Vamos à luta

A edição de verão do Tabaré apresentou uma reportagem no primeiro evento do Jungle Figth em Porto Alegre. Na ocasião os lutadores da Elite Thai massacraram seus oponentes com dois nocautes de Wagner Noronha e Douglas Del Rio.

Nesta semana o Jungle anunciou o próximo evento em Porto Alegre, no dia 06 de abril, com os dois lutadores presentes. Douglas enfrentará o também gaúcho Itamar Rosa. Já Wagner Noronha desafiará o campeão dos pesos moscas Arinaldo Silva em luta valendo o cinturão.

Na edição de dezembro, o mestre da equipe Elite Thai, Márcio Miranda, falou sobre a equipe e o trabalho com os lutadores. Confere a sonora que o Tabaré fez com o Márcio: 

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Sexta-feira, 21 de dezembro de 2012, no Ginásio Osmar Fortes Barcellos (ou Tesourinha) o mundo não acabou e aconteceu o Jungle Belt, a 47ª edição do Jungle Figth. O principal evento de MMA da América Latina pela primeira vez era sediado em Porto Alegre.

Muita gente esperta e estudada acha essas lutinhas o próprio fim do mundo, mas eu não. Eu adoro assistir MMA (mistura de artes marciais) desde que um amigo me apresentou uma luta de um gordo de nome Roy Nelson derrotando um gigante holandês em forma. Aquilo me chamou a atenção para mais um esporte em que o pior, o desacreditado, pode vencer o favorito. Depois, passei a assistir as lutas do heroico e franzino brasileiro Royce Gracie, em que ele derrotava gigantes norte-americanos da luta Greco-romana nas primeiras edições do UFC, criado pelo seu irmão Rorion Gracie. Para os que acham que o UFC é um fenômeno moderno e fruto do imperialismo norte-americano ressalto que foi criado por um brasileiro, um dos inúmeros representantes da família Gracie, que obstinadamente há mais de cinquenta anos tentam provar que o Jiu-Jitsu gracie é a melhor arte marcial do mundo.

Convencida a redação fui lá a trabalho. Um gonzo no Jungle Fight.

Homens e mulheres sarados

Tinha umas oito mil pessoas ali. O impressionante era ver os corpos sarados, tanto de mulheres quanto de homens. Nunca vi gente tão bonita e fisicamente esbelta, nem mesmo nas festas mais pomposas que frequentei nos idos dos meus 15 anos. Mas essa impressão inicial foi se modificando e atenuando ao ver se formar as faixas dos ‘Team’ preenchendo os espaços. As academias, como se fossem torcidas de um clube de futebol, iam enchendo o ginásio de vibração e cores de uma forma que não imaginava.

Assim, me aproximei de um desses grupos, e logo me apontaram o mestre Sombra, faixa preta em Muay Thay e marrom em Jiu-Jitsu, que estava lá com o Team Sombra para apoiar o lutador de Porto Alegre Dimitry Zebroski:

– Como é ter o evento do Jungle Figth aqui em porto alegre, pela primeira vez na cidade?

– O Jungle Fight é um evento muito grande, mas na verdade aqui em Porto Alegre tem vários eventos muito bons. Os grandes atletas do Rio Grande do Sul estão aqui, e vai ser um show pra galera que gosta de assistir.

– Tu acha que o jungle em Porto Alegre vai aumentar o público do esporte?

– Quanto mais eventos tiver, o esporte vai se fundir melhor, com regras, com respeito entre atletas. Acho que a tendência é o público buscar as academias e praticar o Jiu-Jitsu, o boxe…

O rei da Selva

Pouco depois, ainda antes do evento começar, vi um careca conhecido subindo as escadas para ajeitar as câmeras que ficavam lá em cima do ginásio. Era Wallid Ismail, presidente do Jungle Fight, ex-lutador que ficou famoso ao derrotar Royce Gracie numa luta de Jiu-Jitsu. Consegui alcançá-lo e entrevistá-lo brevemente:

– No Rio Grande do Sul as pessoas vão ter que entender, tem duas fases no MMA: antes do Jungle Fight e depois do Jungle chegar no RS, fazendo dois eventos por ano. Dia de chuva, final de ano e tá lotando aqui, tô amarradão – confessou o ex-lutador.

– O Werdum, aqui de Porto Alegre, que foi lançado pelo Jungle e hoje é um dos principais lutadores do mundo, vai tá num reality show da globo, tu acha que isso vai explodir mais ainda o esporte?

