muros

Desde o começo do começo do humano nós pintamos os muros de dentro e de fora. A parede da caverna, a encosta da montanha, a casca da árvore, o amontoado de tijolo, a parede da casa. Pintamos nossas superfícies, nos expomos em cores e tornamos o concreto mais humano. Mas a tinta também é protesto, depende muito do propósito do muro. Quando a construção é usada para segregar, pintar é um dever. Pintar, repudiar, exigir seu fim.

Esses muros invisíveis do convívio, que nos separam das outras pessoas, são usados por diferentes motivos. Alegamos medo, insegurança. Mas quando o que nos separa é a posse, é a propriedade, é o poder de comprar e o poder de desejar, a situação se complica. O que definitivamente não se perdoa e não se admite – o que não é razoável, é que a grade divida um espaço público. Um lugar de todos. Um auditório, um parque.

A segurança não é garantida pela quantidade de câmeras, armas, muros, grades, cidadãos pagos para arriscar a vida defendendo o patrimônio de empresas… É o contrário. É a vida na rua que assegura. É a porta aberta que garante que ninguém é discriminado, marginalizado. É a música noite adentro que junta mais gente e mais riso, que permite que uma criança brinque num parque em qualquer horário do dia e da noite.

Ontem a Defesa Pública da Alegria fez um ato-festa contra as grades da Redenção postas pela prefeitura e pela atual “proprietária” do Auditório Araújo Viana, a Opus (Dei?). Noite incrível de muita música e gente alegre. Bandas, malabares, projeções, bicicletas por todos os lados. Foi um protesto com alegria, do jeito que não sai em nenhum meio de comunicação. Por que o riso como protesto incomoda tanto que a maioria das pessoas prefere ignorar. A felicidade como forma de resistência ao medo imposto é arrasadora porque desconstrói preconceitos e discursos conservadores. Por isso ignoram, por isso ridicularizam, por isso não entendem. Como tudo que é lindo, o ato não saiu na grande mídia, mas aconteceu e segue acontecendo.

Pintamos os muros sim, pois o simbolismo das grades em nossa grama não é coisa pouca.