O mito do Minotauro

Por Chico Guazzelli
“Puta que Pariu! Puta que pariu!”, gritou desesperado o braço estralado de Antônio Minotauro Nogueira. Foi a segunda derrota por finalização na carreira do monstro mitológico do MMA e do Jiu Jitsu. Também foi a segunda finalização sofrida nas últimas 3 lutas. O baiano de 37 anos se distanciou da busca pelo cinturão do UFC (agora devem saber do que estou falando depois destas letras mágicas) e pôs em cheque o seu nível atual bem como o fim de sua carreira.
Essa coluna chega com um delay. A luta foi sábado passado e hoje só querem saber do Adriano no Inter ou do Luxemburgo. Mas nós temos essa mania aqui no Tabaré. É isso ai. Desconstruindo os critérios de noticiabilidade e temporalidade.
Nunca fui torcedor de Minotauro. Nunca sentei para ver uma luta apreensivo e tenso, como sento nas lutas de Shogun, Werdum e Roy Nelson, por exemplo. Uma questão de pura identificação, coisa linda dos esportes essa mania da gente sofrer e vibrar pela vida dos outros. Enfim coisa de torcedor. Mas isso nunca me impediu de perceber a glória e a importância da carreira e da personalidade de Minota.
Minotauro era um dos nomes que eu conhecia muito antes de sonhar em virar um fã de lutas. Campeão do extinto Pride ( célebre evento de lutas do Japão) e campeão interino no UFC, criou um legado no esporte muito antes de sua massificação e Globalização. Depois de sábado o mundo das lutas no Brasil entrou numa espécie de trauma e desencanto. Mas o choque da derrota para o porto-alegrense Fabricio Werdum deveria existir? Afora a tristeza e a frustração da derrota, ainda mais sofrida em um golpe de jiu, existe para Minotauro e seus fãs razão para o desespero da derrota? Não.
Minotauro é grande, imenso. Criou sua vida a base da superação, adoram dizer isso os entendidos. Atropelado por um caminhão quando criança é para mim uma metáfora da vida. Porque a vida pode ser assim: pode ser levar uma surra de um gigante por 15 minutos e tu dar uma chave de braço nele, como ele fez com Bob Sapp. Ou tu levar um knockdown como se fosse das pernas de Mirko Cro Cop e resistir aplicando uma chave de braço no round seguinte. É dor e alegria. Não só dor, não só alegria.
Minotauro viveu. E sua maior contribuição é o enorme respeito que conquistou tanto nos especialistas, colegas, como nos alunos e nos iniciantes. Não foi Anderson Silva ou Royce Gracie, não foi o maior. Mas não precisou de mídia, bajulações, acordos e relações. Sábado passado torci pro Werdum, principalmente porque sabia que uma luta não significa a carreira jogada fora. E Minotauro tem que parar quando o corpo e a mente não aguentarem mais viagens, treinos e todas as privações. Não por causa de uma derrota. O esporte é feito delas, por isso é tão bom, a gente vê que as nossas derrotas na vida podem ser apenas um numero no nosso cartel, como a carreira do Minotauro.