Um bispo e um padre entre o céu e o inferno

Todo padre tem um pouco de papa. Sabe-se lá quem disse esta frase pela primeira vez, mas o fato é que a hierarquia é extremamente presente na Igreja Católica Apostólica Romana. Deve ser respeitada tanto quanto os seus dogmas. Mesmo assim, por trás das batinas e cruzes há homens e… mais homens a proferir discursos que ainda exercem grande influência sobre mulheres e homens de mais de um bilhão de cidadãos do mundo. Pois o Rio Grande do Sul ainda é, majoritariamente, católico. O Brasil e a América Latina também. Quase metade da população de diversos países da África Subsaariana, onde milhões morrem anualmente em decorrência da AIDS, é católica. No Oriente, ainda que menos, há católicos.

Porto Alegre. Outono de 2013. Um papa recém pediu demissão para que outro, humildemente argentino, ocupasse seu posto. Na tevê e na internet, o papa é pop. Especula-se livremente sobre o quanto o novo CEO da Igreja Católica mudará o mundo. Entretanto, longe de Roma, sob o calor porto-alegrense, quem distribui as regras do jogo é Dom Dadeus Grings. O arcebispo da Cúria Metropolitana ocupa o cargo máximo da Igreja no Rio Grande do Sul. Já pediu sua aposentadoria há mais de ano, mas o antigo papa pendurou a batina sem assiná-la. Ali, há poucos metros do Palácio Piratini, do Palácio da Justiça e da Assembleia Legislativa, segue administrando a Cúria Metropolitana. Dom Dadeus, 76 anos, nascido em Nova Petrópolis e enviado à Roma aos 18 anos, nos recebe sem pressa em seu escritório. Não fosse o barulho de furadeiras e martelos que restauram o histórico prédio, teríamos conversado nos jardins da Cúria, um delicado espaço de botar inveja em qualquer Edward Mãos-de-Tesoura.

Porto Alegre. Dias depois, ainda quente. Quanto mais o ônibus sobe o Jardim Carvalho, mais negra a cidade vai ficando. No caminho nos deparamos com uma fumaça escura de um carro que incendeia. A Capital vai se apresentando assim com suas mazelas diárias. Já a pé, morro acima, a classe média desaparece para dar lugar a vielas e becos maltratados. Não há perigo. No máximo, uma paróquia e um padre, que ali está há quase 30 anos. Andamos ao lado do padre Rubens dos Santos pelos becos e ele nos conta que sua foto está na casa de muitas das famílias que já batizou ou casou. Aos 74 anos, ex-funcionário público, tem no curriculum vitae duas faculdades: filosofia e teologia, o que é, inclusive, pré-requisito para ser padre. Diferentemente de Dom Dadeus, não participa dos atos políticos e institucionais da Igreja, tampouco se encontra frequentemente com políticos. Sua atividade extra-paróquia é colaborar em um lar para crianças da comunidade. Alto e baixo clero. Ambos reais e palpáveis. Dois lados de uma mesma e pesada moeda que, creem eles, voa nas mãos de Deus.

Dom Dadeus Grings

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O que define se vai para o céu?

O estado de graça. Tem que estar de acordo com o projeto de Deus. Nem o Papa necessariamente vai para o céu. Até Michelangelo colocou um Papa no Inferno, representando seu juízo final.

O senhor retornou de Roma ao Brasil em 1964, um ano fatídico. Como a Igreja se relacionou com a ditadura?

A Igreja tenta não interferir na questão política, mas também é uma grande política. Cristo foi um grande político. Sob o ponto de vista moral, democrático, todos os membros da Igreja também são cidadãos. Nós temos cristãos dos dois lados, é muito difícil. A Igreja não aprova que um padre ou bispo seja candidato à eleição.

Mas durante o processo que o senhor chama de Revolução, de 1964 até 1985, houve diversos setores da Igreja que apoiaram os militares, mas também padres que esconderam perseguidos políticos…

Quando houve esse fato, a Revolução, a situação do mundo estava muito crítica, o comunismo era um espantalho. O comunismo, em seus 70 anos de domínio, matou 110 milhões de pessoas. Então, nós não queríamos no Brasil uma situação dessas. Seria um massacre. O comunismo estava para ser instaurado. Eles tinham um projeto, tentaram primeiro nos grandes países.

