Mautner: um tropicalista entre Einstein e Jesus de Nazaré

Mautner para Tabaré por Gabriel Jacobsen-8

Um mito do tropicalismo, daqueles que muitos só conhecem porque Caetano vive tocando no seu nome, estava tocando de graça no Centro de Porto Alegre. Recitando. Fomos encontrá-lo, ver de perto o que havia de intensidade nele e na sua música. Como usou toda a sua voz no palco, cantando aos quatro ventos, e nos recebeu instantes depois, foi como se nos contasse um segredo, sem usar força nas cordas vocais ou filtro entre a mente e a língua. Seu pensamento? Simultâneo, como se estivesse a contar mais de uma história ao mesmo tempo e ou praticasse saltos quânticos na ideia. Fala como um poeta nada burocrático, que escancara seus mitos politicamente corretos ou incorretos.

No cérebro heptagenário de Jorge Mautner, um brasileiro transmiscigenado, se passa a própria conexão global. Ali, Jesus pode se tornar marxista ou Einstein se tornar tão judeu quanto o pai de Mautner, que casou com uma católica iuguslava com quem veio ao Brasil. Autodenominado O Filho do Holocausto, no Brasil foi criado por uma babá que lhe ofereceu o candomblé. Outro brasileiro, desta vez branco e seu padrasto, lhe ensinaria o violino, com quem dança no palco.

A entrevista ou conversa foi tão livre quanto permitiu o gerador que alimentava eletricamente o camarim em que estávamos e a toda a estrutura montada para o show, no chão de pedra da Casa de Cultura Mario Quintava. Dali, partiríamos para o seu hotel, onde ele sugeriu que continuássemos a conversa e onde poderia nos contar mais sobre os 40 anos de parceria com o violonista e guitarrista, também carioca, Nelson Jacobina – falecido há um ano. Entretanto, livre que é, não compareceu ao compromisso, marcado para às 23h30 no quarto 408, e sabe-se lá que delícias a noite porto-alegrense não lhe ofereceu. Quem sabe tenha dormido. A sua previsível liberdade, seu relativismo cristão, seu anarquismo governista… sabe-se lá onde lhe levam. Até as próximas páginas, com certeza levaram.

Porto Alegre te remete a que?

Ah, Porto Alegre… Desde sempre eu li Érico Veríssimo, Mario Quintana, e eu venho para cá desde 72 com o Nelson, sem parar durante essas décadas todas. E o Rio Grande do Sul, como o Caetano disse, é que nem a Bahia. Fundamental isso aqui. Vocês são… não precisa falar, não é? Eu voltei para cá também nas gravações do [programa do Canal Brasil] Oncotô, pesquisando as raízes negras, com Negrinho do Pastoreio. E Porto Alegre, pelo nível de leitura, de formação que tem, é fundamental para o Brasil.

Essa é a primeira vez que tu vens para cá desde que o Nelson morreu. Como foi essa parceria e como é tocar a bola para a frente?

Quarenta anos, dia e noite, vinte e cinco horas por dia, shows, militância, tudo, tudo, tudo, o tempo todo! A ausência é imensa, mas a presença é mais forte. Nós tínhamos um trato: o primeiro que morresse, o outro faria um show no mesmo dia. Claro que achei que seria eu, mas foi ele. Nosso último show foi em Jacareí [26 de maio de 2012] e ele deu um bis de 45 minutos. Foi impressionante! No palco as dores desapareciam, e também no encontro com a UNE, com o Partido Verde, com o Partido Comunista… A militância e a música causavam essa coisa nos neurônios que nem a metadona [poderoso analgésico] nem a pílula especial vinda do Estados Unidos resolviam.

Quando tu fazes um show como o desta noite, o que enxergas nos olhos dessa juventude?

Eu enxergo que vocês têm os neurônios saltitantes em ebulição absoluta. É a primeira geração que aprende, me compreende e me recebe totalmente, porque vocês são o sonho que eu imaginava que um dia, talvez, depois de eu estar morto, existiria. E veio tudo antes! Nossa, vocês estão vivendo o apogeu da história da humanidade, do meio ambiente, das doenças… em 20, 25 anos vocês vão viver 300 anos e farão tudo de novo, melhor que muitos.

