Editorial #19

Ilustra Editorial # 19 Diego AmorimA cidade está à venda, só não sabemos para quem, por quanto, nem o que vai ser feito dela. Sabemos, no entanto: não seremos nós os compradores.

 Nas últimas semanas a prefeitura de Porto Alegre assinou contratos milionários para a tão falada e tão conturbada e tão imaginada revitalização de nosso Cais. O consórcio que, em tese, promoverá a obra agora tem mais dois milionários participantes: a Vonpar e a consultoria NSG Capital. O prefeito Fortunati anunciou, com pompas e celebrações, a incorporação de mais dois investidores no projeto. Sem tantas pompas assim também foi dito, em tom discreto, que é pra que não prestemos tanta atenção, que os valores dos negócios não foram revelados. Ainda mais, não sabem, as próprias investidoras, muito menos o prefeito, o que será feito daquele espaço.

Para o presidente da Vonpar, há de ser criada ali uma Disneylândia. A administração da cidade, uma vez mais, capitalizou as áreas que deveriam ser públicas –  dessa vez, no entanto, foi-se além, cometeu-se o abuso de apostar em nossa ignorância, não revelando valores presentes nem futuros, nem projetos ou planos. Não sabemos, nós, cidadãos, o que será feito de nossos espaços. Não sabem eles, os vendedores, se aceitamos essas operações.

Nossa nova luta por essa democracia cambaleante é a transparência. Os usos do dinheiro público têm de ser de nosso conhecimento. Não é o que se passa em Porto Alegre, nem no Brasil. Os salários de alguns estão expostos na rede. Orçamentos e repasses também, em números absolutos, estão lá, a espera de nossa consulta. O problema é que isso não é transparência, nem democracia. Não somos meros curiosos querendo saber quanto ganha alguém. Queremos o direito de fiscalizar os recursos provenientes de nossas lutas cotidianas. No site do Senado é possível ver certos gastos dos parlamentares com suas bolsas gasolinas, bolsas refeições, bolsas ternos – tudo além do salário que recebem. O ex-presidente e hoje senador Fernando Collor tem lá declarado: 15 mil reais de gastos com gasolina em um único mês, 3 mil reais em notas de um mesmo restaurante em uma única semana. Transparência é poder fazermos algo a respeito disso.

Os neologistas a serviço do governo têm trabalhado muito bem. Diversos termos são ditos pelas autoridades a fim da formalidade burocrática, do enaltecimento dos negócios: parcerias público-privadas, sharings, trust funds, ventures, e outras tantas anunciadas em alto e bom som para que encham nossos ouvidos e não entendamos nada. Essas novas palavras escondem de nós os significados que há muito estão bem consolidados. O significado de que todas as coisas são suplantadas pelo infindável poder desse respeitado senhor dinheiro e de seus irmãos lucro, capital, dividendos – palavras velhas, de significados perigosos, mas que poderiam muito bem substituir aquelas listadas acima.

Em um livro chamado “A Doutrina do Choque”, a jornalista canadense Naomi Klein escreveu: “Informação é resistência ao choque. Arme-se.” Naomi escreve sobre coisas bem distintas do que discutimos aqui  –  basicamente, sobre o neoliberalismo e como os Estados (principalmente os Unidos) usam técnicas de violência estatal e estrutural para impor certas medidas que, não fosse o tal “choque”, não seriam aceitas facilmente pela população. Ok, talvez não esteja tão distante assim do nosso assunto. As armas, então, já temos. Mas as balas são poucas e o gatilho é enferrujado.

Nos degladiamos em busca de uma tímida, enfadonha transparência dos números; que teremos de fazer para alcançarmos uma transparência das intenções?

Ilustração: Diego Amorim