Editorial #20

001-2Proteger o “direito” das crianças de terem um pai e uma mãe foi o argumento usado por pessoas que se posicionaram contra o casamento civil e a adoção por casais homossexuais em uma recente manifestação na França. Faixas e cartazes que reproduziam crenças naturalizantes/biologizantes e religiosas sobre a sexualidade tomaram as ruas de Paris, em uma manifestação aberta do neoconservadorismo que reage ao amadurecimento da sociedade francesa. Uma sociedade que já não se convence diante dos dogmas religiosos e científicos que tentam a todo custo justificar as desigualdades e incutir nas crianças as “verdades” e anseios dos adultos.

Mas, afinal, quem protege as crianças de uma socialização permeada de intolerância e incapacidade de compreensão do Outro? Ninguém as protege da família – nem do conceito político de família e de tudo que vem com ele, nem dos próprios pais. Pais que muitas vezes impõem a ideologia patriarcal e heteronormativa que tanto deve ferir seus filhos no futuro. Costuma ser com a melhor das intenções que eles colocam sobre os ombros dos filhos padrões inatingíveis – eles foram crianças um dia, e ninguém os protegeu.  

Quem protege as crianças da presunção de sua heterossexualidade? Quem garante a auto-estima da criança que crescerá homossexual em uma infância em que lhe foi negada qualquer espaço para expressar sua identidade, qualquer narrativa condizente com sua realidade para se inspirar? Quem abriga os meninos que brincam de casinha com outros meninos no recreio da escola? E as crianças cuja vida escapa à biologia e a genitália, quem fala por elas?

Quem fala pelas meninas, criadas para serem consumidoras desde o momento em que saem do útero? Quem defende a menina de cinco anos levada pela mãe ao salão de beleza para fazer as unhas? E as que sonham em ser princesas – oprimidas por um padrão de beleza impossível de alcançar? Quem defende a menina com o cabelo afro que nunca se vê no rosto da boneca de olhos azuis?

Quem luta contra a assimilação da violência de gênero por parte das crianças? A menina que aprende que o colega de classe puxa suas tranças porque gosta dela – quem vai estender a mão quando ela crescer e continuar acreditando que violência é amor fantasiado? E o menino que vê o pai levantando a voz para a mãe, exigindo o jantar pronto e a casa arrumada – quem roga por seu futuro caráter? Quem o impedirá de se tornar como os outros, de machucar a si mesmo e as mulheres ao seu redor?

Quem defende as meninas, seus corpos e sua identidade erotizadas desde tão cedo, da caixinha onde prendem sua sexualidade? Da punição que as espera se ousarem usar seu corpo de maneira diferente a de um objeto em uma vitrine? Quem garante a elas o direito sobre sua própria sexualidade? Quem as ensina a não temer o próprio corpo, tal qual tão cedo ensinam aos meninos?   

Quem, enfim, protege as crianças das frustrações e idealizações dos adultos? Dos discursos permeados de certezas e carentes de dúvidas? Das vidas repletas de regras e vazias de outras possibilidades? Quem as protege de si mesmas e de seu destino de tornarem-se adultas? Elas – e todos nós, uma vez crianças – pagam o preço caro de serem colocadas em limitantes categorias de gênero, forçadas em uma sexualidade e identidade pré-determinada, para que instituições sociais como o patriarcado e a família nuclear heteroparental possam se manter. Mas quem nos salva das nossas próprias construções culturais? Quem nos salva de nós mesmos? Quem, se não nós, e apenas nós?

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Ilustrações: Clara Farret