O Mercado que derrotou o governo

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A história construída vira pó. Árvores se convertem repentinamente em estorvo e lenha. Ruas se alargam espremendo e expulsando pedestres. Viadutos, monumentos faraônicos ao concreto e à fumaça, se levantam sobre o corpo da cidade. A Prefeitura Municipal redesenha com mão de ferro as feições de um porto não muito alegre.

O cenário bem que parece contemporâneo, por que o é, mas estamos falando da Porto Alegre de 1970, quando severas intervenções urbanas eram impulsionadas pelo governo municipal, encabeçado pelo prefeito Telmo Thompson Flores, membro da ARENA e interventor nomeado pela Ditadura Civil-Militar brasileira. Nesse tempo de poucos votos e muitas botas, as transformações profundas por que passava a cidade poucas vezes eram questionadas publicamente. Essa espécie de apatia se justificava na hegemonia, então esmagadora, de uma visão retrógrada de progressismo, que desconsiderava danos sociais, arquitetônicos, históricos e ecológicos nos planos de modernização da cidade. Também pesava a censura e a repressão extrema impostas pelo governo militar, avesso a qualquer forma de contestação popular.

Grandes estruturas e enormes problemas foram herdados dessa época. Os mártires do urbanismo que se arriscam a caminhar sob ou sobre o Elevado da Conceição conhecem essas mazelas. Também os cidadãos condenados diariamente à lentidão do trânsito, orientado ontem e hoje para favorecer o transporte automotivo individual, conhecem parte do legado de Thompson Flores. A reorganização viária impulsada nos seus anos de gestão pôs abaixo quadras inteiras de arquitetura colonial, eclética e neoclássica, arrancando da vida da cidade grandes porções de memória e beleza. A Primeira Perimetral, menina dos olhos do governo da época, atorou a Cidade Baixa ao meio, destroçando quase que inteiramente a histórica rua Avaí e descaracterizando o traçado do bairro. O hediondo muro da Mauá, que em 40 anos não se mostrou útil sequer uma vez, apartou brutalmente o Centro do imenso Guaíba, transformando a antes nobre avenida costeira em um dos logradouros mais ermos da cidade. Amiga incondicional das empreiteiras, aquela prefeitura dos primeiros anos 70 nos legou uma cidade mais cinza e quadrada, mais veloz e distante, uma espécie de réplica mal-executada de Los Angeles.

O velho Mercado Público, já naquela época centenário, também era visto por Thompson Flores como um empecilho ao progresso de Porto Alegre. Entre os planos apresentados para dar maior velocidade ao trânsito do Centro, estava a conexão entre a rua Siqueira Campos e a Avenida Júlio de Castilhos, parcialmente obstruída pelo então decadente Mercadão, estômago da cidade ou, nas palavras de Thompson Flores, velharia. O anúncio da futura demolição do edifício histórico foi feito em meados de 1971, um ano após a prefeitura extinguir um importante modal de transporte da cidade, o bonde, que tanta nostalgia desperta nos mais antigos porto-alegrenses. A escolha convicta pelo automóvel como meio de transporte preferencial estava dada, e a cidade se adaptava rapidamente a esse novo modelo. Seis foram os anos de mandato do prefeito, e seis foram os viadutos construídos por sua gestão, responsáveis por exaurir as finanças públicas. A imprensa da época exaltava o prefeito-empreiteiro como homem de ação, responsável por despertar a cidade de sua sesta provinciana e por resolver supostos problemas históricos, como o “estrangulamento progressivo das entradas e saídas de veículos do Centro”. As ações do governo municipal eram amplamente divulgadas e defendidas pela publicidade oficial, generosa com os jornais amigos.

Em meio a este ambiente de condescendência generalizada, levantaram-se algumas vozes dissonantes na imprensa, dispostas a evitar a destruição do velho Mercado Central, construído em área aterrada ao Guaíba entre os anos 1864 e 1869. Walter Galvani, então repórter do Correio do Povo, deu início a uma série de reportagens e artigos que seriam veiculados no jornal ao longo de 1972, tendo como tema principal o Mercado, sua história e seu cotidiano. “Cansado de ouvir falar em viadutos”, Galvani arregimentou nomes de peso para sua campanha, mobilizando figuras de destaque na cultura da cidade favoráveis à manutenção do Mercado ou, no mínimo, do histórico edifício. Notáveis como Mario Quintana, Carlos Reverbel, Maurício Rosemblat, Flávio Alcaraz Gomes e Vasco Prado declararam publicamente sua contrariedade ao projeto de demolição e trouxeram o debate à tona. Ney Gastal, outro jornalista do Correio do Povo que se dedicou a relatar a agonia do Mercado, recolheu interessantes opiniões em uma enquete realizada com artistas, políticos e populares em maio 1972. Para o escultor Vasco Prado, a ideia da demolição soava como absurda: “Sou total e completamente favorável à manutenção de uma das poucas coisas que restam da Porto Alegre antiga. Afinal, como diz o Mario Quintana, se demolirem o Mercado, onde vamos meter nossos fantasmas?”. Outra opinião convicta contra a derrubada do edifício foi emitida pelo livreiro Maurício Rosemblat, argentino “com a vantagem de ser porto-alegrense adotivo, por opção”, que defendia a importância da manuntenção “daquilo que é passado autêntico nas cidades, o que elas tem de mais característico, de mais bonito”.

