A visitante francesa e o gênio sul-coreano

Por Leonardo Bomfim

Na última década, o cinema asiático – essa denominação desastrada que reúne obras de países culturalmente bem distintos – aparecia como a coqueluche da cinefilia. Lá estavam praticamente todos os grandes autores contemporâneos, os filmes desafiadores; enfim, as obras-primas de nossos dias. Mas de uns anos pra cá a coisa parece ter murchado. Dos principais nomes, boa parte não lança uma obra importante (ou sequer lança algo) há um tempo considerável. Hou Hsiao-hsien, Tsai Ming-liang, Wong Kar-wai, e até mesmo alguns mais novatos como Jia Zhang-ke, já são cineastas que começamos a buscar no retrovisor.

Na direção contrária, aparece Hong Sang-soo. Enquanto os holofotes estavam virados para outros realizadores, o sul-coreano trilhava um caminho discreto, amontoando filmes elogiados, mas que raramente despertavam a mesma euforia de um Apichatpong Weerasethakul ou de um Jia Zhang-Ke: são quatorze longas-metragens desde 1996, algo que já o coloca num espaço particular dentro do vagaroso sistema de produção do cinema atual, mesmo entre os independentes. O fato é que Hong Sang-soo, fingindo fazer sempre o mesmo filme, chega a uma maturidade impressionante em suas obras mais recentes – temos o prazer de testemunhar o ápice de uma trajetória com a estreia de A Visitante Francesa (2012), que entra em cartaz agora nas salas porto-alegrenses. A definição do crítico Cesar Zamberlan, em texto para a revista Interlúdio, introduz seu universo com admirável precisão: “Hong Sang-soo nos faz acreditar que fazer um filme é a coisa mais fácil do mundo”.

A visitante francesa | Still do filme

A visitante francesa | Still do filme

Praticamente todos os seus filmes versam sobre homens que alternam momentos de bebedeira com casos amorosos atrapalhados. Alguns são cineastas ou se relacionam com cineastas, mas o cinema nunca é a pauta principal: estamos léguas distantes do que conhecemos por metalinguagem ou de um cinema que está interessado apenas em alimentar o seu ego. Há comentários preciosos soltos em alguns filmes, como o do cineasta sabatinado em Oki’s Movie (2010) que defende a ideia de que uma obra não deve começar com um tema, pois acabará sempre presa a ele; ou o de outro personagem em A Visitante Francesa que, questionado sobre o fato de não saber o que deseja filmar, responde que exatamente por isso deseja filmar. O desconcertante é que tudo – e são lições fundamentais do cinema moderno que os contemporâneos ainda precisam ouvir – é dito por homens banais, até certo ponto patéticos. O cinema aparece sempre pelas beiradas nas obras, algo que ajuda a falsear o aspecto simplório de sua filmografia.

É aí que mora o perigo e seus últimos filmes deixam isso bem claro: Hong Sang-soo é lobo em pele de cordeiro. Se num primeiro olhar tudo parece muito vago, um mergulho mais profundo revela uma sofisticação imensurável, especialmente nas fissuras narrativas que acolhem suas obras desde o início dos anos 2000. São raros os cineastas, por exemplo, que têm a coragem de retomar a trama espelhada do filme-fetiche do cinema moderno, Um Corpo Que Cai (1958), como o sul-coreano faz num de seus rebentos mais celebrados, Conto de Cinema (2005).

Hahaha (2010), filme que passou voando pelo circuito porto-alegrense há dois meses, é um exemplar perfeito dessa falsa simplicidade. Tem um ponto de partida corriqueiro: dois amigos se encontram e, entre copos e mais copos, recordam histórias que vivenciaram numa mesma cidadezinha. Aos poucos, percebemos que as histórias dos dois estão sempre muito próximas, envolvem as mesmas pessoas, os mesmos lugares e os mesmos dias. Eles não sabem que suas memórias se beliscam, mas nós sabemos e com isso temos a chance de construir nossa própria narrativa a partir dos fragmentos revelados pela dupla. De certa forma, o convite que Hong Sang-soo faz ao espectador, aqui, é inverso ao do cinema moderno: o que começa múltiplo vai se tornando singular ao longo do filme.

Mas é em A Visitante Francesa, onde Isabelle Huppert tem um dos momentos gloriosos de sua trajetória (o que não é pouca coisa), que os jogos narrativos são elevados a um patamar assombroso. O filme é costurado a partir de três roteiros que uma jovem sul-coreana esboça para passar o tempo enquanto não recebe notícias de um tio procurado pela polícia. Em todos, conhecemos uma francesa chamada Anne com diferentes motivações para sua estadia em um nada atraente balneário do país asiático: há uma cineasta de férias; uma mulher infiel atrás de seu amante, um famoso realizador sul-coreano; e uma esposa traída querendo relaxar. Dessa vez, entre repetições e diferenças, Hong Sang-soo consegue realizar um filme que é ao mesmo tempo um e três. O cineasta opera quase um milagre ao dividir claramente as histórias, com desfechos bem identificáveis, e continuar praticamente todos os pormenores expostos nas narrativas, especialmente a relação entre os homens e as mulheres. Podemos tranquilamente pensar nos encontros entre a francesa e um salva-vidas atrapalhado com quem ela flerta nos três roteiros, como uma trama à parte ali – até porque há realmente uma evolução na atração entre eles que transcende as diferentes premissas, culminando numa elipse extraordinária no último episódio. Nesse contexto, o cineasta ainda se diverte com a falta de rigor de sua criação, colocando um sonho dentro de um sonho (sem que haja qualquer parentesco com as travessuras buñuelianas), ou então fazendo com que um guarda-chuva perdido na segunda história seja encontrado apenas na terceira.

Hong Sang-soo é o tipo de cineasta que bate na porta de Borges como quem prepara um café da manhã: as veredas que se bifurcam, aqui, parecem ruas inofensivas. Mas não são. O que fica manifesto em seus filmes é que a imaginação pode ser representada do lado de cá, como um evento prosaico, sem perder a invenção, o dom de surpreender. E dessa forma, o sul-coreano consegue traduzir em filmes com charme retrô, uma sensibilidade contemporânea no modo como as histórias são articuladas, incluindo a contribuição do virtual (ou seja, do que pode vir a ser), da fragmentação espontânea, da simultaneidade das múltiplas narrativas, para o processo criativo. Como quem não quer nada, Hong Sang-soo faz os filmes mais importantes sobre o ato de contar histórias em nosso tempo.