Inútil Paisagem

Por Bruno Rodrigues

Literatura é inútil. Lamento informar. A última vez que teve utilidade foi no século XIX, servindo como material simbólico para a formação das nações modernas, principalmente aqui nas periferias. Alencar, Sarmiento, Altamirano, Salaverry etc. Foi nessa época também que os autores e os intelectuais começaram a perder sua importância pública. J’accuse jamais se repetiria. Foram substituídos pelos cientistas sem formação humanística (havia leitores de Spinoza no grupo que gerou o projeto Manhattan?), pelos doutores especializados. Qual foi a utilidade da literatura no século XX? As lógicas de mercado e publicitária impuseram seus ritmos. Os genocídios se modernizaram. Os estados totalitários triunfaram. Adorno disse coisas tristes. O que podem contra isso Ulysses, À la recherche du temps perdu ou Der Mann ohne Eigenschaften? Representar é o suficiente?
Há um clamor por utilidade e praticidade. São as bases do processo capitalista estadunidense e chinês, os quais começaram a dominar o cenário mundial a partir de 1945. Claro que ocorrem violações em relação ao direito dos trabalhadores, falta de políticas funcionais para a preservação do meio ambiente, entre mil outras coisas. Mas o importante é que as economias crescem, o PIB aumenta. Claro que ocorrem invasões e guerras sem sentido, mortes de inocentes. Claro que muitas nações periféricas não conseguem seguir com plenitude o processo estabelecido por conta de suas complexidades particulares (e aqui estamos nós, a Índia, a Rússia). A literatura não é útil nem prática.
Para começar, ninguém sabe o que é literatura. Não existe consenso sobre onde ela começa e termina. O que se sabe é que o termo “literatura” tem sido usado desde o século XVIII e que ele substituiu um outro, belles lettres. Isso na França, claro. Com o tempo, cada crítico e teórico acaba desenvolvendo uma visão própria do que é o objeto. Para mim, por exemplo, literatura é qualquer coisa que possua uma narrativa e um centro estético. Las Meninas, de Velázquez, ou No. 5, de Pollock, são grandes trabalhos literários e eu posso analisá-los perfeitamente utilizando ferramentas críticas da literatura. O fato, porém, de não haver uma definição clara e geral é algo perturbador para quem vê de fora. É possível trabalhar e dedicar tua vida para algo que tu desconhece o que é? (Sim, é!). A literatura contraria a lógica científica em outros pontos. Por exemplo, digamos que haja dois críticos analisando o mesmo livro. Ambos possuem o mesmo nível intelectual e vivem em um mesmo tempo e espaço. É cabível que cada um entenda de uma maneira e que os dois estejam corretos, por mais contraditórios que sejam seus jeitos de enxergar. Existem limites declarados na interpretação, como nota Umberto Eco, mas certas obras permitem visões corretas e muito diferentes entre si. Literatura é algo que não pode ser determinado. Não é um caos, é apenas um negócio que foge da necessidade de ser, de ter uma descrição objetiva. A literatura, além de não ser útil nem prática, sequer sabe o que é.
Pegue um livro sobre a História recente da África do Sul ou da América Latina. Leia-o. Os dados estarão lá. Datas, quem fez o que, quem morreu, quem matou, onde. Agora pegue Life & Times of Michael K, de Coetzee, ou Los Detectives Salvajes, de nosso querido Bolaño. Os dados estarão lá, mas disfarçados. Haverá poucas datas. Talvez não se diga quem fez o que, quem morreu, quem matou nem onde. Esses livros são representações de um tempo e de uma época sob o viés, as crenças e as sensibilidades de um único homem. Eles não mudaram ou impediram nada. Muitos morreram na África do Sul e muitos morreram na América Latina. São livros. Coisas. Palavras. Para que serve a literatura, se ela é incapaz de modificar o mundo? Ler não muda a vida de ninguém. Lamento, mais uma vez, informar. Muitas pessoas que fizeram coisas boas leram poucos livros e muitas pessoas que fizeram coisas terríveis eram grandes leitores (descobri tempos atrás que tenho uma afinidade literária forte com Stálin, para tu ver só). O máximo que pode ser tentado, a literatura engajada, geralmente fracassa. Não, não são os livros que mudam tuas ideias. É a vida.
É preciso tomar muito cuidado quando um governo decide que vai incentivar o “povo” (a massa sem identificação, todos aqueles que não a gente, os outros) a ler. Ana Cristina Cesar possui um texto chamado “Literatura Não é Documento”, no qual ela analisa o uso que a ditadura militar fez da imagem dos autores e dos livros. Recomendo. Fatos semelhantes se passaram em muitos outros lugares. A literatura, por ser do modo que apresentei acima, quase sempre é tratada como algo que precisa ganhar sentido e razão. Parece que há um desejo de torná-la útil e prática, de colocá-la no espaço comum de outros produtos. Quase nada me deixa mais melancólico do que entrar em uma destas livrarias de shopping e perceber a supermercadificação daquele espaço, com os livros expostos como se fossem roupas ou brinquedos. David Foster Wallace ao lado de P.S. I Love You, sem gradação. Literatura é um negócio sério. Isaak Babel foi fuzilado por escrever contos. Lembrem-se sempre de Babel. Ela exige compromisso e sacrifício. Ninguém vira um grande escritor, crítico ou teórico por nada.
A inutilidade da literatura é uma posição política. É um modo de olhar para a situação das coisas e declarar que não concordamos. Agora, enquanto muitos de nós estão pelas ruas respirando gás lacrimogênio, ela cumpre sua sina. A literatura é uma arma contra um mundo útil e prático. Desaprendemos a ver a beleza das coisas inúteis. Borges disse que as causas perdidas são as únicas que interessam. Borges sabia de tudo. Lembrem-se.