Outras personalidades da cultura porto-alegrense não manifestaram a mesma defesa intransigente do Mercado, como no caso do dramaturgo Dante Barone, para quem a demolição se justificaria “se fosse em benefício do futuro Teatro Municipal da Cidade”, que ocuparia a parcela do terreno não ocupada pelas novas vias. Barone considerava anacrônica a existência de um Mercado Central, justificando que “para isso existem os supermercados” dos bairros, e em seus planos para o local previa inclusive um “belíssimo estacionamento em espiral” sobre a Praça (hoje terminal de ônibus) Parobé. Também Alberto André, presidente da Associação Rio-Grandense de Imprensa, se mostrava favorável à demolição, “em face dos projetos urbanísticos aprovados pelo Plano Diretor”, que previam inclusive um viaduto ao lado do Paço Municipal, o que segundo o jornalista comporia “um contraste bonito. O moderno a ser construído e a prefeitura tradicional”. Ainda mais empenhados em colocar o Mercadão abaixo estavam os políticos da cidade, fossem da ARENA ou do MDB. Destaca-se a opinião do arenista Solano Borges, então presidente da Assembleia Legislativa, que “respondendo a pergunta de seu amável interlocutor [o reportér]”, afirmava ser o Mercado há muitos anos “superado, para uma capital como Porto Alegre”.

Na mesma enquete, os transeuntes do Centro instigados a opinar sobre o destino do Mercado manifestaram-se unanimamente favoráveis à sua preservação. A estudante Susana Machado se mostrava desesperançosa: “É claro que sou contra a demolição! Mas acho que é luta inglória… Não vejo muita esperança que ele continue lá”. Também carregada de melancolia foi a resposta do freguês Guilherme Pienizio, então frequentador do espaço há trinta anos, para quem o Mercado “até tem pinta daquele museu francês, aquele onde está a Monalisa [Louvre]”. Guilherme expressa o sentimento que carregava em relação ao local e termina com um apelo ao prefeito: “sempre me senti bem, sempre me senti gente aqui dentro. Então eu queria pedir aqui no Correio, que o prefeito não deixasse demolir o Mercado. Ele é um pedaço da alma de Porto Alegre. Um pouco de todos nós morreria com ele”.

A cobertura jornalística do então maior veículo do Rio Grande do Sul foi intensa, tornando evidente o descontentamento da maior parte da população e fazendo com que a prefeitura recuasse em sua ideia de destruir o edifício. Em fins de 1972, Telmo Thompson Flores declarou à imprensa que o projeto havia sido abortado. A solução encontrada pelos valorosos engenheiros da Secretaria Municipal de Obras e Viação para conectar a Siqueira Campos com a Júlio de Castilhos, após um ano de impasse, foi uma curva.

Salvou-se o Mercado e com ele a esperança de que a sociedade civil é capaz de intervir na preservação do patrimônio público. Poucos anos depois de garantida a manutenção do edifício (assegurada definitivamente apenas em 1979, com seu tombamento), outro fato entraria para a história da cidade como símbolo desse embate entre a cidadania e o “desenvolvimentismo” promovido por numerosos governos. Em fevereiro de 1975, repercutiu fortemente na imprensa brasileira o caso do estudante Carlos Alberto Dayrell, que ao subir em uma árvore localizada em frente à Faculdade de Direito da UFRGS impediu seu corte iminente. A derrubada da tipuana era, segundo o governo de Thompson Flores, uma exigência da obra do viaduto Imperatriz Leopoldina, uma das seis construções do gênero realizadas em seu mandato. Com a repercussão do caso a prefeitura viu-se obrigada a desistir do corte, o que não impediu a construção do elevado. Outros projetos viários foram abandonados à época, alguns de megalomania e inutilidade gritantes. Cogitou-se, por exemplo, a construção de um túnel na pacata rua General João Manoel, que cortaria a península central cinquenta metros abaixo do leito da rua Duque de Caxias. Extravagantes passarelas “turísticas” próximas à avenida Mauá (que também receberia uma via elevada) e um túnel para pedestres sob a hoje Esquina Democrática também foram deixados de lado.

Mario Quintana, o mais reverenciado poeta da cidade, foi testemunha ocular dessas transformações e converteu em versos seu espanto. Se pudesse andar por nossas ruas nestes tempos de novos viadutos tão milionários quanto duvidosos, de novos alargamentos e demolições, veria uma cidade que segue repetindo seus erros, uma cidade que segue sacrificando sua qualidade de vida no altar automobilístico. Também veria o poeta, se pudesse, um Mercado Público vivo e renovado, e uma cidade, a mesma, e outra, que resiste.

– Pôrto Alegre, onde estão os teus verdes, os teus azuis, os teus crepúsculos?

– O arranha-céu comeu!

– Sei que de dia já não tens mais pássaros e que de noite já não tens mais estrelas.

– Tenho os meus sonhos.

– São sonhos de grandeza. Abandonaste os poetas pelos teus prefeitos.

– Quero ser rica.

– Ah…

Texto e foto: Pepe Martini