A crise como história de amor

Por Anelise De Carli

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Durante o mês de abril, o documentário Occupy Love foi exibido em centenas de lugares públicos ao redor do mundo. Em Porto Alegre, a Praça da Matriz ficou lotada no domingo, 14. Lá, há mais de um ano, o Ocupa POA acampou por mais de quatro meses.

Estrear o filme reunindo pessoas nas ruas já era de se esperar de um cineasta que participou do Occupy Wall Street. Mas o que Velcrow Ripper quer fazer filmando os movimentos populares que ocuparam milhares de cidades desde 2011 é mostrar como a crise pode se transformar numa história de amor.

Respondem essa pergunta os escritores Naomi Klein (Doutrina do Choque), Charles Eisenstein (Sacred Economics) e Rebecca Solnit (Hope in the Dark), a professora zen-budista Roshi Joan Halifax, o reverendo Billy (da Igreja Stop Shopping) e ativistas egípcios, espanhóis e norte-americanos.

A resposta, para Velcrow, para superar uma lógica econômica que financia a dominação e a desigualdade está na expansão dos sentimentos de comunidade, liberdade, empatia e interdependência. Tudo isso, em linhas gerais é o amor.

Revolução para Velcrow é entender que esse amor inclui também o 1% da população benefiado pelo capitalismo monopolista. Pessoas que também sofrem pelo isolamento social e procuram compensações em consumo de luxo.

Occupy Love é o terceiro filme da trilogia Fierce Love, que inicia com Scared Sacred (sobre encontrar esperança nos momentos mais obscuros) e segue com Fierce Light (sobre a relação entre ativismo espiritualidade). Todos estão disponíveis online.

O filme estará disponível online a partir do dia 3 de maio em www.occupylove.com. Veja o trailer aqui.

Velcrow Ripper - Divulgação

Velcrow Ripper – Divulgação

Como você começou a se envolver com a Primavera Árabe, os Indignados e o Movimento Occupy? O que o atraiu?
Eu estava no meio da filmagem do meu terceiro filme, na trilogia Fierce Love – que começou com Scared Sacred, seguido por Fierce Light. Eu já estava seguindo as correntes dos movimentos sociais construídos ao redor do planeta, que eu vejo como uma resposta à profunda crise em nossa economia, ecologia e cultura do consumo. O velho paradigma estava desmoronando e, assim como tantos outros, eu estava faminto por algo novo. Quando os novos movimentos começaram a varrer o globo, eu precisava estar lá, para testemunhar isso por mim mesmo.

Esses eventos mudaram o mundo? Como?
Nós vimos a prova viva de que nós somos muitos, de que queremos mudança, de que nós, as pessoas, querem um mundo de compaixão, sustentabilidade e justiça econômica. Hoje, o entendimento dos problemas da economia neoliberal, do capitalismo de mercado, está muito mais claro graças a esses movimentos. Os problemas do poder que vem de cima para baixo são gritantes. E o fato de que as pessoas se importam o bastante para se levantarem agora é inegável.

Por que você pensa que o amor está por atrás de todos esses atos? Amor é uma maneira de simplificar todas as boas emoções que moveram essas coisas?
Para mim, o amor não é uma emoção. É muito mais profundo que isso. É o tecido da própria criação. É interdependência, conexão. É comunidade. É justiça. Estou falando sobre amor público, não amor romântico que muitas vezes é apego disfarçado de amor. Este amor é profundo, é o amor do qual Martin Luther King Jr. falava, é o amor que fez Gandhi e sua revolução não-violenta efetiva.

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No filme você repetidas vezes quer nos mostrar quando e como você pergunta às pessoas se poderia haver ali uma história de amor. O que você quer fazer as pessoas pensarem quando pergunta isso?
Eu quero que eles vejam o caminho em meio à crise para soluções possíveis. Eu quero surpreendê-los, e que eles me surpreendam. Existem muitas maneiras diferentes de responder, e eu amo todas as respostas – até mesmo das pessoas que simplesmente pensaram que eu era maluco por estar fazendo essa pergunta.

Todas as imagens foram feitas por você? O filme aconteceu com trabalho ou financiamento colaborativo?
Todos os filmes são processos coletivos. Neste caso, porém, foram principalmente eu e meus co-produtores, Nova Ami e Ian MacKenzie quem reunimos as imagens. O filme foi parcialmente financiado colaborativamente usando Kickstarter e Indiegogo – 900 pessoas ajudaram a financiar o filme! E é um filme distribuído comunitariamente – pessoas de todo o mundo estão viabilizando projeções.

Por que você escolher fazer esse tipo de premiere, nas ruas, espontaneamente?
Fiquei tão emocionado quando vi as imagens do Brasil, as projeções ao ar livre no Rio e em Porto Alegre, com mil e quinhentas pessoas nas ruas. Isto estava acontecendo ao redor de todo o mundo e este é, é claro, o espírito dos movimentos populares, o espírito do filme. Nós demos o filme primeiro à comunidade, antes de estreá-lo nos cinemas ou ir para a internet, e isso é bem incomum. Isso é todo o nosso filme.

Como você vê esses movimentos de agora em diante? O que vai continuar e o que vai mudar?
Os movimentos estão recém começando, eles continuam evoluindo. Os nomes podem ter mudado – ok! Nós não precisamos ficar presos a uma marca ou outro. É o que está na raiz que interessa – nossa evolução rumo a uma civilização empática, um mundo que funcione para todos e para toda vida.

Você planeja continuar Segundo movimentos ou fazendo documentários como esse?
Com certeza! Estamos trabalhando numa continuação do Occupy Love, enfocando em soluções paradigmáticas.