Mas João Goulart foi eleito democraticamente. Por que a resposta foi um golpe?

Sim, foi eleito democraticamente… É que o Brizola havia formado grupos de comunistas guerrilheiros prontos para matar. Por exemplo, quando deu a Revolução no Chile, Allende foi morto. O que houve? Quando a gente semeia ódio, colhe tempestade. Os comunistas já tinham uma lista de pessoas para serem mortas, como empresários e membros da Igreja. Não fosse o Pinochet tomar conta, ia ser um banho de sangue.

Mas a ditadura de Pinochet não foi um banho de sangue?

Mas muito menos. Iria haver uma guerra. Quando deu a Revolução, os jornais italianos diziam: “Estão se matando no Brasil”. Não tem sentido, o Brasil é muito mais cordial. Na Igreja Católica nós temos gente de direita, de esquerda e de centro.

O senhor se coloca aonde nisso?

A gente sempre se põe mais no centro.

Existe corrupção dentro da Igreja?

Existe, pois há a parte humana. A Igreja também tem defeitos porque é feita de homens.

A Igreja participou ativamente da fundação do MST. Como o senhor vê essa luta?

Isso aí está fora de época. Todo mundo já quase saiu da terra, é o êxodo rural. Ir de enxada pra roça é um atraso. Por isso se colocava a reforma agrária como o grande pivô da questão. A reforma agrária não foi feita e não precisa mais ser. Dar terra para quem não sabe trabalhar na terra é um dinheiro jogado fora.

Por que Deus não aceita que as mulheres atinjam os mesmos espaços que os homens na Igreja?

Aqui é uma questão teológica. O padre representa Jesus Cristo que foi um homem. Fica muito difícil uma mulher representar Cristo, encarnar Cristo. Tem gente machista na Igreja, mas a Igreja não é machista. Como quando alguém fala contra os homosexuais, dizem que você é homofóbico. Mas então essa pessoa é heterofóbica? A sexualidade humana é muito rica e de uma gama enorme de variedades e de beleza. Por isso homofóbico e heterofóbico não tem sentido, porque cada um de nós tem um pai e uma mãe. E são importantes para nós os dois, até para formação. Como se forma uma família hoje em dia se nós estamos anormais? A sociedade é feita de homem e mulher.

Uma criança criada por um casal homoafetivo vive em uma família anormal?

Sem dúvida nenhuma. Nem é família. Nós somos mais filhos da cultura que da natureza. Então se cria um modo artificial.

Como o senhor se sente ao ver dois homens se beijando?

O problema é quando se faz em público. Aos poucos as resistências se quebram. Mini-saia quando surgiu foi um escândalo. Só que as mulheres honestas sabem aquilo que podem vestir. As não honestas, quando querem atrair, também sabem o que vestir.

Qual é o salário de um padre?

É dois salários mínimos. Ele tem ainda a casa e o veículo da paróquia.

O vinho é parte da missa. Também sabemos que há padres que fumam cigarro. A Igreja também aceita, por exemplo, o consumo de maconha e cocaína?

Toda droga tem efeito colateral, maior ou menor, até os remédios. Até hoje a gente chama de drogaria. A Igreja, nessas questões, não se pronuncia. Claro que a Igreja não é contra tomar um vinho, é bom. Mas todo o excesso faz mal. Por exemplo açúcar, diabético não pode, mas todos nós podemos um pouquinho.

Sobre as denúncias de pedofilia na Igreja. O senhor acha que devem ser levadas à Justiça comum?

Sim. Mas os padres são a categoria que tem o menor índice de pedofilia, proporcionalmente. Tem muito mais médico, advogado e professor pedófilo.

A Igreja já admitiu ter cometido erros. Qual o maior erro, o maior mal que ela fez?

