Enquanto o Tabu não vem

Por Leonardo Bomfim

Onde a terra se acaba e o mar começa, como alguém já definiu, existe um dos cenários mais promissores do cinema contemporâneo. Nem é novidade o lugar cativo de Portugal no mapa da cinefilia – e a aguardada estreia de Tabu, o premiado terceiro longa-metragem de Miguel Gomes, prometida para o próximo mês, apenas reforça o óbvio: já passou a hora do Brasil grudar os olhos nas realizações portuguesas.

Tabu | Still do filme

Tabu | Still do filme

Porto Alegre teve uma ótima oportunidade com a mostra que o Santander Cultural apresentou em abril, exibindo filmes significativos dos últimos anos e algumas novidades abusadas, como Deste Lado da Ressurreição (2011), de Joaquim Sapinho, que gira em torno de uma família em crise e aproxima, com alguns tropeços, dois universos aparentemente estrangeiros; surf e religiosidade

Crise parece ser a palavra certa para definir o estado das coisas do país lusitano escancarado na criação cinematográfica. Dos nomes mais importantes, João Canijo foi representado por seu último filme, Sangue do Meu Sangue (2011), outra obra que mergulha em entranhas familiares. Aqui, uma mãe tenta contornar os diversos problemas que seus filhos trazem para casa: do envolvimento com traficantes ao envolvimento com os homens errados. É um filme de cenas fortes e de rara precisão na construção narrativa. Chama atenção o modo como Canijo constrói situações em que os constantes desgostos dos personagens se misturam – a câmera não escolhe o que vai destacar e o espectador, mesmo às duras penas, precisa entender que aquilo tudo realmente acontece e precisa ser mostrado ao mesmo tempo.

As imagens dos prédios de Lisboa que encerram a história dão a entender que aqueles dramas fazem parte de um contexto atual do país que transcende as experiências individuais. O mal-estar de uma crise que é tão existencial quanto social parece estar em todo filme português contemporâneo, aliás. É o que encontramos, já em outro continente, no inclassificável A Última Vez que Vi Macau (2012), de João Pedro Rodrigues, com co-direção de João Rui Guerra da Mata. A constatação do narrador é cruel: séculos de colonização portuguesa e ninguém entende o idioma no país. Portugal é apenas um fantasma que ainda se arrasta ali, em nomes de ruas, prédios, na arquitetura engolida pelos arranha-céus chineses. Mas a obra lisboeta de Canijo também sugere que o país existe como fantasma em seu próprio território.

Sangue do meu sangue | Still do filme

Sangue do meu sangue | Still do filme

A Última Vez que Vi Macau é um inusitado ensaio autoficcional em que as imagens da ex-colônia portuguesa, algumas extremamente genéricas, são tomadas por uma narração sonora que descobrem uma trama policial envolvendo um travesti em fuga de um misterioso bando chinês comandado pela Madame Lobo. O estranhamento promovido pelo encontro entre a narração fantasiosa e as imagens documentais do país é o trunfo de uma obra que escorrega feio quando opta pelas reminiscências afetivas, num registro próximo aos ensaios mais melancólicos de Wim Wenders. Mas ainda assim, o filme parece muito sintonizado com os ventos do cinema contemporâneo, não apenas portugueses, que pedem pela imaginação como norte criativo, em histórias que se bifurcam, se desdobram, sem precisar recorrer a estruturas labirínticas típicas do cinema moderno pós-1960. Não é mais questão de jogar com o tempo, como ensinou Alain Resnais, mas de jogar com a independência das próprias narrativas.

É aí que encontramos Miguel Gomes. Ao lado do mágico tailandês Apichatpong Weerasethakul, o português é o principal cineasta dos nossos dias a apostar na ideia de que o cinema deve oferecer não apenas filmes imaginativos, mas filmes sobre a imaginação. Seu cinema é de cronópio: já fica claro em seu primeiro longa-metragem, A Cara Que Mereces (2004), que consegue misturar o gosto pelo jogo de um Jacques Rivette, o homem lúdico da Nouvelle Vague, com Branca de Neve e os Sete Anões – numa aura cortaziana que o cinema poucas vezes conseguiu se apropriar.

E agora surge Tabu, filme que causou alvoroço em todos os festivais e mostras por onde passeou. É uma palavra mística da história do cinema, dá nome ao testamento inesperado de F.W. Murnau, que morreu antes mesmo da estréia da obra, em 1931, num acidente de carro. Sempre que alguém a coloca em jogo, os deuses arregalam os olhos e ameaçam sacudir a Terra. No caso de amor proibido entre habitantes de uma ilha dos mares do sul, temos não apenas os últimos suspiros do cinema silencioso, mas também o encontro entre o maestro alemão, o homem da imagem certa, com Robert Flaherty, pioneiro do documentário e também um dos primeiros a perceber que no cinema a mentira pode ser verdadeira. É muita coisa para um filme só – e o mais assustador é que se trata, acima de tudo, de uma obra extremamente simples. Alguns celebram no Tabu de Murnau e Flaherty um encontro precioso entre realidade e ficção, talvez a primeira grande quimera cinematográfica. Tenho lá minhas dúvidas, mas o fato é que o filme dos anos 1930 ainda hoje figura como algo especialmente singular. O Tabu de Gomes, ao que parece, não atravessará a história do cinema sem causar alguma tormenta.