Paris e a manif de domingo, por uma francófila convicta

Por Letícia Zenevich

Manifestação em Paris - Foto Letícia Zenevich

Manifestação em Paris | Foto Letícia Zenevich

Nunca, em toda a história do casamento heterossexual ocidental, tantos “sim” foram ditos juntos. Com força e convicção. Em uníssono, desafinado, alto, alto, subindo ao lado dos balões vermelhos. O céu, que tantas vezes foi vermelho por aqui, estava sitiado de amor.

Cheguei atrasada em Port Royal, de onde uma parte da manifestação partia. Mas não faz mal, a França estava ainda mais atrasada. Não há ainda casamento igualitário, não há pensão alimentícia nem direito à inserção no plano de saúde por aqui. Já era bem tarde para a França quando cheguei.

A multidão caminhava. Logo estávamos ao lado das Arenas de Lutèce. Ao lado das ruínas de Lutécia, essa primeira França antiga, continuávamos suas batalhas. Agora não por diversão, mas por cidadania. Íamos às vezes ruidosos, às vezes mais calados. Mas não importava: os vários cartazes falavam de tudo. “A igualdade não é um capricho”, “Eu não tive de votar pelo seu casamento”, “Os mesmos deveres, os mesmos direitos”, “Contra o heterossexismo, protejam as crianças!”, “Segundo o Le Figaro, somos 12 a nos manifestar”, “Que pena! Ela me disse que só depois do casamento”, “Todos devem ter direito a se divorciar!”, “A Argentina legalizou o casamento para todos em 2010. O país ainda existe, e o tango também”, “Quem tem medo da igualdade?”, “Contra a homofobia, protejamos nossas crianças!”, “Orgulhoso de andar no caminho certo da História” e milhares outras.

Sim, milhares. Cada um com a sua mensagem, verbal ou escrita, resumida nessa palavra rápida: OUI. Sim, sim, sim, sim, sim, sim. Sim ao casamento, sim à adoção, sim à totalidade dos direitos sociais, sim. A polícia estima 120.000 participantes; os organizadores, 400.000. Deve ser algo em tornpo disso, umas 300.000 pessoas em busca de igualdade. Muitos cartazes de “solidariedade hetero” podiam ser vistos. Vários casais, de todas as orientações, marchavam juntos em prol de uma orientação legislativa única: a igualdade. Ou todos casam, ou o casamento é um privilégio dos heteros, e os privilégios esse povo já derrubou, em teoria, em 1789.

A anti-manif, como ficou conhecida a manifestação contra o casamento igualitário, atraiu bem mais gente: a polícia estimou em 360 mil; os organizadores, em 800 mil. Fiquei chocada: o dobro de gente marchou por essas mesmas ruas lutando pela desigualdade e pela manutenção de privilégios em razão da orientação sexual. Quase um milhão de pessoas, ao final, lutando para que as outras não tenham o mesmo direito que elas. O que explica essa diferença brutal? Minha amiga Marie, filósofa e jornalista, argumenta bem: “olha, para a gente os direitos civis homossexuais parecem tão naturais que muita gente não acha necessário se manifestar em favor deles. Já quem é contra é mais mobilizado, para eles é tão terrível a ideia de casamento que eles se articulam melhor e vêm em peso para a marcha”. Pode ser, faz sentido, embora ela, como eu, só possa fazer sugestões que expliquem a figura dolorida dos números. Mas o que os números não podem evitar é a ironia e o humor que prevaleceram na passeata. Muita gente pedia “o direito a poder dizer não”, “o direito a se divorciar”, figuras do Nyan cat, cartazes do Batman e do Robin se beijando, das princesas e príncipes da Disney, respectivamente gays e lésbicas, com dizeres que “a lista de casamento dos casais gays vai reaquecer a economia”, do humor francês, enfim.

Gosto de pensar que éramos mesmo 400.000. E é impossível conter a emoção quando a gente vem se aproximando da Bastilha, o anjo lá ao alto vai se erguendo, se abrilhantando, chegando e todo mundo grita e canta e conversa, e as mensagens se espalham, e o amor se espalha também, e todo mundo reserva o domingo para criar um mundo um pouquinho mais igual, um pouquinho mais justo, com um pouco mais de buquês, um pouco mais de juras de amor, bufês e música brega. Um pouco mais do outro. Sobretudo, desde o sentido mais profundo de fraternidade até a mais pitoresca construção burguesa, um mundo com um pouco mais de amor, voilà.