Alceu Valença: o rock que não é rock

alceu pronta

Com uma inseparável garrafa de água mineral, o mítico músico pernambucano Alceu Valença recebe o Tabaré em um boteco da Cidade Baixa, em Porto Alegre, numa tarde suada de calor. Cumprimenta pessoas, funcionários do bar e, volta e meia, alguém para a entrevista para lhe pedir um autógrafo ou trocar uma ideia. Por mais de duas horas, ouvimos histórias ritmadas de baião, rock, psicodelia e aboios…

Ouve aí o papo que o Alceu teve com o Tabaré e a entrevista publicada na nossa edição de verão:

– Fala! – é o que diz Alceu Valença, um milésimo de segundo depois que os seus fãs nos deixam a sós na mesa do bar, rente à calçada da Lima e Silva, na Cidade Baixa, em Porto Alegre, onde já bebíamos uns chopes, aguardando o pernambucano para a entrevista.

– O público aqui do Rio Grande do Sul gosta muito de ti por esse teu lado rocker… – começamos a conversa, mas Alceu nem espera a pergunta ser formulada.

– Esse lado rocker é muito mais na atitude, no sentido sonoro da atitude, e menos pelo rock. Eu fui fazer o Jazz Festival, nos Estados Unidos, e aí um repórter me falou que tinha ouvido o disco Vivo! e pirado. Aquilo é rock que não é rock, mas é rock! Manjou? É o que não é. Por exemplo, eu canto maracatu, mas eu boto uma guitarra distorcida, então você engole como outra coisa. É um novo som que ninguém faz no mundo. Eu inventei um som.

O disco Espelho Cristalino (1977, terceiro solo de estúdio) é isso, né? Psicodelia e…

Eu vou te mostrar uma coisa – interrompe Alceu, cantarolando uma música do álbum em questão: Um certo dia eu perguntei à Maria / Se hoje é noite de São João… Isso é um baião, porra! Mas o arranjo é rock, muito mais que a essência, que é brazuca total. Uma vez eu dei uma dica para um menino que tinha um grupo de rock: ‘Deixa de ouvir tudo isso agora e começa a ouvir as coisas do Brasil!’. Quando você já tem a referência na cabeça, você vai fazer uma coisa original. O cara que gosta de Led Zeppelin, se ficar ouvindo o tempo todo isso, vai virar um subproduto do Led. Eu nunca ouvi nada. Eu ouço pouquíssima música. Só ouço en passant. Eu não tenho disco, não vi os músicos. Todo mundo fala em Beatles… Eu vi os Beatles agora com o meu filho, que tem 11 anos, e achei uma coisa maravilhosa. Por que eu não ouvi Beatles? Porque quando eu era menino, meu pai não queria que eu fosse artista, porque todos da família dele se formaram, menos os dois que tocavam. Então ele tinha posses, mas nós não tínhamos som. Então me formei em Direito e depois trabalhei como jornalista no Jornal do Brasil.

acordeonguitarra prontoAlceu volta a cantarolar. Desta vez é o forró Cintura Fina, de Luiz Gonzaga.

– Eu ouvi a música que foi a base de Luiz Gonzaga, quando era menino. Porque no Nordeste existe uma cultura secular, que tá morrendo agora, das toadas e dos aboios. Luiz Gonzaga ouviu aquilo e fez o trabalho dele.

– E quando tu chegas com esta loucura toda para o teu produtor?

– Não tenho produtor, eu nunca tive.

– Mas já tentaram te…? – antes que disséssemos a palavra “podar”, Alceu começa a responder.