E quanto às músicas produzidas por esta geração, consegues capturar uma nova identidade?

Consigo. É uma diversidade imensa, amagalmada, em que entra tudo, de ruído, de dissonância, tudo está absorvido hoje, e já estava aqui na cultura brasileira, nos tambores e tudo mais. Mas agora emerge num nível de universalidade. Tanto que eu repito: essa minha missão de consultor cultural das Olimpíadas é a urgência do planeta todo, de todos os países. Eles querem mimetizar, absorver o amálgama que o Brasil precisa irradiar. Isso foi apagado, ofuscado por vários motivos políticos. Mas tudo no Brasil é amálgama desde o início. Os tupis-guaranis, a escravidão, o governo compartilhado… é uma imensidão, uma originalidade, um salto em qualidade. E vocês representam isso com plenitude, como geração, como possibilidade concreta, com entusiasmo e, acima de tudo, com as suas ideologias, nos seus direitos humanos que imperam, a vontade do indivíduo – que são várias personalidades. Conhecimento dos poetas, Fernando Pessoa, o poeta é a única pessoa que pode ter várias personalidades ao mesmo tempo. Isso hoje a ciência dos neurônios captou. Vocês já sabem o que eu vou falar e vão além, porque já estão com essas informações mimetizadas e absorvidas no coração. Isso é impressionante! Vocês são as lideranças naturais, sem superiority or inferiority, já é uma igualdade dentro da diferença, com todos os relativismos. E quanto mais relativismo, mais escolhas fundamentais no amor.

Um dos teus primeiros livros e teu partido se chamam Kaos, mas tu também te dizes comunista. Como tuas esferas anarquista e um marxista convivem?

(Risos) É a simultaneidades das simultaneidades. Eu fiz o partido Kaos de 56 a 62. Quando eu publiquei Deus da Chuva e da Morte, eu fui convidado para entrar para o Comitê Central pelo professor Mario Schenberg – que trabalhava com Einstein. Einstein disse: “Ele é o único que pode continuar minha obra”. Mas Mario Schenberg preferiu por paixão pelo país vir ao Brasil e foi deputado. E ele disse: “Nós não queremos o realismo socialista. Nem cubismo, nem dadaísmo, nem surrealismo, nem nada pode retratar o novo ser humano. Somente uma nova mitologia”. Combinam bem. Agora, não existe mais ditadura do proletariado. Cuba também está caminhando para a democracia. O que acontece é o seguinte: pela internet, no mundo atual, o que interessa são os direitos humanos. Jesus de Nazaré que inventou os direitos humanos, o romantismo, o socialismo e, através do livre arbítrio, o liberalismo. Mas a afirmação primeira é do amor. Tratar o próximo como se fosse você mesmo. E ao mesmo tempo você é muitas pessoas, então a complexidade é cada vez maior. E todo mundo tem que ser poeta.

 

Mautner para Tabaré por Gabriel Jacobsen-4

O maior inimigo hoje de Jesus de Nazaré não é o Jesus pintado por diversas religiões? Como fugir disso?

Não há dúvida. Em Os Irmãos Karamazov, por exemplo, Aliosha, que é o monge, tem um pesadelo onde Jesus volta e a Inquisição o julga e afirma: “Nós sabemos que você é Jesus de Nazaré, mas agora você vai para a fogueira!”. O Marco Feliciano, por exemplo, é uma abominação, que usa os direitos humanos de Jesus, mas é totalmente o contrário. Mas isso é o tempo todo: temos que estar sempre em cautela com o nazismo, neonazismo, protonazismo e nazismo camuflado. Agora, claro que não é tudo mar-de-rosas, senão não teria graça, a dificuldade é o motivo para você continuar. Não é isso? Imagina, viemos da pré-história, um chimpanzé evoluído enlouquecido que foi, foi, foi, foi…

Mas existiu vida, felicidade, tristeza, antes de Jesus de Nazaré, não?

