Um agitador de saias

Nesta sexta-feira, dia 17 de maio, se comemora o dia internacional de combate à homofobia. Na sua segunda edição, em junho de 2011, o Tabaré publicou uma entrevista com o cartunista Laerte Coutinho. Confere nosso papo com ele sobre gênero, sexo, identidade e liberdade.

blomu702-07-07

Domingo. Dia das Mães. Já anoiteceu. Esperamos a celebridade do FestiPoa Literária aparecer. Hoje é o encerramento e pretendemos fazer a entrevista antes que a celebração inicie. Aguardamos, aguardamos, aguardamos… “Ei, olha lá, acho que chegou.”

Saiu do taxi com delicadeza. Atravessou a rua com prudência. E, por incrível que pareça, o altar do salto alto mais beatificava do que sensualizava. No entanto, as botas também dificultavam o caminhar e, por isso, os passos eram contidos. Mesmo assim, o ar de elegância era mantido. A roupa discreta ajudava a sustentar um ar moderno e respeitoso: era um xale preto sobre a camiseta listrada, e um vestido preto sobre a meia-calça lilás. Além disso, os quase 60 anos de idade ajudavam a perfumar de austeridade aquela silueta sem curvas graves. De qualquer forma, um pronome de tratamento feminino se adequaria muito bem para chamar-lhe a atenção. Mas, preferimos o nome próprio: “Laerte, com licença…” Foi assim que o famoso cartunista concedeu essa entrevista ao Tabaré, nas dependências da boate Beco, hora antes de começar o evento de encerramento do FestiPoa Literária.

Enquanto entramos no edifício antigo, os olhos esquadrinham os detalhes do entrevistado: brincos nas orelhas, colar no pescoço, unhas coloridas. Aliás, as mãos de unhas pintadas não desenham mais os personagens clássicos: Piratas do Tietê, Overman, Fagundes… A curiosidade aumenta.

O prédio tem dois andares: festa vai se limitar ao andar de cima, por isso, o andar de baixo está fechado. Subimos até o segundo piso. Nas escadas, Laerte Coutinho se refere a si mesmo ora no masculino, ora no feminino. Novamente, surge uma dúvida de como tratá-lo: Senhor? Senhora? Cara? Devemos parabenizá-lo pelo Dia das Mães? Complicado. O melhor é permanecer no nome: Laerte!

Tabaré: Queria começar te perguntando como é o relacionamento com a tua mãe. Ela é viva ainda?

Laerte: É, tá viva. E o relacionamento é ótimo. Minha mãe é uma criatura dotada de um humor que eu considero minha herança (risos), minha melhor herança!

Tu acredita que ela possa ter sido uma inspiração?

Não, uma inspiração não! Eu não acredito em inspiração. Ela foi minha formação. Ela e meu pai, né!? Em casa, sempre se… sempre se leu, sempre se… A banda vai passar som agora? Vai ser foda isso.

Pois é, achei que eles já tinham passado. Dá pra pedir pra abaixar essa música… [um repórter vai falar com a organização do evento].

Se possível… Então, lia-se muito, via-se muita coisa, tivemos acesso desde criança a um material muito farto de produção cultural. Pra mim sempre foi… (começa uma música eletrônica muito alta) De repente a gente sai daqui…

Pois é, desse jeito é impossível. Tu já conhecia essa casa?

Não! Eu só vim a Porto Alegre há, sei lá, vinte anos atrás.

E tu gosta daqui?

Pois é, essa é a primeira vez que eu vim e, de alguma forma, vivi alguns dos encantos da cidade. É muito linda, muito legal, bem gostosa. A dimensão da cidade, principalmente, é uma condição agradável para alguém como eu… (risos). Pra alguém que vem de São Paulo, uma cidade onde tudo é meio intocável. Aqui, você consegue sentir um controle de trajetos, de dimensões, de espaços. Isso é uma sensação muito boa.