– Vê, meu primeiro disco, éramos só Geraldinho Azevedo e eu. O produtor era maravilhoso, mas deixava tudo na nossa mão. O segundo produtor adoeceu da perna e deixou o disco no meio. Os arranjos do meu disco sou eu que faço. A linha sonora, as frases musicais, eu vou dizendo como é que eu quero. Aí o terceiro disco foi ao vivo, era a gravação de um show que estava fazendo sucesso. Zé Ramalho era músico da minha banda, tocava viola comigo. Aí vem esse, Espelho Cristalino (1977). No meio da mixagem, o Guto [Graça Mello, produtor] quis botar um efeito na minha voz que o John Lennon tinha usado na música Imagine [Alceu sussurra imitando um sintetizador]. Quando ele botou, eu disse: ‘Tá parecendo com o John Lennon, não quero isso aí!’. ‘Isso é Cooper Time’, ele disse. ‘Cooper Time para o John Lennon, para mim isso é uma bosta!’. Guto arretou-se e foi embora. Aí eu fui para a Europa. Morei em Paris e lá fiz o Saudade de Pernambuco (álbum de 1979). Outra história totalmente diferente. Eu e Paulinho passavámos o dia inteiro em casa tocando, fomos para o estúdio e fizemos o disco. Volto para cá, Coração Bobo (1980). Aí eu botei o produtor para ser sempre um músico meu ou um amigo e não ter que aguentar alguém que não entendia da minha música. Aí, no meu primeiro disco arranjado por Rogério Duprat, esse eu não me meti, só pus as cordas. Mas esse disco inicialmente iria ser arranjado por Hermeto Pascoal. Olha que loucura! E perguntei para Hermeto, ‘Hermeto, você ouve o quê?’. Ele disse ‘Nada, para não me influenciar’. A partir daí, eu que já não ouvia nada…

Gargalhadas.

– E o disco Paêbirú (clássico álbum de Zé Ramalho e Lula Côrtes, famoso pelo fato da maioria das cópias ter se perdido em um alagamento, restando poucos originais em vinil)?

– Paêbirú não tem nada a ver com a minha história. Eu só dei um apoio lá. Eu passava tempos no Recife e um dia eu fui lá no estúdio e dei uns gritos [para usar no Paêbirú]. Eu estava até deitado no chão. Eu não participei.

– O rock tem essa coisa do grito, não?

– Mas o grito não era de rock, não, era de aboio. O grande problema do Brasil é que o Brasil não conhece o Brasil.

– Tu conheces?

– Não, eu não conheço. Eu conheço a minha terra. Eu sou de São Bento do Una (PE), interior do sertão. Eu sou Luiz Gonzaga. Eu sou sertão. Eu sou toada. Eu morei dos 8 anos até os 20 em Recife, então eu também sou frevo, eu sou maracatu. Bem, existem as toadas, meu velho, que são lamentos, e o lamento é blues. Agora, olha só, tem o blues deles e o meu blues. É diferente.

Alceu volta a cantarolar para se fazer entender.

– Andar, andar, nas ruas do Rio, esse é o blues no estilo americano. Agora tem o blues no estilo brasileiro, que é o blues das toadas, que você não sabe, que ninguém sabe. Eu tava cantando em Goiânia / na casa de um amigo / Quando uma mulher mundana pediu pra falar comigo / As lágrimas banhando o rosto / disse tu, tu poetas és / Por favor cante um poema / relativo ao meu dilema / nas portas dos cabarés. Essas toadas, por incrível que pareça, vêm da cantiga das pessoas que colhiam algodão e outras coisas no nordeste do (rio) São Francisco. Chama-se canto de adjunto, isto é, uma pessoa canta e outra responde.

Alceu não resiste e volta a cantar.

– Juazeiro, Juazeiro, não responda, por favor / Juazeiro, velho amigo, onde anda meu amor? / Ai, Juazeiro / Ela ainda não voltou / Ein, Juazeiro, onde anda meu amor? Isso aí é uma música de Luiz Gonzaga, que talvez não seja nem dele, seja uma toada secular.

– A gente criou o blues?

– Não, o blues tem uma similitude sonora com a toada. Eles são um produto da música negra americana, africana, mais a anglicana, onde se cantava nas igrejas. A relação entre a música negra e a igreja católica.

– Ser músico é um trabalho?

– Não, para mim é um prazer. Tão grande que eu pagaria para as pessoas me assistirem.

– Já pagaste?

– Já paguei, sim. Quando fiz show para umas cinco pessoas em Paris. Mas no outro dia saiu a crítica no Le Monde e no La Libération dizendo, ‘Alceu Valença é o sol do inverno parisiense’. Quando aconteceu isso, porra, aí encheu tudo! E eu terminei um dia no Lion Folk Festival e, quando eu vou entrando, um jornalista de televisão perguntou para mim: ‘O que você acha de cantar depois de Joan Baez [ex-mulher de Bob Dylan]?’. Eu disse, ‘Não tem sentido essa pergunta. Ela é uma artista e eu sou um artista, nem eu sou maior do que ela, nem ela é maior do que eu. Vá perguntar a ela o que acha de cantar depois de um desconhecido!’.

