Jonas Mekas, agora!

Por Leonardo Bomfim

As Armas das Árvores – Guns of the Trees, 1962 | Still do filme

Difícil encontrar um título que dê conta de uma trajetória inteira como aquele que Jonas Mekas descobriu para sua epifania serena de 288 minutos: As I Was Moving Ahead, Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty. É apenas uma das célebres criações do cineasta lituano radicado nos Estados Unidos que a Sala P.F. Gastal exibe a partir de hoje, em retrospectiva de fôlego que permanece em cartaz até domingo. Os doze capítulos de Ao Caminhar Entrevi Lampejos de Beleza (incrível como os grandes poetas dominam o mistério da linguagem e as traduções nunca escondem a maravilha de suas palavras) apresentam uma multidão de fragmentos que percorrem décadas num inventário visual sobre a própria vida, a relação com os amigos e a paixão por Nova Iorque. De vez em quando, a voz de Mekas, pontuada pelo sotaque peculiar, aparece para dizer coisas como “nada de especial acontecerá” ao mesmo tempo em que vemos uma cartela anunciando que “isto é um filme político”. Não nos enganemos: seu humor, assim como o dos gatos que ele tanto gosta de filmar, é inofensivo só na aparência.

O caso de amor com Nova Iorque é notório desde cedo. Quando tentava mapear o surgimento do novo cinema americano nos anos 1950, antes mesmo de começar a filmar, destacava o fato de que os modernos tinham em comum uma sensibilidade nova-iorquina, em contraste com a típica euforia do mundo dos sonhos hollywoodiano. Deixava claro que os renovadores oficiais do momento – Robert Aldrich, Stanley Kubrick, Arthur Penn, para citar alguns – representavam mais uma continuidade do que outra coisa. A ruptura estava em filmes extremamente baratos e calcados no improviso como Pull My Daisy (1959) de Robert Frank e Alfred Leslie e Sombras (Shadows, 1959), de John Cassavetes. Era ali, inclusive, que o cinema conseguia dialogar com os arrombos mais radicais de outras expressões artísticas que germinaram a partir do pós-guerra.

Mekas comprou briga até mesmo na cena vanguardista. Observava em Maya Deren, cânone eterno do cinema de invenção, uma vertente do classicismo dentro da vanguarda. Questionava a ideia da cineasta de que o artista, “carregado de convicções”, deveria criar a partir de um conceito rigoroso. A resposta de Mekas, escrita no início dos anos 1960, não deixa de ser uma chave para que possamos compreender sua obra: “o novo homem americano, perdido e instável, penetrante, frágil, desfilando em um cenário de incerteza moral, resiste a qualquer tentativa de que o usem de uma maneira pensada, pré-concebida, em qualquer criação que comece com uma clara ideia do que se quer fazer”. O que ele identificava era um pouco a morte de um cinema que visava o controle do mundo, essa vanguarda ainda acorrentada nas experiências dos anos 1920, e o surgimento de outro, mais intuitivo, mais vibrante, que celebrava justamente o estar no mundo, em total sintonia com o que havia de mais relevante naquele período: a literatura beat, os happenings de Allan Kaprow, a musicalidade libertária de John Cage.

Naturalmente, seus primeiros filmes devem muito às pioneiras obras nova-iorquinas que tanto aclamou. As Armas das Árvores (Guns of the Trees, 1962), o primeiro longa, gira em torno de um dos motivos favoritos do underground debutante: filmar com gosto o negro norte-americano – seus dilemas, seus rostos, sua palavras. Em A Prisão (The Brig, 1964), realizado a partir de um espetáculo do The Living Theatre, temos uma aproximação desconcertante entre militarismo e teatro num manifesto contra o corpo enclausurado em que repetição excessiva acaba impondo um caráter abstrato (e absurdo) aos movimentos dos atores.

Aos poucos, Mekas se libertou da obrigação narrativa que ainda rondava os primeiros filmes para encontrar sua forma definitiva: o cinema como um diário, num olhar para si ao mesmo tempo em que se olha o mundo. Nesse sentido, ele é um pouco como Gertrude Stein, embora bem mais generoso (por estar sempre condicionada a uma relação com o outro, a criação cinematográfica é invariavelmente mais generosa do que a literária). O autorretrato é frequente, mas seus filmes revelam, antes de tudo, uma autobiografia de todo mundo. Todos estão lá, muitos anônimos, mas também figuras fundamentais do nosso tempo: Yoko Ono, Andy Warhol, Allen Ginsberg, George Maciunas, John Lennon, Timothy Leary, Stan Brakhage e por aí vai.

Cenas da Vida de Andy Warhol: Amizades e Interseções | Still do filme

Cenas da Vida de Andy Warhol: Amizades e Interseções | Still do filme

Mas é importante deixar claro que Mekas passa longe de um simples documentarista. Sua disposição, afinal, é encontrar a ficção espontânea do mundo. Ou melhor: a fricção, o atrito entre olhares, experiências, criações. Não é por acaso que sua obra-prima Walden (Walden [Diaries, Notes & Sketches], 1969) começa com uma cartela escrita à mão dedicando o filme a Lumière. Mekas faz parte de uma filiação de cineastas iniciada lá no francês que tem como matéria-prima para invenção a ficção que surge naturalmente quando o artista não faz questão de ter o controle do mundo: os movimentos que invadem a imagem sem pedir passagem deixam o cinema sob o signo das incertezas – o que une os dois, no fundo, é um flagrante nietzschianismo (consciente no caso do lituano, espontâneo no caso do francês): estamos muito distantes da vontade de verdade aplicada ao ato de encenar que o cinema glorifica a partir de Méliès.

É esse tipo de beleza que Mekas se dispôs a encontrar em mais de cinquenta anos de cinema. Vemos uma porção de coisas sem importância (como ele mesmo diz), mas depois de vinte, trinta, quarenta minutos na frente daquilo, é impossível desgrudar os olhos. Há um encanto hipnótico naqueles pequenos fragmentos da vida, é como se estivéssemos testemunhando um milagre, mas são os primeiros passos de seu filho, um amigo tomando chá, a esposa banhando-se num córrego. Por vezes, de tão poderosa, a obra de Mekas transcende o cinema e entra no terreno na bruxaria.

Os caminhos radicais que o cineasta arriscou ao longo da vida lhe deram uma aura mítica, mas ao mesmo tempo o colocaram numa estante à parte da história do cinema. É muito cômodo localizar seus textos, suas ideias, saber de fatos relevantes de sua trajetória. O Jonas Mekas teórico, arquivista e agregador é importantíssimo (sem ele, o underground norte-americano seria uma nota de rodapé ainda menor), mas este nunca deixará de pertencer à margem do que realmente importa. É preciso encontrar seu espaço dentro do cinema, descobrir e redescobrir sua obra, saber com quem seus filmes conversam, quem eles mordem. A chance é agora.