E, ao mesmo tempo, não é uma cidade pequena. Porto Alegre tem várias características legais. Eu tô sentindo isso pela primeira vez. Das outras vezes que eu vim, ou tava de passagem, muito rápido, ou tava com algum tipo de distração, não sei. Minha memória não guardou muita coisa das outras visitas. Algumas delas foram a trabalho mesmo, então eu francamente não vi nada. Fiquei num lugar fazendo reunião e trabalhando, depois fui pro aeroporto e voltei.

Laerte, mudando de assunto, o que as roupas representam pra ti?

Roupas? São formas de expressão. São uma maneira com que o ser humano se expressa e se conduz na sociedade. Do meu ponto de vista, as roupas representam a forma mais visível de exercer a expressão de transgeneridade. De furar o bloqueio desse código de gêneros binário: masculino/feminino. Eu tenho achado muito agradável, muito rico, muito alegre. Me deixa com um espírito muito bom experimentar o vestuário feminino.

Mas, não é só o vestuário. É também os modos de expressão, o gestual, o comportamento, o modo de exercer certas coisas. Quer dizer, a essa altura da minha vida, outros comportamentos que fazem parte do código de gênero, eu já quebrei! Eu já demoli há muito tempo. Mas a roupa…

O que tu demoliu?

Ah, não sei… Esse tipo de imbecilidade de que homem gosta de futebol e mulher, de ir às compras. Desse tipo de coisa, eu já me desvencilhei há muito tempo. Mas os códigos de gênero são meio brutais. São coisas que tendem a ser totalizantes, tendem a definir todas as dimensões do comportamento humano. “Homens devem se comportar assim, mulheres assado”. De muitas formas esses códigos são quebrados, mas o vestuário é um assunto especialmente delicado. Pra um homem sair usando roupas femininas, é uma complicação.

Nessa questão da vestimenta, da vaidade… tem uma questão interessante que é o metrossexualismo. Tu veria alguma semelhança entre o metrossexualismo e o crossdressing?

Se você quiser ler dessa forma, não tem problema nenhum. O que me interessa são os momentos e as formas como a rigidez do código de gêneros é quebrada, é rompida.

É uma questão mais política?

É, o que se chama de metrossexualismo – eu nem sei se ainda existe esse tipo de nicho cultural – tava representado pelo uso de alguns cosméticos, de alguns cuidados com a aparência. Mas ele não desafiava os códigos de roupa. Homens continuavam usando essa bosta que é o terno, que é uma prisão (risos).

Eu tenho visto, no século XXI, que os homens têm se tornado mais femininos e as mulheres vêm assumindo algumas características que eram atribuídas ao gênero masculino…

É? Onde cê tá vendo isso? (risos)

Eu sinto isso no meu dia-a-dia… Mas o que tu acha?

Pois é, eu acho que você tem razão de algumas formas. Bem menos do que eu acho que seria necessário a essa altura do campeonato. As mulheres conquistaram o uso de formas de expressão desde o século XIX, tanto de vestuário quanto em postura cultural e agressividade social. Aliás, a luta feminista foi exatamente o que transformou o século XX. O século XX deve os progressos dele principalmente à luta das mulheres. Essa transformação na cara das sociedades é responsabilidade das mulheres, é justamente a presença feminina libertada já de várias… (Piano muito alto)

[Volta o repórter que foi falar com a organização] Olha só, eles vão passar o som daqui a pouco. Mas, a gente pode fazer a entrevista no andar de baixo. 

Vamos?

blomu718-27-10

 

Eu tava falando da mudança de modos femininos e masculinos… Por exemplo: hoje, as meninas passam por processos educacionais relativamente mais livres, mais abertos do que eram antigamente. Mas não de forma disseminada. Em muitas escolas, as mulheres ainda são confinadas a modelos que buscam a eternização da imagem do feminino como algo frágil, como especialmente delicado, sensível, e sei lá mais o quê.  Esse tipo de lorota assim.