– Como é cantar para cinco pessoas?

– Quando eu estou cantando, estou cantando. Pode ser para cinco ou mil, eu não me incomodo com a plateia. Não tenho medo nenhum de plateia. A primeira vez que eu cantei na minha vida para o público foi em São Bento do Una quando eu era pequeno e anos depois eu cantei no Festival Internacional da Canção, de 1979, no Maracanã… zinho. O meu canto é uma interiorização. Eu não quero ser melhor que ninguém, mas ninguém é melhor que eu. Porque eu sou eu. Ninguém manda em mim. Porque eu faço a música que eu quero. Uma música que vem de dentro, do meu coração. Eu deixei tudo para ser artista e ninguém manda em mim. Mandei diretor de gravadora pra puta que o pariu! E por isso que eu andei desaparecido, eu fui um dos primeiros caras a romper com a indústria do disco. À puta que o pariu!

– Tu te consideras único?

– Rapaz, existem artistas únicos, tipo o Mick Jagger, o Rod Stewart. No Rock in Rio (primeiro, em 1985), fui para a plateia e assisti ao show dele. Bom de palco para caralho! Aquela voz rouca, bonita. Eu não tinha o disco dele, mas agora vi no Youtube o Joe Cocker. Para mim é o maior. O rock and roll de lá [Inglaterra] é insuperável. A gente não chegou ao ponto ainda. Se você pegar a atitude rock, o instrumental, e fizer com o teu jeito, misturar a tua brasilidade, aí tudo bem.

industria da musica coco– Como é a indústria do disco? Qual a podridão dela?

– Agora ela morreu! Acabou! Dançou! Viva a internet! Eles queriam me direcionar, mas não tem conversa. Queriam que eu gravasse uma música deles, que prepararam para eu gravar! Porra! Deram para mim uma música chamada Coração Besta [um dos sucessos de Alceu se chama Coração Bobo]. Aí o cara me mandou gravar a música e eu gravei Coração Bobo.

– Coração bobo é diferente de coração besta?

– Melodicamente, sim. E ele estava querendo me ganhar com besta. Mas eu não sou besta, bobo é ele. Eu digo o que eu quero. Eu não suporto jogadas. O artista do entretenimento é um ventríloco do dono dele que tem uma rádio. Isso tá acontecendo dentro desse nosso Brasil. A indústria do entretenimento tá fodendo a música verdadeira.

– Alceu, quando tu sobes no palco, encarnas ou desencarnas?

– Encarno. Personagens que talvez eu crie ou que talvez estejam dentro de mim. Mas não é uma questão espiritualista. É espiritual. É brincar com o menino de 4 anos que foi cantar lá em São Bento do Una e perdeu o concurso. Eu fui cantar e me fudi. Cantei um baião de um cara chamado Capiba.

– Como era esse baião?

– Pernambuco tem uma dança que nenhuma terra tem / Quando a gente cai na dança, não se lembra de ninguém / Será Maracatu? / Não, mas podia ser / Será coco de roda? / Não, mas podia ser / É uma dança que vai, que vem / Remexe com a gente, é frevo meu bem. Cantei. Mas nesse dia, um outro menino, chamado Miguelito, cantava para caralho! Cantou em espanhol e, como sempre o da gente é pior, eu me fudi. Aliás, ele cantava muito bem. Aí, enquanto ele recebia uma caixa de sabonete como prêmio, eu comecei a dar cambalhotas lá no fundo. Entrei dando pulos e a plateia vibrando. Eu não estava nem aí. Talvez seja desde então que esse menino gosta tanto de palco.

A tarde começava a dar sinais de seu fim em Porto Alegre, mas os fãs não. De tanto em tanto, alguém interrompia nosso bate-papo para pedir um autógrafo, uma fotografia, ou simplesmente trocar umas palavras com o pernambucano. Sempre solícito, mas visivelmente cansado das interrupções de pensamento, Alceu, lá pelas tantas, sugeriu que um casal de fãs se sentasse à mesa conosco, evitando os cumprimentos formais e satisfazendo os dois recifenses. Percebendo espaço para interagir, Dênis, o fã, se mete na entrevista e pergunta:

– Por que o improviso é uma arte tão própria? – improvisa o fã.

