Editorial #21

Porto Alegre me dói, não diga a ninguém… Ou quem sabe diz pra todo mundo, que é pra ver se a gente acorda um pouco mais! Bota aí que a minha dor vem das avenidas feias que todos os dias agridem os meus olhos, quando o cinza desnecessário da cidade atravessa a vidraça do ônibus lento, tri lento!, tri caro, tri lotado.

Conta pro judeu do Bom Fim e pro negão da Restinga que esta cidade que a gente tem poderia ser bem outra, se os erros do passado ficassem por lá, se o futuro fosse aqui, se o nosso arroio não fedesse, se o nosso lago não se escondesse. É preciso lembrar e relembrar mil vezes que nada disso é natural, que não estamos condenados a uma cidade feia e excludente, a um shopping a céu aberto que nos separa do nosso vizinho e da nossa identidade, a um feudo programado apenas para funcionar durante as duas semanas do Estado de Exceção da Copa da FIFA.

Na história de Porto Alegre abundam as demolições e os esquecimentos, os desperdícios e os espelhinhos estupidamente comprados. Hoje em dia o poder local semeia o silêncio, sempre que consegue, e a mentira, apenas quando respira. A atual cúpula porto-alegrense derruba árvores e direitos, sob os aplausos da imprensa de sempre, e se diz construtora da Porto Alegre do futuro. Ora bolas, não é esse o mesmíssimo discurso que vimos ao longo do século XX inteiro? Será que os poderosos da província condenam o “passadismo” europeu, que conserva seus edifícios e hábitos centenários, seu patrimônio enfim? Imagino que não, pois é lá que passam férias.

Dois pesos, duas medidas. A cidade que temos é moeda de troca, mercadoria barata para construtoras que financiam campanhas, para políticos que negociam promessas e esperanças do povo, para a máfia do transporte que se alimenta do suor dos arrabaldes!

Dois pesos, duas medidas. Os bons exemplos de urbanismo dos quatro cantos do mundo são ignorados e combatidos, servem como perfeito modelo do que não se faz por aqui.

Convite para um rápido exercício de memória: dá uma olhada nas fotos deste Porto Alegre antigo, nas imagens da cidade sem carros e espigões. Confere a arquitetura colonial hoje praticamente extinta, a neoclássica cada vez mais rara… Será que nesta cidade não caberiam todas as outras que já tivemos?

Que belo sonho quase impossível o de termos uma cidade mais harmônica e bonita, mais atraente para porto-alegrenses e forasteiros, uma cidade humana de velhinhos e crianças na calçada, largas calçadas plenas de árvores.

Que bela aventura viver neste Porto que já quase se levanta, antes tarde do que mais tarde!, dando exemplos de vida e de amor coletivo. Porto Alegre me tem, não leve a mal…

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Ilustração: Bai Balthazar