Mas, aos homens ainda ficam reservadas as áreas da agressividade, da expansão física. Ainda é um modelo muito praticado. O ódio com que muitos grupos sociais se expressam em relação à transgeneridade, à travestilidade e à homossexualidade também é sinal de que as coisas não estão tão mudadas assim. O ódio e a liberdade com que essas agressões são praticadas no Brasil é bastante impressionante.

Mas há uma tolerância bem maior também.

E uma agressividade bem maior também. Essa tolerância maior é acompanhada do crescimento de grupos de skinheads, por exemplo.

Existem mudanças. Dá pra falar em avanços. Por exemplo, a recente aprovação desse novo estágio civil da união homoafetiva. É um avanço, não dá pra dizer que não é. É o reconhecimento de que isso não é um crime (risos). Não é uma perversão, ufa! (risos) Já é alguma coisa, mas até você reconhecer que são seres normais que devem gozar dos mesmos direitos que os outros, é um longo caminho. O que precisa é que os direitos sejam absolutamente idênticos. Que as pessoas possam se casar independente do sexo. Por outro lado, esses avanços também indicam o quanto há ainda para ser feito.

Tu comentou que o crossdressing é uma questão de gênero e não de sexo. Queria que tu explicasse isso.

Sexo biológico é aquele que a gente nasce: macho, fêmea ou situações fronteiriças. Mas basicamente, machos e fêmeas. Gênero são códigos culturalmente estabelecidos de comportamento, de vestuário, de padrões de desempenho para os indivíduos conforme o sexo biológico que eles tenham. São coisas culturalmente estabelecidas. Sociedades diferentes elaboram códigos diferentes para o homem e para a mulher. Isso é gênero.

Mas, em todas as épocas e em todas as sociedades, sempre houve o comportamento transgênero, que é a inconformidade com os códigos vigentes naquela sociedade. Isso é transgeneridade.

 É aí que tu te enquadra?

É aí que eu e todas as travestis do mundo nos enquadramos (risos), junto com todas pessoas que desejam muito praticar a travestilidade, mas não fazem por medo de perder seus empregos, seus amigos, seus parentes, o amor do seu círculo social. A quantidade de enrustidos e enrustidas é muito grande. A experiência de me travestir tem me mostrado uma ansiedade muito grande das pessoas, que, no meu entender, traduz uma grande vontade reprimida de exercer esse poder, essa liberdade da travestilidade.

É comum tu ver um menino se vestindo com roupas femininas quando é criança.

Sim, e também é comum levar uns tapas por causa disso.

Gostaria que tu desse um exemplo de coisas práticas que mudaram, e que tu acha que foram valiosas, com a travestilidade.

Mudou o meu contato com as pessoas, de forma geral. Pelo menos os primeiros contatos são diferenciados. Existe uma inquietação: em alguns casos, ela evolui pra retomada da normalidade. Em outros, não: é um estranhamento que continua.

Uma experiência positiva é o contato que tenho tido com pessoas que também têm vontade de se travestir e se sentem autorizadas a tentar. De minha parte, eu me sinto melhor. Me sinto mais livre, mais autêntico. Não sei que tipo de palavra usar, mas eu me sinto mais perto de algo que é eu mesmo.

Ajudou o personagem Hugo também?

Pois é, o Hugo é uma espécie de balão de ensaio, um modo de refletir também. Eu tenho mantido ele como personagem ativo porque é uma forma de eu pensar nesse assunto. Eu não faço mais personagens. Fora o Hugo e uma personagem que é a Lola, a andorinha, eu não tenho mais usado nenhum personagem. Tenho feito as histórias, deixo os personagens existirem dentro das situações e pronto. Basta. Quando elas se encerram, muda o time também.