Difícil dizer, pois as pessoas julgam fora de época. Por exemplo, quando me falam da Inquisição como um grande mal. Não foi! A inquisição foi um progresso. Só que os reis, considerados católicos, usaram a Inquisição para fins políticos, para perseguir adversários e matar muita gente. Isso não era Inquisição. Para a Igreja, era como quando alguém falsifica dinheiro, isto é, um crime muito grave. Se você falsifica dinheiro, estragou toda a sociedade. Porque isso prejudica a nação. Na sociedade da Idade Média, a fé era justamente aquilo que dava estabilidade. Atacar a fé, negar a fé, era como falsificar dinheiro. Quem percebesse, tomava as medidas, apedrejava a pessoa em público. Aí a Igreja decidiu fazer os inquéritos, a Inquisição. Como os nossos inquéritos parlamentares de hoje, só que estes normalmente terminam em pizza.

E as inquisições, não terminavam na morte das pessoas?

Não, não… Se alguém negasse, por exemplo, o limbo, tudo bem, porque não se trata de um dogma, mas sim de uma questão teológica. Negar a Trindade, aí sim, isso é grave. A pessoa era chamada e tinha duas hipóteses: abjurar e receber o perdão ou então sustentar e ser castigada. Normalmente eram queimados.

E sobre os equívocos e males, o senhor admite que a Igreja errou?

Indiretamente. O caso de Galileu, por exemplo, foi uma questão popular, nem era da Igreja. Mas ele não foi condenado porque abjurou. A Igreja assumiu esta questão popular, mas é claro que Galileu também teve sua culpa, pois quis argumentar com a Bíblia, e a Bíblia não diz que o Sol é o centro do mundo. A Igreja errou em ter assumido as dores do povo e dos exêgeses quando não precisava.

Padre Rubens dos Santos

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A Igreja teve um papel importante para a consolidação do Golpe de 64. Parte dela se posicionou a favor da ditadura militar?

Não, muito pouco. A Igreja não esperava o golpe, porque até então era uma briga entre militares. E os padres que falavam em comunismo se ralavam. Comunismo aqui no Brasil nem tem jeito. As guerrinhas aqui não funcionaram. Os padres que falavam em comunismo se ralavam, porque eles nem estavam sabendo das coisas. Sabe que entraram muitos padres. Alguns padres prenderam. Quem tirava da cadeia era o Dom Vicente (Scherer), que era Cardeal. Ele entrava no Dops e tirava os padres pela orelha (risos). O Cardeal era fogo. Inclusive ele estava do lado do Brizola, não bombardearam o palácio (Piratini) porque ele estava do lado.

No período das Cruzadas, a Igreja acabou destruindo muitas mecas.

Sim, mas os muçulmanos são terríveis também, né? São mais comunistas que os comunistas.

Como ocorre a relação na comunidade entre os seguidores da igreja católica e os das pentecostais, ou evangélicas?

Aqui no bairro, os pastores vão mais nos colégios. As professoras, inclusive, convidam a eles e a mim. Eles ignoram parte da Bíblia. Deus não ignora ninguém. Nos Conselhos Evangélicos têm três palavrinhas: fé, esperança e caridade. Mas o Evangelho de hoje é o contrário.

Como se trabalha a sexualidade do jovem?

O jovem está sendo vítima da televisão e do computador. Hoje se perdeu a formação. Tinha a formação para o seminário e para o casal. Os sete sacramentos são os sete presentes que Jesus conquistou na cruz. Começa com o batismo e fecha com o matrimônio. E olha as doenças que surgiram com a bagunça do casamento, com os divórcios. Antes não tinha a tal de Aids. O povo tá apavorado. Claro que a Igreja abandonou o povo, quando ela acabou com os Conselhos Evangélicos. A parte sagrada, o povo não recebe hoje. Eu aprendi a exorcizar sal e água.

A Igreja está perdida, então?

Por causa destas bobageiras de libertação (Teoria da Libertação, cuja maior referência é o teólogo Leonardo Boff). Libertou o quê? Jesus já nos libertou de tudo.

