A favor da popularização da música clássica

Por Morena

Muitos ainda pensam nos gênios da música erudita ocidental de forma pomposa e elitizada, aquele senso comum de que este tipo de música é feita pelos e para os ricos. Não é bem assim: a elitização da música clássica é somente uma das formas de enxergar o cenário, quando antigamente esse tipo de manifestação musical era limitado às altas camadas sociais como a nobreza e o clero. Mas cá entre nós, atualmente essa opinião pré-fabricada e nada original sobre a música erudita está um tanto desatualizada e impressionantemente é cada vez mais recorrente.

Para começar, pensemos nos músicos que compunham e executavam aquela música e não somente a quem aquele som se destinava. Mozart, por exemplo, viveu pobre e à mercê do salário da corte até sua morte. Isso mesmo, o gênio intocável do período clássico era um mero mortal e tinha dificuldades financeiras provavelmente mais graves que a maioria de nós hoje. Naqueles tempos (e, para alguns, também no nosso tempo), não era nada pomposo ser músico, que dirá Mozart. A música marginalizada daquela época era então a folclórica, o berço da música popular, deixando todo o glamour e complexidade para a erudita.

Porém me parece que esse tabuleiro virou, e hoje a música marginalizada é a erudita. A música popular tomou conta dos meios de comunicação e do cotidiano e pode ser considerada completamente acessível às criaturas ouvintes. Todos entendem de popular e todos conseguem opinar sobre esse ou aquele estilo com convicção. E que maravilha! O acesso às diferentes sonoridades é abundante e importante. Mas às vezes tenho pressentimentos terríveis quanto ao futuro da música clássica, que permanece intocável e incompreensível para a maioria. Nesse sentido, alguns obstáculos são enfrentados no que diz respeito à acessibilidade deste gênero musical. Em contraponto com o orçamento da instrumentação clássica, que é bem mais custoso que a maioria dos instrumentos populares e folclóricos, o espaço de apreciação da música erudita é bem mais limitado.

Enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira quase perde o apoio da prefeitura do Rio de Janeiro, aqui a OSPA se desdobra para conseguir espaços para os concertos e ensaios. E nesse ritmo, as orquestras se tornam cada vez mais dependentes de acordos políticos e grandes patrocinadores. Não quero entrar no mérito da escassez crônica de trabalho na música, nem no desinteresse mais do que descarado que o governo tem de investir em arte e cultura em geral, as duas questões são tão epidêmicas na música popular quanto na erudita. A reflexão aqui é feita mesmo nos espaços de apreciação deste gênero. O que eu vejo hoje são concertos de altíssima qualidade (e de ingressos com preço amigo) com plateias pequenas, (os concertos mais lotados são os de repertório popular) e os motivos para o desinteresse nesse tipo de espetáculo nunca me convenceram muito bem.

Há quem diga que a música clássica não se reciclou, e que hoje não representa mais a vida contemporânea. Eu acho que isso é uma desculpa para fechar os ouvidos. O papo também de que as pessoas não se identificam com esse tipo de música me soa um tanto ignorante. Em tempos de filmes com altas trilhas sonoras que nos arrepiam no cinema, ouvir música erudita faz parte de todos nós. Aí entramos em uma questão de educação musical, que é escassa no nosso país e que deixa esse aspecto a dever no que diz respeito ao preconceito musical de nós mesmo ainda novinhos. O importante é não esquecer que a música é uma arte e que todos os diferentes tipos de manifestação dessa arte são entrelaçados de alguma forma um ao outro.

Note que ninguém é obrigado a gostar de absolutamente tudo o que ouve, mas ouvir, sem amarras nem preconceitos, é essencial. O que falta, muito na raiz do problema, é a utilização do ouvido em sua totalidade: para ouvir. DE TUDO.

Aproveito essa deixa para desafiar a quem interessar possa a não se sensibilizar com Debussy, não se incomodar com Shöenberg e não dar uma dançadinha com Gershwin.