Eu não tenho mais aqueles personagens que eu tinha. E estou procurando não desenhar mais daquela forma caricatural que eu desenhava, nem construir piadas da forma como eu construía. De certa maneira, eu tô recuperando as minhas tradições gráficas da adolescência. Modos de trabalhar que eu tinha deixado de lado em nome do exercício profissional de humorista.

O crossdressing significou uma libertação artística também?

Não sei se “significou” alguma coisa. Colocar nos termos de causa e efeito é complicado pra mim. Eu sei que tá vinculado. É todo um procedimento, uma travessia que eu tô fazendo. Me travestir tem a ver com isso.

Vocês falaram em crossdressing. Não sei… Eu tenho uma certa implicância com essa palavra (risos).

O que tu prefere?

Travesti.

Tu acredita que cada indivíduo traga dentro de si um lado masculino e outro feminino?

É evidente que sim! (risos) Claro que tem.  Mas, é como eu disse, masculino e feminino são conceitos culturais.

Como tu administra isso dentro de ti?

Eu tenho administrado procurando descobrir o que tem sido esses limites e rompê-los, explorando a linguagem feminina. Eu tô, de certa forma, fazendo uma auto-oficina com o vestuário.

É uma questão de auto-conhecimento?

É, também. Não sei se chega a ser de auto-conhecimento. Eu tenho usado isso pra refletir sobre o que é masculino e feminino. A princípio, sim, eu acho que cada um tem isso dentro de si, mesmo porque não é algo que exista. Isso foi criado. Como é algo que foi criado, não existe em estado puro (risos).

O que distingue homens e mulheres, se é que existe tanta coisa assim, são certas características biológicas. O resto é prática, prática social. E a sociedade muda, só que muitas vezes mantém de forma reacionária certos bolsões… Não sei, aquilo acaba sendo uma espécie de ponto de honra: “Não! Homem de saia, jamais! Batom ok, mas saia jamais!” ou “saia tudo bem, mas batom não!”.

Você falou dos metrossexuais, mas é um termo absolutamente infeliz, porque ele procura vincular sexualidade a exercício de gênero. E isso é falso pra mim. Gênero é uma coisa, sexualidade é outra. Então, como eu tava falando, sexo biológico é macho e fêmea; orientação sexual é pra onde o desejo da pessoa aponta: pra homens, pra mulheres, pros dois, enfim; e gênero é outra coisa.

O fato de tu te travestir não afeta em nada a sexualidade.

Não é necessário que afete. Deve ser entendido como um exercício de expressão. Pode se conectar ou se flexionar também com orientação sexual. Eu sou bissexual, mas eu poderia ser bissexual vestindo qualquer roupa.

Até porque na hora não se usa roupa, né?

É! Não a de pano…

Era uma coisa que tu já trazia dentro de ti, a vontade de se expressar de uma forma feminina?

Eu acho que sim. Não é uma coisa muito clara pra mim, mas desconfio que sim. De alguma forma, tava lá, desde a minha infância e a minha adolescência, a vontade de frequentar o mundo das meninas.

E tu tem claro dentro de ti por que…

Não! Nem precisa terminar a pergunta. Não tenho claro isso. Eu só sei o que não é pra ser feito: bloquear. O que eu não quero é continuar bloqueando essas coisas.

Mas não tem alguma ideia de porque isso se expressou agora, depois de uma certa idade?

Eu suponho que é porque eu já tava me sentido livre e desimpedida daquilo que me tolhia (risos).

E o que tava te tolhendo?

Provavelmente, as mesmas coisas que bloqueiam milhares de pessoas pelo mundo afora: sentimentos de inadequação, o medo do ridículo, o medo de si própria, o medo do que pode ser liberado junto com essa novidade… o medo da liberdade, né? “Ok. E agora que eu sou livre, como hei de me compreender?”.

blomu721-17-11

Texto: Ariel Fagundes e Marcus Pereira / Ilustrações: Laerte