Nos anos 60, nós tivemos padres taxados de comunistas por pregarem o evangelho mais próximo aos pobres…

A igreja não é lugar de fazer política, ela não tem partido. Então, os padres que faziam política se ralavam. Um dia no Centro de Pastoral, o pessoal da Juventude Católica estava fazendo um folhetinho e na capa botaram tampas de Coca-Cola represetando botons, no peito dos generais. Eu disse que isso não ia passar. Quando Dom Antônio viu, disse que assim não podia ser publicado.

Quando se lê a passagem de Jesus Cristo se percebe ele muito ligado aos vários problemas sociais da época. A Igreja não tenta se desprender destas questões, ela não se perde por aí?

Jesus já deixou tudo pronto. Tanto que ele continua vindo na Eucaristia. Fez um monte de milagres, mas não convenceu os judeus. Olha a tragédia de Santa Maria! Eu tinha falado na missa, olha as três palavrinhas: ter, poder e prazer. Eles morreram no prazer.

O senhor acha que eles são culpados?

Não, tem muita gente boa ali, que Jesus, por misericórdia, vai salvar.

Não entendemos, qual é a sua explicação para a tragédia na boate?

Todos burgueses. Os pais das vítimas têm tudo fazenda em campo, até hoje. Tinha muita gente descendente da guerra dos Farrapos na boate. Era isso. Quem de nós não tem descendente lá atrás? Eu vim para Porto Alegre com 10 anos e ainda tinha charqueada lá em Santa Maria.

O poder pode trazer muita corrupção, inclusive dentro da Igreja?

A Igreja não é poderosa, mas está em tudo que é canto. Eu não recebo salário de padre, que seria dois salários mínimos e tem muito padre de periferia que também não ganha aposentadoria. Agora, tem político nadando em dinheiro, dinheiro destes miseráveis aqui da vila. Onde está o problema do povo? Na burguesia que está cheia de dinheiro. E, agora, precisou o negrão [ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal] meter o dedo na moleira do mensalão. Este mundo está perdido.

O senhor havia dito que a igreja se perdeu…

Sim, quando parou de investir na formação dos fiéis através dos Conselhos Evangélicos. E, também, porque botaram a mulher a trabalhar.

O senhor é contra mulheres trabalhando?

Não deveria, tem que cuidar da família. Mas este salário mínimo sustenta uma família? Não.

A função da mulher, então, é cuidar da casa, do marido e dos filhos?

No meu tempo era o homem que trazia o dinheiro para casa. Elas educavam os filhos, cuidavam dos filhos.

E a Teoria da Libertação, é apenas teórica?

Teóricos… O Boff é muito bom na escrita, no birô. Agora, passar aqui na vila ele não conseguiria.

Como o senhor vê a relação entre pessoas do mesmo sexo? Elas vão para o Inferno?

Não se pode dizer que alguém vai para o Inferno. A caridade salva, bastou o cara ter feito uma caridade e pronto. Não sou contra, os homossexuais são filhos de Deus.

O senhor defende o uso da camisinha?

Ela não resolve.

A culpa pelas mazelas é exclusivamente dos políticos?

Quem vota nestes malditos projetos? São eles! Nenhum prefeito veio ver o projeto que eu faço com as crianças carentes aqui na vila. Nem o prefeito José Fortunati, que está no poder pela segunda vez.

Padres em comunidades mais ricas têm vida mais confortável?

Uma igreja como a do bairro São João arrecada 30 mil por mês.

O senhor acha que uma igreja em um local nobre da cidade, como a São João, recebe tratamento especial?

Não tem tratamento especial, mas, ao mesmo tempo, tem porque Dom Dadeus está coordenando ali. A São João dá 30 mil e a arquidiocese ainda aluga imóveis para terceiros naquela região. Claro, pois tem dar dinheiro para sustentar o arcebispo. Lá na igreja eles não vão falar nada, porque senão perdem os fregueses. Aqui na minha paróquia, depois de 25 anos, ganhei um ar condicionado de um delegado federal que apreendeu esta porcaria na fronteira.

 Texto: Eduardo Amaral, Gabriel Jacobsen e Jimmy Azevedo / Fotos: Gabriel Jacobsen