Futebol de Empreiteiras e Cartolas

Por Chico Guazzelli

 
Ia escrever esta coluna de esportes sobre MMA, o fenômeno moderno no esporte e no mundo atualmente. Mas a rádio e os jornais me tiraram do sério e do propósito inicial.
Falarei do futebol. Mas não do Kleber ou do Damião. O futebol dos ricos, dos presidentes, das grandes empresas. Na última segunda-feira o ex-presidente do Grêmio Paulo Odone convocou uma estúpida coletiva (um dia depois de uma estúpida exclusiva para a TVCOM, do Grupo RBS) para falar do assunto do momento e, claro, estúpido: a Arena. Este ano é da OAS como no passado já foi da Andrade Gutierrez, a empreiteira responsável pelo novo Beira-Rio.
A teoria de que o futebol está sendo cada vez mais elitizado sempre me pareceu subjetiva. De um lado os grandes clubes profissionais atuam com ingressos caros, camisetas caras e marketing personalizado para as classes altas. Mas do outro existe um imenso universo do esporte que não pode ser limitado a esta fantasia que pertence à CBF, FGF e FiFAs da vida. Este segundo lado sustenta o primeiro. Apesar de tudo.
Mas está cada vez mais difícil suportar o futebol. O futebol das empreiteiras e dos cartolas. Que palavra boa essa: cartolas.
Nesta segunda ouvi do deputado estadual Paulo Odone, do PPS (onde está desde que entrou no partido com o ex-governador Antonio Britto, que inclusive quase se meteu na vida clubística do Grêmio por intermédio de Odone), um desabafo patético aos que ele mesmo chamou de ‘meus torcedores!’. Alguém torce por Paulo Odone? Se tu achas que sim, pare de ler por aqui. Um deputado tem torcedor ou uma responsabilidade com toda a população, inclusive colorados e eleitores do atual presidente do Grêmio Fábio Koff? Em um momento da coletiva ele critica as pessoas ‘da periferia’ (ou seja, os vice-presidentes eleitos da atual administração) por ousarem falar da sua criaturinha linda, a Arena. Periferia? O deputado parece não gostar das periferias, será que isso induziu a escolha do local do majestoso estádio? Lá no Humaitá onde pessoas serão cruelmente desalojadas. Lá na periferia? O comportamento, pelo menos, não é de se surpreender. Um metido a caudilhista, personalista que vibra abraçado ao craque do time na beira do gramado após a vitória dos jogadores. Deixo claro que o deputado é apenas um exemplo de Cartola. Como tantos outros, aliás, que pelo ego se dedicam a este exercício tão conceituado pela mídia esportiva. Odone, campeão da Copa do Brasil de 89 e da segundona em 2005, parece preferir entrar pra história como pai da Arena. O que pode ser uma péssima lembrança no futuro para o deputado em caso de ser efetivado como um mau negócio para o Grêmio. Na mesma entrevista ele fala que a Arena é um ‘orgulho para o torcedor do Grêmio’. Orgulho? Orgulho pelos bilhões envolvidos? Pelas centenas desalojadas? Por transformar um clube de futebol (que querendo ou não é praticamente uma entidade cultural) em um time sem jogador, sem futebol, um time voltado para magnânimos projetos? Um time que quer lucro através de shoppings, vestimentas e Name Rigths (imagina ir a um estádio chamado Bank of China como já se sondou). O orgulho do torcedor deveria ser as vitórias e os grandes jogadores, ou até mesmo a construção de um estádio como o Beira-Rio, através de doações de tijolos de torcedores fanáticos. Mas hoje em dia não é este futebol, ele é realmente cada vez mais para elites.
Antes que se pense que o deputado Odone é o diabo na terra para mim e que o grêmio é o terror do futebol, eu falo que o Inter passa pelos mesmos problemas com empreiteiras e experiências muito similares. Tá tudo igual.
Quando estes são os assuntos do futebol, como não falar de MMA? Mas mesmo assim, com tudo isso contra, ainda acredito no futebol de rua. Os jogos de bola de todos os colégios, de intervalos de obras e de fim de semana que todos nós aprendemos a amar. Ou até mesmo gostaria de falar de Damião e Kleber? Mas enfim, o dia era de Paulo Odone, da OAS e da Arena.

 
PS: resultado do fim de semana acumulou mais uma vitória do time do Tabaré contra os valorosos do Sul 21.