O mundo antes… Nossa Senhora! A historia é longa! O ser humano lá, na primeira hora, fome o tempo todo. Quando a horda estava perdida, ia lá caçar mamute, Era do Gelo, fazia as danças propiciatórias e tudo mais. Aí, por exemplo, eu morria na caçada e voltavam e enterravam o cadáver. Alguns sonham comigo e já vinha a ideia que não, não morreu, ele está aqui. Mesmo que eu vá embora, eu fico. A gente sempre fica, nos neurônios sempre está. O principal é a explicação. A explicação é a âncora do absurdo. “Ah, o Jorge Mautner, antes de caça, era pra cuspir quatro vezes na água sagrada, mas ele errou a última cuspida, desviou um pouquinho, então foi isso, por isso morreu”. Não interessa, qualquer explicação é a âncora do absurdo!

A ciência mostrou, através do Positivismo, que também é crença?

Virou crença. E o amigo do Augusto Comte, o Allan Kardec, ainda falou: “Então eu vou mostrar, vou criar o Espiritismo”. Foram duas ideias contemporâneas, quase científicas, inventadas. Mas a ciência hoje, nós chegamos em um ponto de dois mistérios absolutos que vocês vão ter que desvendar: a matéria porosa escura e a energia escura. A matéria porosa escura gruda as galáxias, para permanecerem juntas. E a energia escura faz o universo se expandir cada vez mais velozmente, e que em bilhões de anos vai se esmigalhar. É além do buraco negro, mais misterioso.

A democracia vai ser superada?

Pela democracia participativa e instantânea. Você vai votar num instante e não vai precisar de governo, vai ser descentralizado pela tecnologia. O caminho é esse. Ou você pode deixar os robôs sensitivos superiores cuidarem disso. Segundo um dos gurus da tecnologia, em breve estaremos acoplados a robôs.

E o artista onde fica com tanta máquina? Como lidas com a tecnologia?

Sou ligadíssimo tanto nos astrofísicos, como em Einstein e nos neurocientistas. Vou repedir o Heidegger, depois que ele se desdisse nazista: em breve, através da cibernética, viveremos em um planeta em que todos serão controlados e controladores simultaneamente. O Nelson Jacobina emendava dizendo que “não, serão descontrolados e descontroladores”. Heidegger disse também: a metafísica acabou, as respostas virão da ciência e da técnica. Dito e feito, o que os neurônios descobriram vai além de qualquer romantismo ou surrealismo. E depois, na única entrevista que ele concedeu, para provar que não era nazista, lhe perguntaram sobre o que achava do Sartre. E ele: “Quem? É um jornalista sensacionalista? Não conheço, não”. Depois perguntaram o que ele achava da bomba atômica, e ele: “Qual? A primeira ou a segunda?”. Mas qual foi a primeira? E ele: “Todo mundo sabe, foi Jesus de Nazaré”. Encerrada a entrevista. Além disso, com a tecnologia, o artista tem uma extensão magnífica. É uma extensão do nosso sistema nervoso, de nossos neurônios, de nossa capacidades. O science fiction se tornou realidade. O amor… os nossos neurônios são emoção pura, a maior abstração é a emoção.

E ao mesmo tempo tu estás no palco com o bom e velho violino, um instrumento de séculos atrás. E então?

O violino fica para sempre. É o violino de batuque que fica diguidiguidiguidigui. Dos ciganos. O Hitler tinha três vítimas preferenciais: os judeus, os ciganos e os homossexuais e por isso tinha raiva dos violinos dos ciganos.

Tu és um pouco cigano, judeu e homossexual?

Ah, tudo junto. Não existe isso aí, o ser humano é pansexual e são tudo escolhas, preferências. O ascetismo também é sexo e mesmo a castidade também é um ato sexual intrínseco. Tudo é dominado pelo sexo.

Freud?