– Vai, só alegria. O MMA vai ser o esporte numero 1 do mundo, e também do Brasil.

Impressionante foi acompanhar o evento todo e ver Wallid se mexendo sem parar, arrumando, organizando as coisas. Era um chefe que mais parecia um produtor do evento. Durante as lutas e na agitação toda, reclamou da Júlia, nossa fotógrafa, que fotografava na grade, perto do octógono. Depois, mais calmo, pediu desculpas. O rei da selva trabalhava como um leão para o bom andamento do evento, com o perdão do péssimo trocadilho.

Ih fudeu, Elite Thai apareceu

Dois primos meus também estavam no Tesourinha junto com seus colegas da academia Elite Thai, equipe que teria dois lutadores no evento da noite do fim do mundo. Logo que apareceram meus primos ‘lutadores’, na hora da luta do colega deles, Douglas Del Rio, a imparcialidade do repórter foi para o espaço. Ao ver um deles sentado, nervoso, roendo as unhas, e o outro pulando e agitando na arquibancada, comecei a torcer loucamente pelos atletas da Elite Thai.

Douglas foi o primeiro a nocautear, após uma bela joelhada e um soco que botou pra dormir o adversário ainda de pé.

– Depois de um nocaute desses no Jungle aqui em Porto Alegre, o que tem a dizer?
– Só tenho que agradecer a quem me ajudou, torcer aqui e na TV.
– E como tu projeta a tua carreira agora?
– Eu to procurando mais patrocínio, porque aqui em Porto Alegre é escasso, eu tenho um projeto. Pode ser convertido no imposto, o pessoal pode apoiar mais. Tudo é investimento, tem que ter quem invista.
Na segunda luta, os cânticos da torcida se concretizaram e novamente a Elite Thai apareceu com a vitória de Wágner Noronha, contra um adversário que já o havia derrotado.:
– Qual a sensação de vencer esta revanche e vibrar com o pessoal que veio em peso aqui, o que tu pensou na hora?
– Nem sei, foi muita felicidade. A gente só comemora ali, nem sei o que tava pensando. Depois que caiu a ficha que eu ganhei.
– Há quanto tempo tu treina?
– Treino Jiu-Jitsu há nove anos e MMA há três anos.

Lutadores perdedores

Talvez as melhores impressões que tive no evento não foram com os lutadores vencedores da Elite, e sim ao ver as reações dos lutadores vencidos. Como quando Mauro Chaulet, também de Porto Alegre, perdeu. Eu tava assistindo, casualmente ao lado de sua equipe, a Porão da Luta, junto com outro primo (este não luta). A namorada de Chaulet estava atrás de meu primo no corredor, onde estavam todos sentados. No momento do nocaute ela pulou por cima agilmente e correu em direção ao octógono para ver a condição física de Mauro, que parecia longamente desacordado.  Depois, pelos corredores, tanto Mauro quanto Dimitry (que perdeu por decisão na única luta que foi para os critérios dos juízes contra o americano Sean “Cubby”) foram abraçados, consolados e reanimados enquanto pediam desculpas desoladamente.

Fiquei pensando nas reações que temos, por exemplo, quando perdemos num jogo de futebol ou mesmo na torcida dos jogos dos nossos clubes, quando invariavelmente apelamos para a raiva e a contestação. Aqueles lutadores e as equipes que haviam perdido uma chance de ouro se preocupavam com as reações humanas dos outros. Me lembrei dum adesivo que ficava no meu antigo quarto: “os brutos também amam”.

Quem sabe eles, sim, que amam.

***

Depois disso ainda teve duas disputas de cinturão, o título das categorias. Mas, sinceramente, pouco importa nesta reportagem que Ildemar Marajó e Arinaldo da Silva ganharam os cinturões em suas respectivas categorias. O que importa é ressaltar que, sim, o MMA é um esporte de contato e visivelmente violento. Mas por trás disso, estão lutas profissionais que requerem dignidade, profissionalismo e muito mais coleguismo que diversas profissões. Entre elas, efetivamente, o jornalismo.

As lutas estão nas mais diversas sociedades humanas há milhares de anos e o caráter esportivo e social é louvável. Por trás dos milhões ventilados pelo UFC e seus famosíssimos lutadores, estão personagens com histórias incríveis tentando seguir uma profissão como tantas outras. Para além do gosto pessoal temos que reconhecer as diferentes nuances humanas que em golpes e estratégias buscam, como nós, apenas sobreviver.

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Texto: Chico Guazelli / Fotos: Júlia Schwartz