Perguntas

Por Chico Guazzelli 

Lembro que no Fórum Social Temático realizado aqui em Porto Alegre no ano passado, eu circulava pelos corredores do grandioso prédio do Direito da Ufrgs me preparando para entrevistar Emir Sader para a verão impressa do Tabaré. Foi quando avistei Ignácio Ramonet que acabara de dar uma entrevista para a TV Brasil. Rapidamente puxei o gravador correndo e enquanto pensava em qual pergunta fazer. A cabeça pirava naquele fim de tarde, dum dia cheio em que entrevistei Boaventura de manhã e Ale Menezes e outros jogadores sem clubes no inicio da tarde. Lembrei dos textos de Ramonet no começo da faculdade. Logo convenci-o para a entrevista e liguei o gravador:

– O que o senhor acha da relação do governo Brasileiro com a mídia, comparando com a Argentina e a Venezuela, por exemplo?

A resposta, simples, abalou o pequeno jornalista que espichava o braço para captar o som:

– Do Brasil não sei nada – e saiu sorrindo.

Essa introdução aparentemente esquizofrênica para uma coluna de esportes é um episódio que veio a mim nas ultimas semanas, ao assistir verdadeiros desastres na reportagem esportiva. A hora da pergunta. Na coletiva cheia, a cada pergunta feita o repórter já formula outras perguntas na cabeça. Que julga, assim como eu no caso Ramonet, serem geniais.

Como na ultima pergunta duma coletiva do treinador da seleção brasileira. O repórter se dirige ao gigantesco Felipão e fala: Felipão em caso de um fracasso na copa das confederações o senhor se demitiria do cargo de treinador da seleção? Felipão apenas disse “Piada.” E foi embora.

Realmente, uma piada. Na ultima terça-feira o goleiro do Palmeiras saiu de campo assumindo o frango que tomou e a responsabilidade da derrota e o repórter questionou: o seu futuro no Palmeiras fica comprometido depois desse gol tomado? O goleiro, o vilão do momento, a cabeça atormentada em virtude de um momento de descuido, responde “não. Tu acha? Tenho confiança no meu trabalho.”

Dois momentos horríveis para o jornalismo (e aqui não digo esportivo por não separar o jornalismo e o dito esportivo). A pergunta. Claro que a pressão, a velocidade dos meios de comunicação atuais, tudo isso atormenta os repórteres neste momento sagrado das perguntas. Mas o nível chegado nestes episódios é grotesco. Perguntar para o treinador da seleção brasileira se ele em caso de derrota numa competição que se realizará dois meses adiante, se demitiria do cargo. Será que por algum momento o repórter cogitou vir uma resposta?

Lembro também um caso emblemático do ano passado (ou 2011) quando Barcos ainda jogava no Palmeiras, e o repórter usou sua pergunta na coletiva para saber se o argentino se achava parecido com o Zé Ramalho.  Ou então quando Loco Abreu errou um gol e foram perguntar sobre o lance ser do Inacreditável FC, quadro que os gênios da globo criaram para mostrar e ridicularizar os gols mais perdidos.

O jornalismo esportivo não deixa de ser jornalismo. Os envolvidos são profissionais, apesar de em geral não serem tratados como tais. A especulação, a fofoca, a brincadeira jocosa. Deixem isso de lado, perguntadores! Deixem de lado a manchete sensacionalista e o objetivo da empresa que os paga para terem suas brincadeiras badaladas, deixem de lado o constrangimento, parem de buscar o estrelato. Perguntem. Lembrem que do outro lado está um goleiro, um treinador ou um centroavante. Profissionais. Às vezes bem pagos, às vezes superficiais, às vezes frágeis demais, mas sempre profissionais.

Olhem nos olhos das pessoas. Derrotas, frangos e gols perdidos, todos temos os nossos. Como a pergunta pro Ramonet me ensinou, espero que estes episódios ensinem uma valiosa lição para os envolvidos.