A quadrilha de um menino só

Por Letícia Zenevich

Não sei bem se é ético trazer essa história a público, só que, a contar pelos últimos dias, não sou a única bem confusa com o que é ético ou não. Então, para narrá-la, mas preservar a intimidade dessa criança, vou chamá-la de Brasil.

Brasil é jovem, menino de quinze anos, sorriso de moleque de dez.

Não, isso é mentira.

Não vi o Brasil sorrir. Não tinha como.

Verdade seja dita, não vi o que aconteceu com o Brasil, e pudera, o próprio Brasil não sabe direito o que aconteceu com ele.

Recomeço:

***

Na segunda-feira, Brasil acordou como todos os dias. Cumpriu sua rotina: pegou o ônibus lotado e caro para a escola lotada e ruim, voltou para casa, almoçou, fez seja lá o que o Brasil faz nas suas tardes de menino e, à tardinha, foi para a academia. Normal, o Brasil ama esportes.

Quando o Brasil saiu da academia, lá pelas sete ou oito da noite, as ruas a que o menino Brasil estava acostumado estavam completamente diferentes. Pessoas corriam, gritavam, gritavam coisas que o Brasil não entendia, coisas que ele nunca tinha visto antes. A coisa, seja lá o que fosse, era grande demais para o Brasil, que só via tanta gente junta assim na fila do ônibus ou no estádio de futebol. O Brasil, jovem que é, não sabia o que estava acontecendo, e parou para olhar. Ficou ali, observando cada movimento, entre o medo e o encantamento que aquela coisa tão nova e forte lhe trazia.

Os gritos de ordens que o Brasil ouvia faziam sentido, embora ele nunca os tivesse pensado antes. De qualquer maneira, ia ser difícil chegar em casa com toda aquela gente nas ruas, então o menino Brasil resolveu esperar para ver o que ia acontecer.

Teria sido impossível, no entanto, esperar pelo que veio.

Do nada, sem nenhum aviso, explicação ou legalidade, um policial puxou violentamente o menino Brasil, e o enfiou às forças em um camburão. Sem entender nada, sem ter feito nada, o Brasil fora detido pela Brigada Militar. O Brasil apanhou. O Brasil foi humilhado, xingado, foi levado a esmo por horas dentro de um camburão por quem deveria resguardá-lo.

Finalmente, horas depois, exausto, faminto, assustado, o Brasil chegou na delegacia de menores selecionados pelo sistema penal, a DECA. De supetão, o Brasil estava sendo acusado de queimar lixeiras, quebrar vitrines, atear fogo em um ônibus e formar quadrilha. Seus supostos feitos tinham pinta de ação de vilão requintado e poderoso de revista de super-heróis. Ninguém poderia ter feito tudo isso em uma noite, quem dirá no tempo recorde de alguns minutos. Algumas das ações pelas quais o Brasil fora acusado ocorreram depois dele estar dentro do camburão. A única lógica possível era de que toda aquela violência, oras, tivesse sido causada pelas pessoas que conduziram o Brasil no camburão. Era o único jeito dele ter estado presente nelas, detido lá dentro.

O menino Brasil estava sozinho. A única quadrilha que ele poderia ter formado seria com os policiais militares que o detinham. Só assim as acusações fariam algum sentido. Não foi isso que o juiz achou.

Na audiência, o Brasil mostrou que não sabia que protestos eram aqueles, que estava começando a olhá-los quando foi detido. Que o Brasil não tinha nada a ver com as ações violentas, era somente sua vítima. Que a formação de quadrilha era um absurdo completo, como toda a sua detenção vinha sendo. A única formação do Brasil era ensino médio, e ainda incompleto. Que o Brasil estivera, todo esse tempo, sozinho, sendo violentado por todos aqueles que juraram protegê-lo.

Talvez a história fosse um pouco diferente, como foram ligeiramente a dos outros garotxs detidxs, se o Brasil não fosse negro. Ele foi o único acusado de formação de quadrilha entre xs jovens detidxs. Ele, sua inocência e sua cor, juntos, cometendo o pior crime que os abusadores institucionais poderiam esperar do Brasil: aprendendo na rua a transformá-lo.

***

Queria que essa história fosse ficcional. Não é. Brasil é um menino negro real, que foi detido voltando da academia por ter parado para olhar a manifestação. Então queria, no mínimo, que essa história falasse do passado, mas foi ontem, é hoje. Queria que o meu tempo não fosse curto, que pudesse escrevê-la melhor, com a mesma emoção que eu senti ao ouvi-la pelos assessores jurídicos que estavam junto com ele, mas esse é o melhor que consigo agora, ainda amedrontada com essa violência brutal utilizada sem medidas, sem justificativas e sem fim contra o Brasil.