– O improviso é quando você não tem os meios para fazer a sua coisa. E também é um pulo, um salto imaginativo. Porque quando você está cantando de improviso, você não está seguindo parâmetro nenhum. Você está correndo perigo, e a arte é muito boa para correr perigo. Tem que correr perigo! Tem shows que eu canto uma música, não sei se vou cantar aqui hoje, chamada Juazeiro. Eu dou um agudo tão filho da puta que eu penso: ‘Eu não vou chegar [alcançar a nota]’. Eu não vou chegar, mas eu quero! Aí eu penso, ‘Agora eu vou botar para foder! ‘Auuuuuuu [grita]!’. Chegou! Mas teve dias que não. Então, esse porrete vivo é uma questão do artista. O artista é doido, não pode estar muito ligado na grana.

– Por que Pernambuco é tão visceral?

– Ele foi, não é mais. A indústria do entretenimento está destruindo a cultura de Pernambuco. Os caras que fazem as coisas bacanas estão sendo substituídos pelas bandas dos donos das rádios. Agora a gente tem lá o forró eletrônico, que é uma bosta, mas eles são donos dos veículos, e quem tem um veículo tem uma plataforma.

– Mas e a cultura libertária do frevo?

– Olhe o Brasil o que é…

E Alceu começa a falar com a boca cheia, tornando impossível compreender aquela mistura de petisco de boteco com sotaque genuinamente pernambucano. Resumidamente, o músico argumenta que falta amor do Brasil pelo próprio Brasil.

– Gil disse uma bobagem agora: ‘O Luiz Gonzaga era o Elvis Presley brasileiro’. Luiz Gonzaga cantou antes de Elvis Presley, como é que ele pode ser o Elvis Presley brasileiro? No máximo o oposto. É a mesma coisa que dizer que a fulana é a Madona brasileira.

– Já teve medo de entrar demais em si mesmo e se perder?

– Ah, eu sinto tristeza, às vezes depressões. Sinto. Com relação inclusive à existência. O que eu estou fazendo aqui? Para quê? Claro que me incomoda, me aflige, todo mundo se incomoda.

Já tomaste antidepressivo? – arriscamos, após Alceu confessar que, na noite anterior, no hotel, estava tristíssimo.

– Não, sempre consegui controlar minha tristeza.

– Satanás e Deus existem? – perguntamos ao músico de 66 anos.

– Uma invenção do homem que não sabe explicar sua própria vida. Que não sabe explicar o mistério da vida.

– Tu nunca acreditaste nisso?

Não, mas eu era católico e mordia a hóstia, porque diziam que a hóstia tinha sangue e eu não acreditava. Dei uma mordida e fui falar com minha mãe, com medo dela: ‘Mamãe, tenho que lhe contar uma história’. Eu era pequenininho, estava fazendo a primeira comunhão. Aí ela ficou arretada, porque eu repeti 500 vezes, e ela disse: ‘Desembuche!’. ‘Mamãe, olhe, eu mordi a hóstia e não saiu sangue. Era mentira do padre!’.

– Política te interessa?

– Me interessa, profundamente, sempre me interessou.

– Já fez campanha para alguém?

– Já fiz campanha de Brizola de graça. Sem ganhar nada, ein, velho? Cantei para Gil na época que ele foi candidato a vereador de Salvador (em 1989, quando Gilberto Gil se elegeu pelo PMDB). Quem mais? Apoiei Lula, apoiei dona Dilma.

– E ainda apoia?

– Apoio. Tem muito ‘nego’ que estava no meio, mas fugia das televisões para não se comprometer. Mas em matéria de política eu sou ‘arracionalista’ [pensamos em transcrever como ‘irracional’, mas de tão esquisito, resolvemos preservar]. Eu vou pela responsabilidade que eu tenho com o meu voto. Eu não vou pela cabeça das pessoas. Não vou pela moda.

Texto: Gabriel Jacobsen e Jimmy Azevedo / Ilustração: Frederico Stumpf Demin