A natureza carregou todos os animais. Os seres extremófilos não tinham sexo. Algas que viviam eternamente, tipo cloragem. A sobrevivência da espécie com pulsões e pressões inacreditáveis criou um ser mais sofisticado ao inventar os sexos masculino e feminino e isso permeia toda natureza. Você imagina que em uma ejaculação de esperma são milhões de espermatozoides e só um que vai pegar e conquistar. Ao mesmo tempo, a natureza esbanja o desperdício e não pensa muito em considerações detalhadas. De novo, é a simultaneidade. Isso está nos pré-socráticos, no taoísmo, que foi encaixotado, mas depois voltou. Ficou só com os poetas, com Jesus de Nazaré, com os profetas. Agora é a ciência. Bohr, Einstein, Max Planck, Stroedinger… eles só puderem desenvolver essa ciência atual, do cálculo das incertezas, por causa dessa conversa com os artistas. Foram eles que forneceram os parâmetros o tempo todo. Nossa irmandade é total.

Tu tiveste uma experiência intensa com as drogas. O que de melhor elas têm?

A visão mais resplandecente vem dos próprios neurônios. Vou repetir John Lennon: “o álcool e as drogas me deram asas para voar e depois me tiraram o céu”.

Tu combateste intensamente a ditadura militar através da arte e da militância. A Globo é, ao menos, acusada de ser uma das patrocinadoras desse golpe. Que papel que tu vês na Globo e como lidar hoje com a tua filha trabalhando lá, ou com o Pedro Bial, que dirigiu teu documentário?

A Globo, as organizações do Roberto Marinho, sempre tiveram um caráter de simultaneidade. Eles se colocaram logo contra a linha dura. Então, foi a quebra da hierarquia da organização militar… 90% do Exército era legalista e ia apoiar Jucelino. Já tinha até plano. E foi o Cabo Anselmo quem provocou isso. E o tempo todo foi costurado: o Exército que era legalista participou do Golpe porque tinha a Revolução Cubana na cabeça de todo o mundo e, até o Franco Montoro, nós não. Nós apoiávamos o Batista, imagina? O Partido Comunista tinha feito um tratado de co-existência pacífica, nacionalista, e aí veio o Fidel, e revolução você não breca. Ao mesmo tempo, veja a simultaneidade de Fidel: foi o New York Times que fez a propaganda. Mas aí a revolução teve efeitos totais. Mas, voltando para a Globo… ao mesmo tempo irradiava o contrário nas novelas. Tem vários comunistas trabalhando como escritores o tempo todo. Não estou dizendo que são comunistas, mas têm novelas como Cordel Encantado e Avenida Brasil , por exemplo. Eles é que impedem esse perigo de um governo ditatorial, populista em nome. E não é só, porque ao mesmo tempo tem outros lugares que querem pena capital. Pena capital no Brasil é matar os pobres, de novo, com legalidade. Isso são discussões que vocês vão resolver.

Você teve algum contato com o Brizola?

Muito. Eu trabalhei com o Brizola. Primeiro no meu livro, o Kaos, que foi escrito em 59 e publicado em 63. E depois, na volta dele, eu e o Gil apoiamos o Socialismo Moreno, participamos de comícios, mais de seis anos, dia e noite. E o próprio filho do Brizola, que acho que faleceu, foi quem propiciou o meu disco dirigido pelo Caetano.

Tu tens medo da morte?

Mas é claro, a morte… Imagina! Eu queria viver para sempre. O filho de um grande amigo meu, que está no filme, foi trotskista, é amigo do Fernando Henrique, disse: “que sacanagem eu pertencer à última geração dos mortais”. Vocês vão viver trezentos anos e não vão ter doenças. A ciência é o máximo! O tempo de vocês é a plenitude e o apogeu da humanidade, nunca houve tempo assim, e o Brasil é realmente abençoado e escolhido por vários acasos ou decisões. Estamos em um mundo novo mesmo para sempre. E os direitos humanos são essa amálgama. Está na Bíblia, cada geração tem que reconquistar sua liberdade e agora em um nível inimaginável.

 

Mautner para Tabaré por Gabriel Jacobsen-11

Texto: Gabriel Jacobsen e Beto Atles / Colaborou: Leandro Hein Rodrigues / Fotos: Gabriel Jacobsen